38. Alerta na Ilha

38. Alerta na Ilha
Adjaian Gigan, cadete dos Corvos, vilando filho de Vandu e Bretanique.

(Antes. 37. Luta ou Chorume?)

Pulando no poço de chorume, Niuton McFerris tinha se livrado dos cães, que se afastaram instintivamente daquela mistura nauseantee passaram a perseguir o resto dos falcões. Sangue, gordura, pus, fezes, urina, excrementos e outros fluidos dos animais que eramabatidos ali faziam parte do líquido podre de cor caramelo, um subproduto da extração de carne, couro e outros materiais. Só no último diplodonte, milhares de litros de detritos tinham sido despejados ali. Apesar do fedor sufocante, Niuton consegue resistir sem vomitar.

Seguindo pelo canal de esgotamento mergulhado no chorume, ele alcança o galpão central do abatedouro. Lá, Niuton avistou o repugnante Casca de Suvaco, aparentemente desmaiado numa cadeira, rodeado por restos de comida e muitos tonéis vazios do vinho ruim que ele mesmo fabricava ali. Aquele sujeito morbidamente obeso não tinha despertado com a correria dos cachorros. Alguns tonéis estavam derramados pelo chão, o que conferia um aspecto grotesco à cena, iluminada por uma lamparina à óleo ao lado da cadeira. No meio da sujeira, quatro enormes Pastores dos Piktos montavam guarda ao lado do dono.

– Vou fugir dessa porra e esfregar minha insígnia na cara do Vandu… – Pensou Niuton, enquanto bolava um plano para chegar ao litoral norte da ilha.

Enquanto isso, seus colegas já sofriam para lutar contra os dois cães. Jules e Kathra conseguem ferir um dos bichos, mas Angelus e Jon levam desvantagem na primeira investida. Os animais se enfurecem, mas os falcões começam a se acostumar com a briga. Para sorte dos cadetes, a movimentação não tinha sido ainda percebida pelos guardas nas torres de vigia. A cada ferimento, os bichos pareciam ficar mais agressivos. O pequeno Jon sente isso na pele, quando acaba sendo derrubado por um deles. Angelus tenta agarrar o cão para salvar o amigo, e consegue imobilizá-lo por tempo suficiente para que Tudur se levante.

Jules e Kathra tentam fazer o mesmo, mas como não eram tão fortes quanto o jovem tigunar, acabam desistindo quando levam muitas mordidas por todo o corpo. O vulkânico tinha soltado a lança e já estava com vários rasgos na pele, e uma dentada forte no braço prejudicava os movimentos do líder dos falcões. Jules acaba sendo derrubado pelo cão, e Kathra desmaia após ser novamente mordido e sacudido pelo ombro.

Nos fundos do abatedouro, ainda mergulhado no chorume, Niuton ouve a confusão na colina, e decide agir rápido. Casca de Suvaco continuava apagado, mas os outros guardas logo perceberiam o que estava acontecendo. Ele então cata no fundo da poça um pedaço de osso, e se lembra da poeira cristal. Embalado em um pequeno saco de couro que já estava quase encharcado pelo chorume, o pó ainda seria útil. Niuton aspira o que pode, se esforçando para suportar o fedor. Em segundos, ele sente o poder da droga, que aguça seus sentidos e suas habilidades. No dia seguinte, teria de encarar uma ressaca monstruosa, mas agora ele precisava garantir o êxito do plano. Com precisão absoluta, ele arremessa o osso na direção da lamparina a óleo. A chama se espalha pelo vinho derramado no chão, provocando um incêndio no local. Aproveitando o desespero do velho Casca, que acorda ao sentir os pés queimando, Niuton dispara em direção ao barranco, com os cachorros atrás dele.

Enquanto isso, na colina do curtume, Angelus continuava segurando um dos cachorrros, e Jon corre para pegar a lança caída no chão, gritando:

– Hatxa, Djou!

O filho de Vandu usa toda sua força para manter o animal preso, até que Jon crava a lança no pescoço do cão. Sem perder tempo, os dois correm para ajudar os amigos que já estavam levando um grande prejuízo. Por trás, Angelus acerta um bico certeiro e nocauteia o cachorro, salvando Jules de terminar como Kathra.

Mas, para azar dos falcões, dessa vez a bagunça tinha sido percebida. Os vigias acendem as tochas, emitindo um alarme para todos os guardas da ilha. Eles sabiam que, em pouco tempo, o próprio Big George estaria ali para caçá-los.

Rolando com agilidade pelo barranco para escapar dos cães, Niuton também escuta o alerta geral. O jovem nobre de Terras Altas consegue chegar com apenas alguns arranhões à parte mais alta do penhasco na costa norte da ilha. Estava imundo por causa do chorume, mas inteiro.

– Eu falei praqueles putos virem comigo… – Pensa Niuton em voz alta, enquanto avalia as condições para saltar dali rumo ao Mar de Hill.

Na área dos fornos, Hanna, Adjaian e Kron já estavam bem próximos das catacumbas para lutar com os cavaleiros, quando se assustam com o alerta geral. No local, porém, a imagem dos guerreiros se desfaz no ar. Eram apenas ilusões produzidas pelo velho ferreiro. Os três são recebidos pelo próprio Doutor Mengele, sorrindo com seus dentes amarelados e armado com o bastão de ferro que ele usava costumeiramente para espancar os preguiçosos que se recusavam a trabalhar direito.

Mengele aproveita a surpresa para rodar seu cajado na direção dos cadetes, ferindo Adjaian e derrubando os outros dois com o mesmo golpe. Apesar de parecer, não era tão velho assim. Era bastante ágil, aliás. Com destreza, o ferreiro tenta acuá-los, mas Hanna e o vilando conseguem contê-lo lutando em parceria.

Percebendo que os guardas logo chegariam ao local, Hanna grita para Kron e Adjaian:

– Precisamos pegar Luna e Viktor agora!

– Vão vocês! Eu me viro contra esse velho! – Responde Adjaian, enquanto se esquiva de um golpe do pesado cajado de metal.

Hanna joga a lança para Adjaian. Ela e Kron deixam o vilando lutando sozinho, e correm para resgatar os amigos desacordados. A líder dos corvos começa a arrastar o pequeno Fuscão, enquanto o agunar pega a vilanda. Mengele continua sorrindo debochado, e Adjaian devolve a provocação:

– Agora é só eu e você, Mengele…

O jovem vilando também gira a lança nas mãos, usando a mesma tática para intimidar o ferreiro. O velho se aproxima gingando, mas acaba levando um golpe certeiro no abdômen, e tomba ao chão. Adjaian avança na direção de Mengele, e o derruba novamente com outra porrada. Agora o velho já não estava mais sorrindo com aquela dentadura feia. Percebendo que suas chances de fugir estavam no fim, pois já podia ouvir a movimentação dos guardas se aproximando, o vilando desfere uma pancada na cabeça do ferreiro, que finalmente cai desmaiado.

– Vai tomar no cu, velho! Aqui é Gigan, porra! – Grita Adjaian olhando para o corpo do Doutor Mengele estirado no chão, antes de sair correndo na direção dos colegas.

(Continua: 39. Fuga de Fedo)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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