79. Uma Notícia Bombástica

79. Uma Notícia Bombástica
Sidji Neimagaiver, vilando de Joy Divile, lenhador da Hokhe.

[Antes: 78. De Volta ao Posto]

Algumas horas depois, no meio da tarde, Sidji retorna sozinho até o local da árvore queimada, onde os alamanos tinham erguido um posto de observação. Como não havia nenhuma movimentação no local, o lenhador vilando resolveu subir até o posto para ver o panorama. Seu parceiro Kingsaiz tinha preferido aguardar a realização da cruel penalidade de estupro contra o soldado alamano para seguir até lá.

Era uma árvore alta. No topo, tinham instalado uma plataforma quadrada, com cerca de dois metros de lado, confeccionada com tábuas grossas. Havia alguns fardos com água, odres de rum vazios e restos de comida espalhada pelo chão. Num canto, muitas aljavas com flechas de madeira e pontas de ferro, quatro arcos longos e, para a surpresa de Sidji, um pequeno velho ileano, de aspecto mendigo, dormia pesadamente, parecendo bêbado.

Sem pensar muito, o lenhador desce o machado no pescoço do velhinho mendigo, decapitando o pobre homem. Olhando ao redor, Sidji observa o lindo visual proporcionado pela altura, com uma vista privilegiada de Joy Divile. Para observar o lado inimigo, aquele posto já não servia muito, pois estava localizado na encosta oposta da colina. Mas dava pra ver ao longe, nos arredores de Shyne, que os alamanos tinham reunido pelo menos dez mil homens acampados na região. Certamente estavam preparando uma marcha, o que não era uma novidade para o pessoal da barreira, que comentava sobre a possibilidade de um ataque iminente.

Alarmado, Sidji pega a cabeça do velho mendigo e começa a descer dali. Mas assim que coloca os pés nas estacas que serviam como degrau, ele avista dois guerreiros alamanos subindo a encosta do lado oposto, ainda ao longe. Que merda. Devia ser a troca da guarda. Se continuasse a descer, certamente seria visto. O vilando então volta à plataforma, pega um arco e procura se entocar no local, pronto para atacar. Quando os dois bárbaros chegam ao sopé da árvore e avistam o tronco queimado, tentam se comunicar com os companheiros de cima:

– Hey, Ted! Joe! Are you guys there?!

Sidji fica em silêncio e começa a acender uma fogueira. Os caras gritam novamente:

– Fuck, Ted! Are you sleeping there?

Mas uma gota de sangue do velho decapitado por Sidji pinga na cabeça de um dos bárbaros. Impressionado com aquilo, ele olha ao redor e consegue ver os demais rastros de sangue e marcas de luta que tinham ocorrido mais cedo. Horrorizados, os dois alamanos começam a dar machadadas na árvore. Seja o que estivesse lá em cima, iria cair.

Sentindo a vibração da árvore, Sidji se posiciona na beirada da plataforma e começa a atirar fechas na direção dos inimigos. Como não era um exímio arqueiro, ele erra suas tentativas, enquanto os bárbaros pareciam ter bem mais sucesso com os golpes de machado. Desesperado, Neimagaiver escuta o estalo alto do tronco, prestes a envergar. Ele então tenta se agarrar no lado oposto ao que a árvore estava se inclinando. Mas a queda de 25 metros é violentíssima, fazendo explodir tudo o que estava na plataforma: tábuas, fardos, flechas, o cadáver decapitado do velho e o próprio Sidji, que se arrebenta no chão.

Enquanto cavalgava para o local, Kingsaiz vê ao longe a árvore sendo derrubada, e logo depois o forte estrondo. Ele aperta o passo, deixa seu cavalo amarrado e sobe novamente pelo matagal da encosta da colina, rumo ao bosque de eucaliptos.

Mas, quando o vilando chega ao local, só avistou o cadáver de Sidji desfigurado e desmembrado, na forma de sacos de sangue coagulado, tomado completamente por fraturas expostas causadas pela terrível queda. Pelo menos agora o posto tinha sido derrubado, e Tiaun Agazar ficaria satisfeito.

Kingsaiz então recolheu os pedaços de Sidji e a cabeça do velho mendigo, que também estava por ali, e juntou os restos mortais em um alforje, visando entregá-los para os necromantes. Quando o vilando finalmente retornou com as notícias, que incluíam a morte de mais um guerreiro, o chefe da barreira ficou ainda mais apreensivo.

Após o ritual dos necromantes, o clima ficaria ainda mais pesado. Não apenas com a visão da morte horrível que tinha vitimado Sidji, mas também a confirmação de que os alamanos estavam prestes a atacar. Quando ao velho, nenhuma informação valiosa. Tratava-se mesmo de apenas um andarilho nativo daquela região, que vivia importunando os bárbaros do posto, implorando bebida. Quando o pobre coitado percebeu que os guardas tinham sido mortos por Kingsaiz e Sidji, subiu até a plataforma, onde encheu a caveira com todo o rum que pode tomar. Pelo menos tinha morrido desmaiado, sem sentir absolutamente nada.

Após relatar as principais visões, quando todos já estavam retornando a seus respectivos postos, Lager Bier, irmão do falecido Ale, interrompeu o ritual que estava fazendo com uma das cabeças, com uma exclamação de espanto:

– Puta que o pariu! Reabriram a Jubo Ket!

