44. Missão de Resgate

44. Missão de Resgate
Kal Manche, vilando, chefe da guarda pessoal de Van Hal.

[Antes: 43. O Templo do Desespero]

528 cl. Milenor 30.

Ninguém poderia esperar que a última semana do ano reservasse uma ameaça tão aterrorizante contra os povos velgas. Os quatro dragões de fogo, gigantescas feras aladas com escamas vermelhas e um bafo flamejante, também chamados de dragões cardeais, tinham despertado da sua hibernação multissecular. Os sentinelas dos dragões dourados, responsáveis por guardar as tumbas onde os vermelhos foram confinados, deviam estar todos mortos, mas ninguém tinha ainda certeza sobre quem era o responsável por tudo aquilo. Na Terra Vélgica, o dragão chamado Calto tinha provocado muitos incêndios, destruindo tudo ao seu alcance em ataques devastadores, enquanto os ágeis dracos capturavam pessoas, algumas de origem nobre, como o herdeiro do trono de Van Hal, o jovem Kaster Van Holande a duquesa Hanna den Darklands, além dos cadetes Jules Flanagan e Jon Tudur II, da ACAFAM, entre outros. No final do ataque, o bando de dracos tinha se dirigido para sudoeste, em direção à margem ocidental do Fiorde, pouco antes da cidadela venegasca de Vilk, enquanto o enorme dragão de fogo rumou para o seu tradicional covil nos Piktos.

Salão da Clave em Van Hal. Naquela távola secular, a cadeira do Megatrix estava vazia desde que os velgas conseguiram repelir as primeiras levas das invasões bárbaras, em meados do Século III. Foi nesse período que se estabeleceram os primeiros reinos independentes na região conquistada dos nativos ileanos, que passaria a ser conhecida por Terra Vélgica. Há pouco mais de 18 anos, no auge da Terceira Guerra contra os invasores alamanos, um encontro dos generais da Hokhe e da Dokhe acabou frustrado pela tentativa de assassinato do Duque Owen den Darklands, o general da cavalaria negra. Desde então, o salão só era utilizado eventualmente pelosgenerais da Hokheem reuniões importantes com os oficiais mais graduados das duas cavalarias (então conhecidos como Gigantrix), sendo cada um o chefe militar de um reino, ducado, condado ou marca aliada. Como o velho Arno McFerris tinha sido morto no ataque de Calto, a Hokhe tinha aclamado Sin Kali, de Van Hal, como seu novo líder.

Aquele era um desses momentos decisivos. Num apelo desesperado, o Rei Hagen Van Holand decidiu se sentar na “Opera Doma”, o único lugar da Clave permitido para nãomilitares, convocando seus maiores guerreiros para trazer de volta de seu filho mais velho, levado pelos dracos. Segundo as últimas notícias que circulavam entre os reinos aliados, os quatro dragões e uma horda de dracos estavam assolando todo o continente, provocando terror e pânico em todos os lugares, caçando pessoas e espalhando destruição. Por toda a parte, os seres humanos se refugiavam onde era possível.

Entre os oficiais convocados, o Gargo Halberic Lend, responsável pela Bruma, sugere que eles enviem uma equipe de elite a partir de sua cidade natal, Flamme, no Reino de Aquitan. Ele se propõe a ir com o grupo, escalando dois companheiros da Dokhe para a missão: o caçador Madox Heineken, de Darklands, e o mago Ben Sif, antigo aprendiz de Vitiferralis e um dos atuais portadores da Aurora da Morte manipulada no Colegiado de Imperatrix. Erik Mc Ferris, Gigantrix de Terras Altas, indica seu cavaleiro mais habilidoso, o polêmico e temido Kreuber Dikson, além de dois irmãos tigunares, membros da casta sacerdotal em Flamme, Jim e Bia Jonson, que contavam com habilidades necessárias para que o plano fosse bem sucedido. Lend conhecia bem os irmãos Jonson, seus conterrâneos, já tendo se envolvido com Bia antes de ser descartado pelos rigores do clã tigunar. O vilando Kal Manche, chefe da guarda pessoal de Van Holand, tinha recebido o encargo de liderar o grupo, com a ajuda de seu fiel companheiro, o ainda mais gigantesco Marbal. 

