39. Fuga de Fedo

39. Fuga de Fedo
Angelus Gigan, cadete dos Falcões, tigunar filho de Vandu e Bretanique.

(Antes: 38. Alerta na Ilha)

Tomado pela coragem característica de alguém intoxicado pela poeira cristal, Niuton salta do abismo de cerca de 40 metros para as águas do Mar do Hill. Ele sabia que um erro ali poderia resultar numa paralisia ou até mesmo na morte, mas não hesitou antes de se jogar. Se estivesse em pleno domínio das faculdades mentais, talvez resolvesse descer um pouco mais no penhasco para tentar um salto mais seguro de outro ponto, mas naquele momento ele estava se sentindo como um super homem.

Quando o jovem de Terras Altas cai na água, sente um impacto fortíssimo nas costas, como se tivesse levado um coice de cavalo, mas dá sorte de não bater em nenhuma pedra. A dor era quase insuportável, certamente tinha quebrado alguma costela, mas preferia ver as coisas pelo lado positivo: agora ele estava limpo, e livre daquele fedor horrível. O mar estava calmo, mas Niuton olhou para a travessia de quase duas milhas na água gelada até o litoral, e sentiu que era demais, mesmo cheio de pó na ideia. Seria bem melhor seguir margeando as pedras até o cais que se localizava na costa oeste da ilha, para tentar roubar algum bote.

No curtume, após terem se livrado dos cães, Angelus carrega Kathra, que estava desmaiado por conta da quantidade de sangue que tinha perdido com as mordidas, e foge para o matagal ao lado da colina junto com Jules e Jon. Por um momento, chegaram a pensar em pular no poço de chorume, mas logo desistiram quando perceberam que seria uma péssima ideia para quem já estava cheio de feridas. A tropa liderada por Big George já estava a caminho, e quando os falcões sentem a proximidade dos guardas, reagem com certo desespero:

– Fuck it! – Grita Angelus.

– Fala baixo, porra… – Sussurra Jules, pedindo silêncio, enquanto se embrenham no mato.

Jules e Jon precisam andar mais devagar para acompanhar o amigo, que segue lentamente por conta da carga pesada. O gerente do campo de concentração tinha convocado quase todos os guardas para aquela perseguição. Era questão de honra não deixar ninguém fugir dali. Enquanto rondava o matagal com os cachorros, o tigunar obeso fica berrando ao vento, para que os fugitivos ouvissem:

– Não adianta, molecada! A casa caiu pra vocês!

Os falcões seguem na surdina, tentando não fazer barulho. Big George continua:

– Melhor se entregar, hein? Se não, vou encontrar e vou esculachar!

Suando frio, os três continuam correndo no mato, sem olhar para trás.

– Katrinha! Teu tio vai comer seu rabo, molecão! – Big segue ameaçando, antes de fazer uma proposta “amigável” – Senta aqui comigo, vamos conversar!

Os cachorros começam a se aproximar dos fugitivos, farejando no matagal.

– Ô Angelus! Tá querendo me prejudicar, molecão? – Grita o gerente do campo, antes de continuar expressando toda a sua contrariedade com a situação:

– Logo vocês? Tudo moleque da Academia, porra…

Atrás das catacumbas de Mengele, os corvos também penavam para fugir pelo lado leste da ilha. Adjaian pega Luna, que era a mais pesada, e Kron carrega Viktor, deixando Hanna livre com a lança para qualquer eventualidade. Mesmo com o peso extra, o jovem vilando consegue correr com agilidade pelas pedras que descem até o litoral, assim como Hanna e Kron. Mas quando os cachorros chegam ao local para persegui-los, um deles já chega mordendo a panturrilha do agunar, que se esforça para carregar Fuscão.

Vendo o amigo em dificuldade, Adjaian deixa Luna no chão e parte para ajudá-lo. Kron enfrenta muitas dificuldades, pois não podia largar o jovem mago ali para lutar com as mãos livres. Se não fosse pela ajuda providencial do filho de Vandu, provavelmente ele teria o mesmo destino de Kathra. Hanna também chega de surpresa, e consegue acertar uma estocada firme no bicho, que fica ainda mais furioso.

