103. O Ringue dos Verofortes

103. O Ringue dos Verofortes
Ighan Pendragon, o Rei Mestiço de Saravessa.

Antes: 102. A Aurora no Castelo

538 cl. Van Hal. Os últimos anos têm sido favoráveis aos velgas. Após evitarem a invasão de Joy Divile pelas forças do Rei Mestiço de Saravessa, as tropas unidas de Dokhe e Hokhe conseguiram retomar Yaztrik e Galen, que há quase trinta anos estavam sob poder dos bárbaros. Mais do que isso, a aliança dos Quatro Reinos tinha decidido devolver a administração civil das cidadelas aos herdeiros legítimos da nobreza dos aliados gauleses e céltikos, mas o comando militar, e o poder de fato, ficaria nas mãos dos velgas. Pela primeira vez na História, a Clave tinha decidido pela manutenção de postos permanentes da cavalaria unida em terras estrangeiras. Pela primeira vez, também, Dokhe e Hokhe dividiriam a mesma sede, já organizados na forma das duplas idealizadas pelo General Jules Flanagan.

O clima geral é de otimismo, mas os representantes de Terras Altas temem os efeitos da recente escalada imperialista dos quatro reinos da Tetrarquia. Segundo a filosofia das Highlands, toda concentração de poder provoca uma reação de igual intensidade em sentido contrário. Por isso, um conservadorismo protecionista e discreto sempre foi a postura política tradicionalmente adotada pelos súditos do clã McFerris. Em condições normais, eles provavelmente ganhariam a discussão na Clave. Mas um evento inesperado faz com que os generais Jules Flanagan e Krul Petersen convoquem os seus mais valorosos e experientes oficiais para uma reunião na lendária távola de pedra em formato de ferradura: a notícia da aliança entre Ighan, o Rei Mestiço, e o Senado de Dankel, a maior das cidadelas do oriente próximo.

A cidadela independente de Dankel era conhecida como “Porta do Oriente Esquecido”, por conta de sua localização na entrada do Desfiladeiro de Áden, que leva ao povoado de Barbeij, às margens do lago Horanj. Situada no extremo sul do Mar do Leste, cercada pela floresta de Agnix, a cidade fortificada de Dankel foi construída em uma encosta à beira-mar. Governada por um Senado composto pelos habitantes mais ricos e poderosos do lugar, que geralmente também eram os responsáveis por todo tipo de crime na região, a cidadela tinha feito fama e fortuna no último século como uma área de livre comércio, mas apenas para aqueles que podiam garantir a própria segurança.

A aliança com Saravessa também significava que as portas de Dankel estariam fechadas aos velgas para o comércio dos produtos obtidos no Oriente Esquecido. Mais que isso, com a união, o filho da Rainha Anni de Viktoria tinha sido proclamado “Imperador do Leste” pelos bispos de Agnix, uma antiga ordem de feiticeiros eremitas. Segundo as informações de uma equipe de espionagem da Bruma, o acordo tinha sido selado por meio de uma tática cruel: Ighan Pendragon mandou sequestrar a família de Janus, um dos senadores mais ricos de Dankel, dono de muitas frotas de barcos que operavam no Mar do Leste. Chantageando Janus, Ighan estava conseguindo operar com sucesso todos os seus interesses na região.

Embora tenha perdido Yaztrik, o Rei Mestiço de Saravessa agora contava com a vassalagem de toda a faixa de reinos e cidadelas que se estendia de Shyne até Dankel, passando por Eredra, Treva, Darva, Haviland, Monserrat e Danzig. Indignado com a perda da coroa de Viktoria para a própria mãe, resgatada do exílio por aventureiros velgas, Ighan Pendragon reclamava novamente o trono, agora não mais como Rei, mas como Imperador. Assim, a querida rainha Anni poderia manter o título, mas teria de se curvar ao filho.

Para anunciar a proclamação de seu Império, o Rei Ighan também tinha planejado uma grande provocação aos inimigos: enviou mensageiros aos reinos de toda Asgaehart, conclamando rivais e aliados a enviarem representantes para a maior competição de luta que o continente já tinha visto, o teste definitivo para conhecer o melhor dos guerreiros. Ao vencedor do Ringue dos Verofortes, será oferecido um cinturão de ouro cravejado de pedras preciosas, além do direito de viver como um verdadeiro Rei em um dos castelos de Dankel, servido pelas melhores prostitutas da região, muitas delas que pertenceram aos salões nobres da lendária Jubo Ket, até a próxima competição, em prazo indefinido.

Além de tudo isso, todos na Clave conheciam as histórias sobre o grande tesouro guardado em uma câmara secreta de Dankel, fruto de décadas de atividade econômica clandestina, receptação de peças roubadas e todo o tipo de pilhagens ocorridos no violento Oriente Esquecido, muitas delas realizadas a mando da classe dominante da cidadela, notável por seu comportamento oportunista e traiçoeiro. Era muita oportunidade junta para ser desperdiçada.

Como não poderia deixar de ser, o falatório na Clave é muito tenso antes que Jules peça a palavra aos gargos gigantrixes. Pelo lado da Dokhe, Krul Petersen tinha convocado para a reunião o recém-promovido Toni Ferro, líder da equipe Krieg que garantiu a vitória das tropas velgas na Batalha do Vale dos Reis e a reconquista de Galen, no ano anterior. Desde o fim daquela missão, Ferro estava vivendo da glória e da fama conquistada, recebendo homenagens em banquetes da nobreza dos quatro reinos da Tetrarquia, e praticamente não dava as caras na cavalaria. Afinal, para não deixar furo com os colegas, ele tinha encaminhado as promoções de Melvis Merlin e Haia Kahn, agentes da Bruma, que estavam “plenamente capacitados para ocupar minhas funções no serviço de campo”, nas palavras de Ferro.

Os outros gargos gigantrixes discutiam entre si. Muitos queriam indicar seus maiores guerreiros para a missão em Dankel. Questionado por Jules se a equipe que tinha sido bem-sucedida em Galen poderia ser escalada, Ferro declara com muita convicção:

– Aí parceria… Pode colocar o Mago Merlin no comando. O cara é pica, eu garanto… E manda o Haia Kahn de frente, que o moleque é campeão. Cabelão maneiro, boa pinta… Tem dois negão muito bom de porrada também… Galera raiz de Joy Divile: Arley Vanila, animal de raça, preparado no puro sumo da banana, e Suva Kaun, que todo mundo aqui conhece, pois tirou pra nada aquele alamano brabo que o Rei Bastardo mandou…

Após a manifestação de Toni Ferro, vários oficiais pedem a palavra, para indicar seus representantes. No entanto, Krul Petersen faz valer sua patente de general e toma a vez, para defender as indicações de Ferro. Pelo convite, cada lutador poderia levar um treinador ou escudeiro. Ou seja, a equipe teria no máximo oito integrantes: um campeão de cada reino, e um acompanhante, que seriam destacados para duas missões no local: libertar a família do senador Janus e achar o tesouro escondido na cidadela.

Martin Mc Ferris se indigna com parte das indicações de Ferro e Krul:

– De novo essa porra, General? Suva Kaun de Joy Divile é um campeão, mas mago Merlin? Haia quem? Arley o que? Oito anos atrás, estávamos aqui nessa Clave, e o senhor ainda não estava por aqui… Alguns irresponsáveis queriam mandar um bando de moleques para matar Calto… Foi a Clave que teve de impedir esse absurdo! Inclusive foi um de nós que teve de liderar a missão: o bravo Bor Aussflag, que morreu para caçar o dragão de fogo!

A representante de Joy Divile, Diana Divile, da Hokhe, complementa as palavras de McFerris:

– Os outros eu também não conheço, mas o tigunar Suva Kaun é o campeão da minha cidade. Foi ele quem derrotou o guerreiro enviado por Ighan Pendragon, como disse o colega Toni Ferro. Suva tem o meu apoio! E indico o arqueiro Ipa Bier, que tem pura habilidade de mira, e faro apurado para ouro, para apoiá-lo na missão. Afinal, todos nós queremos achar aquele cofre lendário, não?

McFerris pede a palavra para indicar o seu campeão:

– Eu também tenho um atleta completo para trazer esse cinturão: Pet Xueize, um vulkânico trincado de forte, que maneja o arco, a espada e a lança com a mesma habilidade, além de nadar, cavalgar e correr mais rápido do que todos aqui!

– Na missão do Tiwaz eu mandei a real: se tiver gente demais a gente resolve é na porrada! – Decreta Darius Agazar, de Van Hal.

A discussão para montar a equipe estava apenas no início. Ferro começa a ficar preocupado, receando que alguém o indicasse, por conta do sucesso em Galen. Recém-promovido a gargo gigantrix, tinha passado os últimos meses vivendo de festa, e agora pensava na melhor maneira de escapar daquela missão.

Continua: 104. A Equipe para o Veroforte

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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