Quando o grupo já parecia completo, o Gargo Vandu, atual comandante da Academia de Flâmages, sugeriu que dois de seus ex-cadetes,jovens recém promovidos à cavalaria, também seguissem na missão. Segundo o gigante tigunar, seu filho Adjaian e Felice Luna tinham se voluntariado para ajudar. Eles conheciam bem seus colegas, e também estavam impacientes para participar do resgate. Os demais fugitivos da Ilha de Fedo, ou não estavam em condições físicas ideais, como seu filho Angelus e Niuton McFerris,que se recuperavam de fraturas, ou estavam mais interessados em outras iniciativas, como Vikton Van Vossen e Gunter Kron, inscritos no colegiado de magos. Seu afilhado Kathra não tinha conseguido escapar da ilha, e por isso não havia recebido ainda a patente de Maverik. Quando soube do resgate, o jovem vulkânico fez de tudo para ser incluído no grupo, mas foi solenemente ignorado por Vandu. Afinal, Cadetes nunca eram escalados para missões importantes.

A princípio, os oficiais se mostram hesitantes, pois sabem que o grupo não pode perder tempo com novatos, mas Manche traz um argumento que põe fim à discussão:

– Deixa a molecada ir com a gente. Vamos precisar de buchas pelo caminho.

Quando Vandu comunica aos jovens que a Clave autorizou que seguissem na missão, Adjaian exclama, com a marra de quem tinha conseguido a proeza de se formar com apenas 16 anos:

– Vou lá buscar minha princesa.

A jovem vilanda apenas olhou de volta para o colega corvo, sem paciência para bravatas. Ela sabia que o perrengue ali era certo. Sentia falta da amiga, que na verdade era mais do que amiga, mas no fundo estava com muito medo do que iriam encontrar pelo caminho. Pelo menos ganhariam as novas armas e equipamentos da Dokhe, de qualidade infinitamente superior àquelas utilizadas por Cadetes, Vélites e Aprendizes. Especialmente aquelabelíssima armadura, confeccionada com o duríssimo mineral conhecido como Vantiun.

Liderados por Manche, o grupo de Van Hal parte a cavalo para Flamme, a capital do Reino de Aquitan, onde se encontram com Bia e Jim Jonson, que já prepara o seu catamarã, com capacidade para dez pessoas, para uma viagem através das águas do Fiorde.

Uma outra opção seria atravessar a Ponte de Pedra em Flamme e seguir por terra, atravessando a Planície e o Planalto dos Ventos, até alcançarem os penhascos na altura de Vilk, para onde tinham rumado os dracos. Mas havia um grande inconveniente. No Reino de Aquitan, os rumores davam conta de que o dragão conhecido como Malboro estava aterrorizado aquela região, exigindo sacrifícios de belas donzelas e jovens rapazes para não queimar tudo o que via pela frente.

Justamente por isso, Jim insistia que era mais seguro seguir com o catamarã pelas águas do Fiorde Ocidental, contra a correnteza, até as encostas do penhasco. No porto de Flamme, a população já se preparava para um ataque maior que ainda não tinha vindo, e se apavorava com os corpos de centenas de venegascos mortos, boiando nas águas do Fiorde até serem despejados nas cachoeiras que desaguavam no Mar de Hill. A relativa calmaria talvez se explicasse pelo fato da cidadela se localizar exatamente entre as áreas de Malboro (a oeste) e Calto (a leste), feras terríveis que nunca se deram bem entre si.

Dos quatro dragões de fogo, apenas Górgon, o dragão do norte, era conhecido nas lendas muito mais pela inteligência e sagacidade do que pela extrema violência e crueldade que caracterizavam os outros três. Inferon, o dragão do sul, certamente era o mais temido, não apenas por ser o maior deles, mas também pelo fato de jamais fazer escravos ou se comunicar com criaturas inferiores, como os humanos. Encontrá-lo era quase sempre sinônimo de morte certa.

Kreuber Dikson carregava sempre carregava consigo um grande estoque de poeira cristal. Fazia uso regular da substância, mas consciente, para não se tornar um daqueles viciados que perdiam tudo o que tinham por causa da droga. Bia Jonson era uma sacerdotisa da Ordem de Virgo, com poderes para curar seres vivos e se comunicar com animais e plantas.

Na chegada à Flamme, o jovem Adjaian era um dos mais excitados com sua primeira missão como cavaleiro.

– Foi Vitiferralis que libertou os dragões. Velho traíra, filho da puta. Tenho ódio dele.

Manche apenas olha para aquele moleque de apenas de 16 anos, surpreso com o atrevimento.Ele podia até estar certo, mas para um novato era melhor ficar calado.

– Acho que devemos atravessar a ponte. – Continua Adjaian.

Marbal aproveita a deixa para colocar uma pilha:

– Sim. Aí a gente aproveita pra passar lá no covil e quebrar a perna do Malboro.

– Eu acho que temos de seguir no catamarão de Jim – Opina Madox, antes de concluir: – A missão é resgatar o pessoal. Vamos fazer o que na toca do dragão? Fumar um cigarro?

– Eu concordo com o jovem. – Diz Ben Sif.

– Viram os dracos seguindo na direção de Vilk. Melhor seguir de barco. – Responde Kreuber, recebendo um aceno de Madox, concordando.

– Vamos dividir o grupo? – Questiona Bia.

– Dividir? Tá maluca? – Rebate Madox.

– Podemos botar os moleques pra seguirem sozinhos… Sif cuida deles. – Provoca Kreuber, que não gostava do necromante. Madox começa a rir.

– Já disse. Vai eu e o moleque na frente pra caçar Malboro. – Diz Marbal, reforçando: – Essa é a minha missão. É pessoal. Só peço a ajuda dos magos pra me colocar bem perto dele. Tu vai comigo, Sif?

– Se tiver como, eu ajudo – Responde Sif.

Não sentindo muito firmeza na resposta, Marbal decide:

– Estou com Kreuber, Madox e Jim. Vamos de barco. Nosso bonde é pesadão.

– Vamos todos juntos. – Fala Adjaian, complementando: – Não acho um bom momento para dar de cara com Malboro. Mas se ele aparecer, é porrada. Vamos quebrar a perna dele. – Devolve o jovem vilando, sorrindo com ironia, para Marbal.

– Se essa molecada peidar eu vou direto na Clave dizer que não servem pra porradeiros. – Responde Madox.

– Já aviso que vou pegar Malboro mesmo que sozinho. Agradeço quem for comigo. – Reitera Marbal. E conclui: – Ele vai se foder comigo.

Adjaian começa a rir. Todos estranham aquela reação. Marbal era tão forte que chegava a ser burro. Bia não entende:

– Mas pra seguir pro covil de Malboro a melhor opção é atravessar a ponte…

– Então vamos nessa – Muda de ideia novamente Adjaian.

– Tá falado. Vamos lá porra. – Afirma Marbal.

– Calto foi em Van Hal, queimou tudo e saiu ileso. E agora esse moleque e o brutamontes querem ir sozinhos pra caçar Malboro… – Provoca Bia.

– Pelo mar é sempre melhor. – Fala Jim Jonson, que era um sacerdote do deus das profundezas, concluindo com ironia: – Se alguém morrer, Hoguz já providencia o enterro. Muito mais prático.

– Então vamos pelo mar. Vamos com eles, moleque. – Aceita Marbal.

– Bem melhor. – Pontua Kreuber.

Embora fosse o líder, Manche apenas observava a discussão. Tinha esse costume, pois com exceção de seu parceiro Marbal, ainda estava conhecendo a personalidade de cada um. Como o grupo tinha chegado a um consenso, ele não precisaria tomar a decisão. Melhor assim.

[Continua: 45. Encontro Inesperado]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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