Com o reforço dos outros corvos, Kron larga Viktor. O cão fica cercado, e quando tenta investir na direção do agunar, Adjaian consegue acertá-lo com um chute, o que expõe o animal a um golpe certeiro de Hanna. Já escutando a aproximação de mais guardas e cachorros que fazem buscas na encosta de pedras, os três voltam a fugir por uma trilha, ainda carregando os desacordados. Quando finalmente alcançam o mar, um banho gelado faz com que Fuscão e Luna despertem, e eles começam a discutir o que fazer para sair da ilha.

– Vamos contornar a ilha pelas pedras, galera… Não rola atravessar a nado. – Diz Fuscão, ainda meio grogue devido à bruma de sono.

– Eu vou nadar. Os falcões a essa hora já devem estar na frente. Não podemos deixar que eles ganhem o desafio. – Responde Hanna, com convicção.

– Qual vai ser, Fuscão? – Pergunta Adjaian. Sem receber resposta, o vilando tenta estimular o amigo:

– Vamos nadar, porra.

Hanna larga a lança e mergulha na água fria. Luna segue a amiga, pois já se estava se sentindo melhor, e também era uma boa nadadora.

– Eu não tenho como nadar. Vai ser vala. Quem tiver condição vai a nado. – Resolve Viktor, enquanto começa a procurar no local alguma coisa que pudesse ajudá-lo a flutuar para sair da ilha. Em breve os guardas chegariam até aquele ponto.

Adjaian fica indeciso, e chega a entrar na água para começar a nadar. Kron pergunta;

– Cara, dá pra contornar a ilha? Tô querendo evitar a porra da água…

– Vamos demorar muito tempo. É mais rápido nadar. – Responde Adjaian.

Enquanto Adjaian e Kron discutem, Hanna e Luna já se afastam da ilha a nado. Numa área perto da encosta, Viktor encontra alguns troncos de madeira caídos, grandes o suficiente para impedir que se afogassem, e avisa aos amigos.

– Vamos nesse tronco e foda-se. – Diz Adjaian, já se adiantando para ajudar Fuscão a trazer o pedaço de árvore para a água. Kron se junta a eles.

Enquanto isso, no matagal que toma os fundos do curtume, os falcões continuam tentando fugir dos cães. Sentindo um dos bichos já bem perto, eles decidem parar para enfrentá-lo. Teria de ser bem rápido, pois ao contrário logo chegariam os demais guardas, e a fuga terminaria quando Big George os encontrasse.

Assim que o cachorro chega perto, Jon tenta acertá-lo com a lança, mas erra. Na confusão, o bicho leva a pior no confronto com Jules e Angelus, que larga Kathra para lutar. Sentindo a adrenalina do momento, o vulkânico acorda. Tinha perdido alguns nacos de carne, mas ainda estava vivo. Percebendo que um dos guardas já estava chegando na área, os falcões aproveitam a vantagem na briga contra o cão para tentar fugir pelo mato. Jules, Jon e Kathra estavam escapando, mas decidem voltar quando veem que o cachorro conseguiu morder a perna de Angelus. Com muita raiva, os falcões finalmente matam o bicho, e voltam a fugir.

Desesperados e cercados pelos cachorros e guardas, os quatro correm pelo matagal até o penhasco. Sem alternativas, saltam do ponto mais alto. Jules e Jon, mais leves e mais ágeis, conseguem se sair bem, mas Angelus e Kathra também têm algumas costelas quebradas com o duro impacto na água. Na queda, Jon larga a arma que ainda estava carregando.

– Fuck it! – Grita Angelus, suportando uma dor lancinante, enquanto tenta boiar para respirar um pouco.

Muito prejudicado, Kathra avisa aos demais que não vai conseguir nadar até o litoral. Eles precisam arrumar um barco.

Bem mais à frente que os demais falcões, Niuton chega até o único cais da ilha, onde encontra um bote mais afastado. Providencial. Dali, ele conseguiu escutar o barulho de seus amigos se jogando na água, ainda bem longe. Mas, como gostava de repetir, Niuton McFerris era um especialista em “gestão do tempo”. O seu tempo.

– Alguém quer ir comigo de bote? – Pergunta Niuton de forma irônica, já que estava sozinho no cais. Como ninguém tinha respondido, ele toma a pequena embarcação e começa a remar tranquilamente para fugir da ilha.

(Continua: 40. Travessia ao Litoral)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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