46. Macacos Estupradores

46. Macacos Estupradores
Marbal, vilando da guarda pessoal de Van Hal.

[Antes: 45. Encontro Inesperado]

Devido à iluminação repentina proporcionada pela rajada de fogo de Malboro, o grupo na caverna consegue perceber alguns instrumentos bem rudimentares, feitos de pedra, madeira, osso e cizal, largados em alguns cantos. Usando uma tocha, Adjaian resolve averiguar as peças mais de perto. Pareciam pequenas lanças para pesca, que tinham sido utilizadas recentemente. Todos agora já tinham a certeza de que não estavam sozinhos ali.

De repente, vindo do fundo da caverna, o grupo escuta um barulho agitado, como se alguém estivesse se debatendo. Seguindo mais adiante, percebem que uma mandigora fêmea está presa num tipo de armadilha feita de madeira e cordas, que a obriga a ficar numa posição de quatro apoios, com as pernas abertas, como se estivesse exposta a um estupro por alguma criatura pequena. Criatura bizarra de aspecto hominídeo, musculosa e com feições que misturavam características felinas e simiescas, com juba, rabo e garras, os mandígoras estavam quase extintos do continente. Há alguns séculos, se espalhavam em bandos pelas florestas e bosques de Asgaehart, mas tinham sido caçados e exterminados pelos nativos ileanos, posto que representavam um grande perigo.

Nas paredes da caverna ao redor, também era possível ver uma série de túneis escavados na pedra, com pouco mais de um metro de diâmetro. Escondidos ali, alguns pequenos macacos albinos observavam o grupo. Pareciam bem adaptados ao escuro, mas certamente tinham medo de humanos, e odiavam a luz que se projetava das tochas.

– É uma mandígora. Fera irracional. Não vai nos ajudar mesmo que livremos ela. – Diz Kreuber.

– Pobre criatura. Deve ter sido capturada e virou brinquedo sexual desses macacos nojentos. – Reage Bia.

– Por mim a gente solta ela pra ver a merda que ela vai fazer com esses macaquinhos… – Diz Adjaian, começando a rir.

– Melhor deixar quieto. Vamos fechar com esses macacos tarados. – Sugere Kreuber, e continua: – Por mim, segue o bonde. Deixa essa porra pra lá.

Adjaian ignora a sugestão e começa a soltar as amarras que prendem a fêmea à armadilha de madeira. Kreuber se preocupa, e fica de olho na movimentação dos macacos.

– Não consigo fechar os olhos pra isso. Mesmo com bichos. – Diz Adjaian, recebendo mais olhares de reprovação do grupo. Apenas Bia parecia concordar com a atitude, mas ainda estava magoada com o novato.

– Solta não… A macacada vai vir de pau e pedra pra cima. – Pede Sif, explicando: – Esses bichos vão ficar muito putos com a gente.

O jovem vilando reflete por um momento, e para de desamarrar a mandígora:

– Então tá… Vamos seguir.

O grupo então deixa o animal preso, e continua adentrando a caverna. Mais à frente, a gruta termina em um paredão, que tem vários daqueles túneis cavados. Assim que deixaram o local anterior, alguns macacos albinos desceram de seus esconderijos e continuaram a praticar a agressão sexual contra a mandígora. Agora estavam explicadas as risadas que tinham ouvido anteriormente.

– Será que podemos entrar num desses túneis? – Questiona Kreuber.

– Pra mim vai ser um sufoco… – Avalia Marbal. Ele, Manche, Adjaian e Luna, que eram vilandos, certamente teriam dificuldade para se arrastar ali. Bia era uma tigunar grande, mas era esbelta. Madox, Sif e Kreuber eram vulkânicos, mas o mago e o cavaleiro de Terras Altas eram bem magros, o que tornaria a tarefa fácil para eles, assim como para Lend, velga.

– Posso tentar me comunicar com esses macacos. – Diz Bia.

– Pergunta se há outra saída. – Sugere Kreuber.

– Não consigo falar dessa forma direta com eles… Apenas sentir o que pensam. – Responde Bia, complementando: – Mas preciso de tempo e silêncio.

– Quanto tempo? – Pergunta o cavaleiro de Terras Altas.

– Alguns minutos. – Responde Bia.

– Por mim pode começar. – Diz Kreuber.

Manche acena com a cabeça, concordando, e a sacerdotisa da deusa Virgo começa a emitir alguns sons primais, pios, urros, soluços, enquanto parece alcançar um estado de transe. Os macacos respondem com sons similares. Após algum tempo de troca, Bia retorna à consciência:

– Alguns desses túneis levam para tocas no alto da montanha. Mas outros são armadilhas para enganar os predadores. Levam até câmaras que se desmoronam com o peso de animais maiores que os macacos, esmagando os perseguidores. Mas eu não saberia dizer qual deles conduz à saída ou à morte.

– Aí complica. – Diz Adjaian, antes de sugerir: – Chama um deles pra ser nosso guia.

– Impossível. Eu precisaria de semanas para conquistar a confiança de algum deles. – Diz Bia.

– Porra… Eu e Marbal mal cabemos nesses buracos. – Rebate Adjaian.

Madox, que era um hábil rastreador, se aproxima para avaliar a condição dos buracos:

– Só dá pra saber quais túneis foram mais usados…

– Sabe o que eu acho? Temos que voltar e sair pelo mar mesmo. – Opina Kreuber, enfatizando: – Não dá pra contar com a sorte. As probabilidades estão totalmente contra nós.

– Tem razão. Podemos ver se sobrou algum madeira do barco. – Concorda Adjaian.

– Viraram cinzas, cara. Esquece. Temos que achar outras madeiras. – Responde Kreuber.

– Madox, você pode rastrear cheiros? – Pergunta Adjaian.

– Não sou cachorro, mas dependendo do cheiro, sim. – Diz o caçador.

– Então vamos jogar algo com cheiro marcante num macaco desse e deixar Madoz fazer o resto. – Sugere Kreuber.

– Alguém trouxe rum? Pode funcionar.  – Questiona Adjaian.

– O mago deve ter alguma merda qualquer com cheiro. – Diz Kreuber, temeroso de que pedissem a sua bebida. E faz uma contraproposta: – Não pode ser mijo ou sangue? Mijo eu acho mais marcante…

– Mijo é foda! Hahahaha! – Comenta Marbal, gargalhando.

– Brabo vai ser chegar perto desses macacos pra fazer isso. – Responde Adjaian.

– Bota num cantil e joga num macaco desses. Não é pra mijar em cima não. – Continua Kreuber.

– É isso? Vão jogar mijo num macaco?! – Questiona Bia, incrédula e enojada.

– Os bichos se entocam quando a gente chega perto. – Constata Adjaian.

– Jogar qualquer coisa vai ser difícil… Mijo ou outra coisa vai dar o mesmo trabalho. – Devolve o cavaleiro das Terras Altas.

Manche, que estava aturando toda aquela discussão bizarra calado, resolve enfim se posicionar:

– Eu só não entendo a parte que o macaco mijado vai nos levar pra saída.Por que levaria? Não seria mais óbvio que nos levasse para uma armadilha?

– Se ele sair, e quando sair, Madox o rastreará. – Responde Kreuber.

– “Se” e “quando” já me fuderam muito. Tem de haver uma forma melhor. – Rebate Manche, de saco cheio.

– Sim. Mas aqui a gente trabalha muito com risco. – Debocha Kreuber. Manche ri da ironia.

– Puta que o pariu! Hahahaha! – Diz Marbal, acompanhando as risadas do líder.

– Se tu quiser dar uma ideia melhor, somos todos ouvidos. – Continua Kreuber.

Naquele momento, os urros da mandígora fêmea sendo estuprada por alguns macacos albinos mais atrás na caverna já estavam incomodando o grupo.

– Filhos da puta. – Diz Bia, rangendo os dentes. Ela explica a situação: – São os “soldados” do bando. As fêmeas da espécie ficam todas confinadas no harém do macho alfa. Por isso essas merdas de macaco sequestram cabras, mandígoras e até jovens humanas para esvaziar o saco. Vermes.

– Filho da puta. Temos que descobrir então quem é esse alfa e passar ele, pra liberar as fêmeas do harém. – Diz Adjaian.

– E daí? Libertar as fêmeas pra quê, porra? – Pergunta Manche, sem paciência.

– E daí digo eu. Vamos fazer o que então, grande líder? – Debocha o jovem vilando.

– Podemos achar o alfa, matar o bicho e instaurar o caos no bando de símios tarados das cavernas. – Propõe Sif.

– Também acho que libertar as fêmeas não vai ajudar em porra nenhuma. – Lamenta Kreuber.

– Caralho, tá foda. – Suspira Marbal.

– A outra opção é voltar e escalar as escarpas do Fiorde. – Diz Adjaian.

– Podemos fazer uma fogueira e ver pra onde a fumaça vai sair. – Sugere Kreuber.

– Mas a fumaça iria subir por todos os túneis. Inclusive os que tem armadilha. – Rebate Adjaian.

– Dessa vez o moleque não tá falando merda. – Responde Manche, concordando.

A mandígora continua berrando. Incansáveis, dezenas de macacos se revezam para estuprá-la, sem descanso, enquanto dão um tipo de risada histérica e nojenta. Manche já não aguenta mais aquela ladainha:

– Vou matar a porra desse bicho só pra ela parar de gritar!

– Aí, galera. Acho que a parada é libertar aquela mandígora. – Diz Sif, mudando de ideia.

– Isso! Vamos soltar essa porra que ela mostra a saída! – Exclama Adjaian.

– Se ela souber, e quiser. São irracionais, porra. A gratidão não é garantida. – Rebate Kreuber.

– Ela vai seguir os instintos e fugir. – Explica Adjaian.

– Posso tentar me comunicar com ela. – Diz Bia.

– Então tenta, porra. – Responde Kreuber, também com a paciência esgotada.

Bia retorna alguns metros na gruta, na direção da mandígora. Mais acostumados com a presença do grupo, os macacos não param de estuprá-la. Agora eram uns dez só ali, na fila. Ao redor, mais algumas dezenas circulavam, esperando a vez. Marbal acende um charuto de dente de leão.

– Eu tô com o manche. Daqui a pouco eu mato mandígora, mato macaco, vou matar o que tiver nessa porra! – Estronda Kreuber, insatisfeito com o impasse.

– Isso! Vamos acabar com essa putaria! – Concorda Marbal.

– É macaco pacaraio, hein? – Comenta Adjaian, e começa a rir.

– Vamos lá, porra. – Diz Marbal, seguindo Bia.

– Então partiu. – Diz Adjaian, acompanhando o gigante.

– Três é meu. Cada soco eu mato um. Vou varrer geral.  – Afirma Marbal, com sua ignorância gramatical típica. Adjaian ri, e relembra:

– Eles têm medo de luz. Se a gente chegar lá com as tochas eles vão fugir de novo.

– Vamos esperar a Bia falar com a mandígora. – Sugere Kreuber.

Tarde demais. Marbal passa Bia e já chega fatiando os macacos que estupravam a mandígora, com seu machado:

– Macacada filha da puta!

Os demais fogem dali assustados, ainda com os órgãos sexuais excitados. Adjaian também mata alguns deles com golpes de montante. Bia aproveita o momento para começar o seu estranho ritual de comunicação com os animais. Depois de muitos rosnados e miados, a sacerdotisa volta ao seu estado normal:

– Ela sabe o caminho para sair daqui. Foi por onde a trouxeram, pois foi capturada nas montanhas. Se nós a libertarmos, ela irá fugir o mais rápido que puder. E vai atacar quem estiver na frente.

– Madox, você conseguiria seguir os rastros dela? – Pergunta Adjaian.

– Sim, pegadas recentes de mandígora. Seria fácil. – Responde o caçador.

– Então vou soltar essa porra. – Diz Marbal, já se adiantando para cortar as amarras. Kreuber e Bia o ajudam na tarefa.

– Sai da frente, galera. – Alerta Adjaian.

Assim que se vê livre, a pobre fêmea corre com toda a velocidade que tinha, como um cão assustado em ritmo de fuga, e foge por um dos túneis na parede de pedra.

Com alguma dificuldade, Madox entra no buraco, sendo seguido pelos demais.

Finalmente iriam sair daquela merda de caverna.

[Continua: 47. Debate Sem Fim]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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