40. Travessia ao Litoral

40. Travessia ao Litoral
Kathra, cadete dos Falcões, vulkânico filho de Iuri Petersen.

(Antes: 39. Fuga de Fedo)

Hanna e Luna já estavam bem distantes quando Adjaian, Kron e Viktor começaram a boiar em cima do tronco. Inicialmente, a correnteza começou a arrastá-los para longe da costa, mas Fuscão deu um jeito de arrancar uns galhos da árvore e usá-los como remo, para corrigir a rota. O vilando e o agunar fazem o mesmo, para ajudar na navegação. Se, por um lado, os três conseguiram se afastar da ilha quando os guardas chegaram à costa leste de Fedo, por outro, naquele ritmo levariam horas para chegar em terra firme.

– Tomanocu pardal! – Grita Kron, lamentando o fato de que certamente não conseguiriam vencer aquele desafio.

Mais a oeste, Jules, Jon, Angelus e Kathra ainda tentavam se recuperar do perigoso salto. Mas, quando Jules olha para a água, e enxerga à distância duas pessoas nadando da costa leste em direção ao continente, bem iluminadas pelo brilho das três luas, teve a certeza de que uma delas era Hanna den Darklands. Sem pestanejar, o líder dos Falcões faz valer suas habilidades atléticas, e também inicia a travessia a nado.

– Vejo vocês do outro lado, galera. – Diz Jules, antes de concluir sua explicação – Niuton deve estar na frente, mas não podemos correr o risco de Hanna alcançá-lo na escalada da Chapada de Hill.

Sofrendo com as dores das costelas quebradas, Angelus e Kathra nadam com dificuldade até as pedras, para tomarem um pouco de fôlego. O jovem Tudur acompanha os amigos, preocupado com a situação.

– Pra mim é melhor a gente tentar chegar ao cais. – Diz Angelus, enquanto descansa um pouco.

– Que merda. – Responde Kathra, concordando.

Os três falcões seguem contornando o litoral da ilha com cuidado, até o cais. Quando chegam até lá, ainda se escondendo atrás das pedras costeiras, percebem que dois guardas estão vigiando o local, e parecem discutir quem deve levar a culpa por um dos fugitivos ter roubado um bote. Eles estão num pequeno barco, a única embarcação disponível ali.

– Vamos porrar esses caras, Angelus… – Sussurra Kathra, antes de continuar:

– Devemos perder um tempo aqui, mas Niutin “banho de merda” já garantiu a vitória do nosso grupo…

– Ok. Porrada nos guardas… – Responde Angelus.

O pequeno Jon escuta a conversa dos amigos mais velhos com apreensão, mas não fala nada. Os caras não conseguiam nem andar direito por conta das lesões, mas continuavam querendo briga.

– Que se foda! – Exclama Kathra, já entrando de volta na água para surpreender os guardas no barco que estava ancorado.

Os três falcões seguem mergulhados na beira, planejando o que fazer quando chegassem perto do alvo.

– Angelus, eu e Jon vamos sair na mão com os caras, e tu já vai desamarrando o barco pra gente não perder tempo. Quando estancar a porrada, logo vai descer uma galera pra pegar a gente… – Sugere Kathra.

– O quê?! Eu vou lutar, claro… Jon desamarra o barco. – Rebate Angelus.

– Não, cara. Jon tá melhor que a gente pra lutar… – Devolve Kathra.

– Vou pra porrada. Desamarra você então. – Insiste Angelus.

– Porra, Angelus. Desamarra essa porra. Tu já me carregou nas costas hoje… – Apela Kathra.

– Ok então… – Aceita Angelus, contrariado.

Agindo na surdina, os três chegam de surpresa no barco. Jon salta rapidamente da água e ataca um dos guardas, mas Kathra tem alguma dificuldade para subir, sentindo muitas dores pelo corpo. Enquanto isso, Angelus segue para o ancoradouro e começa a soltar as amarras.

Embora desarmado, Jon Tudur II consegue fazer frente ao guarda, que tenta usar uma lança para golpeá-lo. Mas Kathra, que mal consegue andar direito, toma logo uma porrada e cai no convés da pequena embarcação.

– Vem Angelus! – Grita Kathra, já temendo o pior.

O jovem tigunar larga as cordas e sobe no barco, respirando com dificuldade por causa da costela quebrada. Jon continua se virando bem contra o outro guarda. Kathra tenta se levantar, mas leva outro golpe duro que o derruba novamente. Angelus entra na frente para proteger o amigo, mas também leva um atraso.

– Queda ele que eu ajudo a pegar o pé desse cara! – Grita Kathra.

Aproveitando a vantagem de tamanho, Angelus agarra a lança e tenta medir forças para derrubar o rival, mas a dor nos ossos impede a projeção.  O guarda aproveita o vacilo e desfere uma porrada no tigunar, mas agora é a vez de Kathra defendê-lo.

Com horror, os três falcões percebem que mais guardas já descem a escadaria rumo ao cais. Agora estavam fodidos. No desespero, o jovem vulkânico convoca os companheiros:

– Hora da rataria, galera! Jerônimo!

Kathra é o primeiro a se jogar do barco, mas cai na água de mau jeito numa parte rasa. Angelus tem um pouco mais sorte no salto, e consegue se manter submerso até alcançar uma área pantanosa perto do cais, onde resolve ficar escondido, apenas com os olhos para fora da lama. Ainda em plenas condições físicas, Jon mergulha para o fundo do mar e continua prendendo a respiração até se afastar do barco.

Os guardas capturam Kathra, que naquele momento estava completamente retorcido de dores, mordido, quebrado, anêmico, cansado e puído. Ele sabia que logo seria entregue aos cuidados de Big George, que encheria sua cara de tapas. Considerando a situação extremamente precária em que se encontrava, no entanto, o filho de Iuri Petersen já achava que não seria nada mal terminar com todo aquele perrengue, desde que não fosse esculachado. Esculacho não. Aí seria melhor matá-lo. Mas obviamente ninguém ali faria isso com o filho de criação de Vandu. Uns tapas na cara estariam de bom tamanho.

No bote, Niuton já comemorava a grande vantagem. Olhando para trás, viu Jules, Hanna e Luna nadando, a uma grande distância. Mais longe ainda, se esforçou para enxergar um tronco que boiava com algumas pessoas. Começou a rir sozinho. Só podiam ser os corviados. Ainda sob efeito do pó, com olhos vidrados e engolindo saliva sem parar, começou a cantar enquanto remava:

– Yo! Ho! Ho! E uma garrafa de rum! Deu briga a bebida, saiu confusão! E não sobrou nenhum!

A costela doía em cada puxada, mas ele ainda tinha forças para berrar seu grito preferido:

– Vandu! Vai tomar no cu!

(Continua: 41. A Cabana no Penhasco)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: