42. Graduação Dolorosa

42. Graduação Dolorosa
Jon Tudur II, velga, cadete dos falcões, filho de Jon Tudur.

[Antes: 41. A Cabana no Penhasco]

Depois que os dracos e o grande dragão de fogo vão embora, Niuton sai de seu esconderijo. Hanna e Jules, que chegaram primeiro ao topo da Chapada, tinham sido levados por um dos animais alados, assim como Jon. Pensando no mapa escondido em seu bolso, o jovem McFerris atravessa os bosques até Mastrik, no início da manhã, testemunhando pelo caminho toda a situação de penúria dos vilarejos e povoados rurais. Vários mortos e feridos, incêndios por  toda a parte e muita destruição.

Após se recuperar da estafa causada pela travessia à nado, Luna foi a segunda a chegar à planície. A jovem vilanda ainda não sabia o que tinha acontecido com a amiga, mas ficou horrorizada quando viu o cenário de terra arrasada.

Depois de horas atravessando lentamente o canal em cima de um tronco, Adjaian, Kron e Viktor chegam finalmente ao litoral da Chapada de Hill, numa pequena praia bem distante daquela onde os demais cadetes desembarcaram. De longe, eles já tinham estranhado aquela revoada de animais que paraciam dracos. Dracos? Na Terra Velgica? Todos sabiam que aqueles animais alados só era encontrados na Terra dos Gigantes, naquele tempo. Quase no fim da manhã, eles escalam a parede da falésia e também reagem incrédulos quando percebem o que houve:

– Puta… que o… pariu! – Diz Kron, pausadamente.

– Vai se foder! – Exclama Adjaian, vendo os cadáveres pelo chão e as fogueiras em série.

As informações sobre o massacre no continente chegaram rápido à Ilha de Fedo. O que por um lado era bom para Big George e seus comandados, que muito provavelmente escapariam do esporro monstro que levariam de Vandu devido à fuga dos cadetes. O chefe da ACAFAM, assim como os demais gargos da Clave, teria assuntos bem mais importantes para se preocupar. E toda aquela desgraça também tinha sido melhor ainda para Kathra, que pode se recuperar tranquilamente num dos aposentos da torre oeste, evitando mais uma sessão de tapas na caras aplicadas pelo gerente obeso.

A mobilização de retorno dos guardas que davam plantão na ilha também ajudou Angelus. Escondido na lama, o filho de Vandu aproveitou quando o cais ficou vazio, no fim da manhã, para roubar outro bote nas docas. A costela quebrada ainda doía bastante, mas certamente as remadas doeriam menos do que um castigo pelas mãos pesadas de Big George. Quase ao meio dia, Angelus também chegava ao litoral da Chapada de Hill.

Em Mastrik, Niuton desistiu de contatar os nobres que conhecia. Quem tinha sobrevivido estava chorando os parentes perdidos e todo aquele prejuízo. Foi na cidadela, aliás, que ele ouviu o nome da fera gigantesca responsável pelo ataque: Calto, o dragão do leste, um dos quatro citados pelo velho sentinela que ele tinha conhecido na madrugada anterior. O efeito da poeira cristal ainda não tinha passado, e ele seguiu caminhando pela longa estrada que ligava o pequeno condado ao Reino de Van Hal.

Felice Luna tinha preferido seguir para Flamme, a cidadela velga mais próxima, a oeste. Ainda estava muito cansada e abalada para uma caminhada longa. Na capital do Reino de Aquitan, a jovem vilanda ficou sabendo das terríveis notícias, e desabou quando foi informada do destino de sua melhor amiga, levada pelos dracos junto com Jules Flanagan e Jon Tudur II.

Quando Niuton McFerris finalmente chegou em Van Hal, já no final da tarde daquele dia terrível, de carona com uma caravana de carroças que seguia para o principal reino dos velgas, encontrou Vandu cuidando dos mortos espalhados no torreão que servia de base para a Academia. Quando o tigunar avistou o impertinente cadete, engoliu a raiva e cumpriu sua promessa. Arrancando de um cadáver uma insígnia com o nome de um dos parentes do jovem de Terras Altas, ele faz questão de graduá-lo como cavaleiro ali mesmo:

– Quer mostrar que é homem? Então cola essa porra no ombro e mete a cara contra o dragão, moleque.

Niuton não fala nada. Apenas olha para o nome “McFerris” na insígnia arrancada de um de seus primos, morto no ataque de Calto. O efeito do pó estava passando. Agora ele só queria voltar para seus aposentos, tomar um bom banho e fazer uma refeição. Aquele dia tinha sido foda. Mas foda-se. O que importava é que ele tinha ganhado a porra do desafio. Pensou em mandar aquele negão tomar no cu, mas desistiu. Aí seria demais, até para ele. Mas também manteria em segredo que tinha encontrado o mapa do legendário Tiwaz.

No fim da noite, Adjaian, Kron e Viktor também chegam à sede da ACAFAM. Felice Luna um pouco depois, vinda de Flamme. No início da madrugada, Angelus foi o último a voltar para a Academia. Vandu os recebeu da mesma maneira com que tinha tratado Niuton, dando a cada um deles as insígnias de cavaleiros mortos pelo dragão. O treinamento tinha acabado. Agora o negócio era sério.

Mais uma vez, a sobrevivência e a liberdade dos povos velgas estava em perigo. Na verdade, de todos os humanos de Asgaehart. Se alguma resposta não fosse dada aos dragões de fogo, todos ali estariam no risco de se tornarem escravos, servos ou tributários das poderosas criaturas, como nas lendas de épocas remotas do passado.

No dia seguinte, ainda sofrendo com uma ressaca horrível, Niuton encontra Angelus no refeitório da Academia, e confidencia ao amigo que tinha encontrado o mapa do Tiwaz. Eles conversam sobre o que aconteceu no desafio, mas principalmente sobre a merda em que todos ali estavam metidos. Pouco depois, Adjaian se aproxima do irmão, que estava enfaixado na altura das costelas quebradas:

– O que houve, cara?

– O mapa do Tiwaz tá comigo. Tô vendendo. – Se adianta Niuton, com ironia. Ele e o vilando viviam se provocando.

– Só quero dois dias na banheira para relaxar… Depois disso tô novo. Só dificuldade, porra. – Responde Angelus.

Adjaian estranha. O Tiwaz era o conjunto de armas lendárias dos caçadores de dragões do milênio anterior. Mas a maioria das pessoas acreditava que eram apenas isso: lendas. Luna se aproxima do grupo:

– Os oficiais estão putos… Ninguém entende como o dragão foi libertado.

– Vitiferralis. – Afirma Adjaian.

O velho mago elemental, que muitos julgavam ser o aprendiz mais poderoso de Imperatrix, estava desaparecido desde os acontecimentos em Hogan, há 15 anos. Para alguns, ele estava morto. Mas Adjaian tinha a certeza que não, após ter escutado as histórias de seu pai, a última pessoa a ver Vitiferralis com vida, além de Iuri Petersen. Mas só Vandu tinha retornado.

– Legal… Tio Vito. – Diz Angelus, sem deixar claro se falava sério.

– Tá todo mundo falando que vão mandar um grupo pra resgatar as pessoas que foram capturadas pelos dracos. Se for verdade, vou junto. – Afirma Luna, confiante. Afinal, agora ela era oficialmente um membro da Dokhe.

– Enquanto ninguém achar o Tiwaz, Calto vai zoar pra caralho… Temos de ir atrás dessa porra. – Afirma Niuton.

– Vou contigo. – Responde Angelus.

– Se tu falar com alguém sobre isso, os coroas vão tomar o mapa na mão grande. – Diz Kron.

– Tá tranquilo. O chorume ali escondeu o mapa do Tiwaz no rabo… – Provoca Adjaian.

– Só porque tu tem essa mania de botar as coisas no cu, acha que isso é normal? Que todo mundo faz isso? – Rebate Niuton.

– Dodói você, hein bebezinho? Pode dormir tranquilo. Você teve o mérito de encontrar o mapa, então não vou tomar de você não…  – Responde Adjaian.

– Tomar de mim? Não tem como. Durmo sempre com um olho aberto. – Diz Niuton.

– Mas quando tu achar o Tiwaz e o dragão vier atrás de você pra pegar não vai ter onde se esconder não, hein? – Diz Adjaian, começando a gargalhar.

– Ê inveja! Se ficar falando muito não vou te levar pra missão… – Devolve Niuton.

– Não escolho missão, seu viadinho. Vou onde os oficiais mandarem. – Afirma Adjaian.

– Isso é o que tu faz melhor. Pau mandado do caralho. Tu é fraco, amarelão.  – Responde Niuton.

– Amarelão? Nunca mais vou mijar perto de você… Apaixonou, né? – Continua provocando Adjaian.

– Ficou falando que ia fazer e acontecer, não fez porra nenhuma. Minha galera ralou, porrou e se estrupiou pra sair da ilha. – Continua Niuton.

– Tu é um comédia! Tirando a sua carreira solo, tua galera entrou na porrada pra cachorro e deu foi muita sorte de não morrer… – Rebate Adjaian.

– Mas fizeram. Tenho orgulho de todos os falcões. Foram homens. Sem viadice nem por um segundo.  – Provoca Niuton.

– Também tenho orgulho de todos vocês, mas é o famoso “cada um por si”, e o verme de cu só por ele! – Responde Adjaian.

– Que palhaçada vocês aí, hein? – Interrompe Angelus. Aquela discussão já estava enchendo o saco de todo mundo.

– O mapa tá com os falcões, urubu de merda. Nós ganhamos o desafio. Somos a elite da porra toda. A vitória é sempre nossa. – Conclui Niuton, cheio de marra.

– We are the champions! – Grita Angelus, antes de comentar, preocupado:

– Mas acabou meu Dente de Leão, porra…

Adjaian ri. O irmão era mesmo viciado naquela erva tranquilizante. Enquanto isso, Viktor Van Vossen apenas ouvia os colegas, sem registrar nada. Só conseguia pensar na cerimônia de iniciação no Colegiado de Imperatrix. Seu maior sonho era se tornar um necromante, como seu pai e sua tia, verdadeiras lendas entre os magos do Império Velga.

***

Muito longe dali, em uma caverna do Forde Ocidental, Hanna den Darklands, Jules Flanagan e Jon Tudur II tinham sido levados para uma espécie de templo encravado na pedra. Foram deixados pelos dracos em um grande fosso, onde vários corpos jaziam no chão. Alguns estavam mortos, outros adormecidos. As paredes do local emitiam um gás com o cheiro característico da bruma de sono.

O mais aterrorizante, no entanto, era a visão dos altares de pedra que circundavam o fosso. Em cima deles, diversas pessoas estavam presas espremidas em pequenas garrafas de vidro. Muitos choravam, alguns gritavam, mas todos se esforçavam para respirar com dificuldade através de uma pequena abertura acima de suas cabeças.

[Continua: 43. O Templo do Desespero]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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