Observando as memórias mais antigas do alamano, o necromante acabou descobrindo que os piratas ileanos do Mar do Leste tinham reaberto a lendária taberna. Os mesmo piratas que tinham sequestrado a então Princesa Anni de Viktoria, há mais de 20 anos. A “Jubo Ket”, que significava “Templo da Perdição” na antiga língua nativa do oriente. Numa praia de águas calmas próxima de Dankel, à beira-mar, ele podia ver o templo, formado por imensas colunas de mármore que sustentavam um teto triangular ricamente decorado, com largas telhas de madeira. No imenso pier que avança mar adentro, estavam ancorados centenas de barcos, de todos os tipos, o que indicava que havia gente de toda Asgaehart. Assim como no pier e no templo, todos os caminhos eram iluminados por tochas sustentadas por pequenas hastes.

Quando Lager fala o nome do estabelecimento, todos os companheiros na barreira se voltam para ele, interessados na história. Após o ritual, o necromante passa a beber seu cantil de rum sem parar, tentando se manter calamo. Afinal, não tinha ninguém ali que não conhecia as lendas sobre a Jubo Ket e a sua coleção de prostitutas para todos os gostos e todos os preços. Se era verdade que toda vez que alguém resolvia reabrir a taberna a história terminava em tragédia e desgraça, com inúmeras execuções, também era verdade que muitos voltavam de lá dizendo que tinham vivido a melhor experiência de suas vidas. Sexo, drogas, música e jogo em quantidade e qualidade, mas apenas para quem fosse malandro. Os otários podiam perder a vida ou até mesmo algo pior.

Segundo as lendas, entre outras características bizarras, o portal de entrada da Jubo Ket apresentava uma inscrição que dizia: “Aqui se fode com força”.

As histórias contadas pelos mais velhos também davam conta de que haviam diversas galerias no Templo da Perdição. Muita perversão, para todos os gostos. E inúmeras execuções. No primeiro nível, tudo se parecia com uma taberna qualquer, com meretrizes comuns e muita bebida. Mas a partir da segunda galeria, a coisa mudava de figura. Prostitutas de luxo e drogas mais pesadas esperavam quem tivesse cacife para bancar o jogo. Com certeza também havia uma terceira galeria, disponível apenas para a “alta nobreza” do lugar. Mas alguns diziam que o quarto nível era literalmente de outro mundo. Mas, quem quisesse comer o filé, primeiro teria de roer o osso.

Na última ocasião em que tinha sido reaberta, há quase cinquenta anos, no fim do século V, o Templo da Perdição alcançou uma fama enorme durante os poucos meses em que recebeu seu público. Mas, como sempre, um dia o caldo entornou e tudo foi destruído por Crisagon Dux, que na época já era um jovem cavaleiro de Hevelgar. De acordo com algumas fontes, sua escolhida tinha sido raptada para trabalhos forçados na Jubo Ket. Para outros, Dux na verdade tinha se apaixonado por uma das prostitutas do lugar, e perdeu completamente a razão quando não foi correspondido.

Quando já começava a se instalar uma discórdia para decidir quem seriam os “voluntários” para “investigar” a situação perto de Dankel, Tiaun Agazar decreta:

– Eu que vou nessa porra.

Olhando ao redor, ele escolhe apenas os melhores parceiros para seguir com ele. Todos os soldados ficam na expectativa de serem chamados, mas o chefe aponta primeiro para o velga Lager Bier, que já estava bêbado àquela altura, mas tinha sido quem descobriu a notícia de reabertura do Templo da Perdição. Logo depois, Tiaun chama o vilando Kingsaiz, que era traumatizado com o estupro da mãe sua filha Kezia, que herdaria “tudo” o que ele tinha, dentro de muito em pouco tempo. Assim que foi escolhido, KIngsaiz correu para tomar um banho, coisa que nem lembrava quando tinha feito pela última vez:

– Jubo Ket, lá vou eu! – Comemora Kingsaiz no banho, muito feliz com a escolha.

Avaliando com muita calma, o chefe chama Atwalsu, por quem tinha um certo carinho. Mestiço de raça indefinida, com traços velgas, tigunares e ileanos, pele parda, cabelos crespos e olho amarelo, sua mãe era uma prostituta que atendia os soldados da região, e morreu no parto. Como Tiaun lembrava que trabalhou justamente num dos campos onde a mãe de Atwalsu servia, o jovem guerreiro podia ser seu filho, assim como de qualquer outro soldado daquele tempo. Criado de forma largada num bordel de Joy Divile, Atwalsu desde cedo se interessou pela mesma carreira militar de seus possíveis pais.

– Boa, chefe! Eu não podia ficar de fora dessa missão! Muito importante profissionalmente. – Comenta Atwalsu.

Para fechar o grupo, também foi convocado Arlovski Vanila, um tigunar muito escuro que Tiaun só chamava de “Arley”. Pelo tom da pele, o resto da tropa se referia a ele como “O Iluminado”, de forma obviamente sarcástica. Houve protesto quando Tiaun comunicou que o resto ficaria na barreira, mas o chefe não deu ouvidos. Passou o comando para o jovem Tartaruso, um cavaleiro do Reino de Aquitan recém-promovido da ACAFAM, e partiu rapidamente para a missão.

A chance era essa. Como nas outras vezes, era certo de que alguém muito puto logo ia botar aquela porra toda abaixo, e ele não podia perder a oportunidade de conhecer o Templo da Perdição, aquele mesmo das histórias mais loucas contadas por seu avô.

– Agora já era. – pensou Tiaun: – Que se foda.

[Continua: 80. Rumo a Dankel]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: