41. A Cabana no Penhasco

41. A Cabana no Penhasco
Felice Luna, vilanda de Darklands, Cadete dos Corvos.

(Antes: 40. Travessia ao Litoral)

Após remar durante pouco mais de uma hora para atravessar o canal que separava a Ilha de Fedo do litoral sul da Chapada de Hill, nas terras que historicamente pertenciam aos vassalos do Reino de Aquitan, Niuton McFerris desembarca com o bote no sopé de uma escarpa íngreme de pouco mais de 80 metros. Para completar o desafio em primeiro lugar, restava ao jovem das Terras Altas escalar aquela parede de pedra e terra batida, atravessar os Bosques Agradáveis até a cidadela de Mastrik, onde conhecia toda a nobreza, e de lá dar um jeito de chegar a Van Hal, onde esfregaria a nova patente de Maverik na cara do comandante da Academia de Flâmages, aquele tigunar cheio de marra.

Sem muita pressa, Niuton começa a escalada no talento, com todo o cuidado. Sabia que tinha uma boa vantagem para Jules e Hanna, que ainda estavam no meio da travessia do canal. Luna seguia mais atrás, e parecia ter alguma dificuldade com a água fria. Ainda no início de sua jornada, Jon tinha acabado de sair da Ilha. Por fim, boiando num tronco, a milhas de distância, Adjaian, Kron e Viktor lutavam para não ser arrastados pela correnteza para o leste, onde as escarpas da Chapada eram mais íngremes e mais altas.

– Bem, pelo menos nós conseguimos fugir da ilha, né? – Falou Adjaian, tentando animar seu grupo. Os outros Corvos apenas olharam para o vilando, já de saco cheio com aquela situação.

Apenas Angelus e Kathra tinham ficado pelo caminho. O tigunar ainda estava camuflado na lama do mangue perto do cais da ilha, decidido a ficar ali até a manhã seguinte, para não ter o mesmo destino de seu amigo, que a essa altura estava sofrendo com a mão pesada de Big George. Estropiado, o jovem vulkânico parecia até orgulhoso de seguir a tradição do pai que ele não tinha conhecida, um herói cantado em verso e prosa no continente, famoso justamente por voltar de suas missões completamente desfigurado.

Após ter alguma dificuldade no início, Niuton já tinha chegado até o meio da falésia que separava as planícies velgas do Mar de Hill. Foi quando avistou uma estranha cabana localizada de forma improvável em uma ponta de penhasco próxima, a leste de onde estava. Havia fumaça saindo pela chaminé. Olhando para baixo, ele percebeu que Jules tinha acabado de chegar, e Hanna não demoraria muito. Curioso, e confiante na vantagem que tinha em relação aos demais, ele decide desviar do caminho para investigar o local.

O líder dos Falcões começa a escalada, e nem acredita quando percebe que Hanna já está conseguindo ultrapassá-lo, seguindo por uma parede ainda mais inclinada ao lado. Aquela menina arrogante era muito habilidosa. E como era bonita. Na verdade, Jules temia que já estivesse sentindo algo mais pela herdeira das Darklands. Nuca daria certo. Ele era apenas um guerreiro, filho de guerreiro, enquanto Hanna tinha sangue nobre, e provavelmente seria prometida a algum príncipe velga.

Após um tempo, Luna chega à praia esgotada. Quase tinha se afogado. Suas chances de iniciar uma escalada naquelas condições era zero. Desistindo do desafio, a jovem vilanda deita na estreita faixa de areia enquanto observa a melhor amiga. Mas algo a intrigava. De onde estava, ela também podia ver que alguém tinha chegado bem antes deles e já estava bem perto do alto da Chapada, mas agora estava seguindo lateralmente para leste. Só podia ser algum dos Falcões, mas não era Jules, que ela tinha visto nadando. Quem era aquele maluco?

Niuton se aproxima da cabana e percebe que se tratava de uma construção tosca, feita de pedaços de madeira desencaixados, coberta com palha da vegetação que cresce nas encostas. Quando ele se aproxima, um velho de raça ileana aparece na porta, pitando um cachimbo, parecendo feliz com a visita.

– Até que enfim! Já estava esperando alguém vir buscar o mapa…

O cadete não entende nada, mas decide se aproximar.

– Pode entrar, meu jovem! Você é muito bem-vindo aqui…

O velhíssimo homem recebe Niuton com muita hospitalidade, apesar da pobreza de sua moradia. Ele serve um chá e pega um pergaminho que estava enrolado dentro de uma aljava. O sujeito diz não lembrar mais de seu nome, e começa a contar puma história de quando, há muito tempo, tornou-se um Sentinela dos Dragões Dourados. Os Sentinelas eram uma classe de guerreiros incumbidos de guardar as criptas onde os quatro terríveis Dragões de Fogo (Malboro, o Dragão do Oeste; Gorgon, o Dragão do Norte; Inferon, o Dragão do Sul; e Calto, o Dragão do Leste) foram obrigados a hibernar, muito antes das migrações velgas do século I.

Aquela era uma época remota, recorda o velho. Tudo aconteceu logo após a Guerra dos Dragões, que resultou na derrota dos dragões de fogo. Temendo a ira e a fúria de seus primos vermelhos, maiores e mais poderosos, os inteligentíssimos dragões dourados tinham se aliado aos humanos, numa época anterior ao Império Rubro. Assim, tinham conseguido vencer a guerra. Pouco tempo depois, no entanto, os dourados perceberam que aquele mundo já não era mais adequado para eles, e decidiram migrar para outro continente, deixando apenas os seus Sentinelas com a missão de evitar o despertar dos Dragões de Fogo.

Quando os dragões dourados foram embora de Asgaehart para sempre, o velho recebeu uma missão: guardar o mapa do Tiwaz, que deveria ser entregue aos humanos somente no caso de que os terríveis dragões vermelhos despertassem. Segundo o velho, esse dia tinha chegado, e agora ele poderia enfim descansar. 

Assim que entrega o mapa para Niuton, o velho Sentinela se inclina na mesa e entrega seu último suspiro, com uma expressão tranquila. Perplexo com a história que tinha acabado de escutar, e ainda sob efeito da poeira cristal, fungando o nariz e suando sem parar, o jovem das Terras Altas nem parecia mais se importar quando viu Hanna ultrapassar Jules e assumir a liderança do desafio.

Naquele momento, Jon Tudur II também já tinha chegado à praia e começava a escalada. Niuton então guarda o mapa em um bolso e volta a subir. Pouco depois, ele e Jules assistem a Hanna den Darklands ser a primeira a alcançar a planície.

Quando a herdeira do Ducado das Sombras chega ao topo da Chapada de Hill, já com as primeiras luzes da manhã, logo percebe com olhos de terror que os dias de bonança na Terra Vélgica tinham chegado ao fim. Olhando para o norte, ela consegue ver pelo menos uma centena de dracos, uma espécie de dragão em miniatura, sobrevoando os povoados da região, realizando ataques e levando pessoas, enquanto um grande Dragão de Fogo promove uma verdadeira devastação em Mastrik. Casas e plantações incendiadas. Medo, pânico e desespero tomam conta dos vilarejos da planície, completamente indefesos.

Antes que Hanna possa fazer qualquer coisa, uma revoada de dracos aparece no local, e um deles a captura com suas fortes garras. Jules Flanagan, que também tinha acabado de chegar ao topo, resolve se lançar contra o bicho em pleno voo, tentando salvá-la, ou pelo menos seguir com ela. Niuton se livra de um ataque e resolve se esconder numa ranhura da encosta. Já o pequeno Jon Tudur, quando percebe que os dracos estão carregando dois de seus amigos, também se lança para se agarrar um deles.

O desafio dos Corvos e Falcões, definitivamente, não tinha mais razão de existir.

Agora era a hora de separar os homens dos meninos.

(Continua: 42. Graduação Dolorosa)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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