47. Debate Sem Fim

47. Debate Sem Fim
Kreuber Dikson, vulkânico de Terras Altas, cavaleiro da Hokhe.

[Antes: 46. Macacos Estupradores]

Jon Tudur II e Hanna den Darklands tinham passado a manhã inteira caminhando nas margens do Fiorde Ocidental, rumo ao sul, quando avistaram seis dracos deixando o templo de onde tinham escapado. Um homem vestido com um manto negro montava um dos bichos.

– Foram na direção sul, onde o pergaminho indicava o covil da fêmea dos dragões de fogo… – Suspeita Hanna.

– O manuscrito mostrava como acordá-la? – Pergunta Jon.

– Eu acho que sim. Mas não tenho certeza. Vamos torcer para que Jules consiga levá-lo para os magos em Van Hal.

– A fêmea tem poder sobre os machos?

– Eu não sei… A única coisa que estava clara é que os dragões vão cortejá-la, se ela acordar. E uma nova ninhada de cardeais pode nascer. – Diz Hanna, aterrorizada.

– Fudeu!

Pouco depois, dezesseis animais alados retornaram ao local, e pousaram na entrada da caverna gigante, montando guarda no templo, como se fossem gárgulas. Mesmo bem longe, os dois cuidaram de se esconder atrás das pedras, e não foram vistos.

– Se continuarmos caminhando, vão acabar nos avistando. – Diz Hanna.

– Temos que tentar salvar aquelas pessoas. Mesmo com aqueles bichos observando, Hanna  – Responde Jon.

– Mas estamos desarmados e fracos. Teríamos de voltar e ainda escalar mais de 50 metros.

– Será que conseguimos quebrar aquelas garrafas com pedras? – Pergunta Jon.

– Acho que sim. – Responde Hanna.

– Então vamos voltar lá na surdina, quando a noite cair.

– Sim, vamos subir pelas frestas. Vai demorar, mas podemos chegar lá sem que nos percebam.

Os dois não faziam ideia de como iriam retirar as pessoas daquela caverna no alto do penhasco. Mas ficar parado ali também não era uma alternativa. Primeiro tinham que salvá-las da tortura na garrafa. Depois pensariam no que fazer. Enquanto a noite não chegasse, descansariam numa gruta ali perto.

***

Enquanto isso, nos arredores de Van Hal, Jules Flanagan tinha acabado de forçar o draco a pousar no grande lago que dava nome ao reino. Tomando o cuidado de mergulhar fundo para evitar lutar com o bicho, o jovem líder dos Falcões segue nadando até a ponte que se conectava à cidadela. Com apenas 17 anos, o cadete tinha conseguido retornar à capital do maior reino velga com um pergaminho que indicava a próxima ameaça. Tão jovem, e já era considerado um heroi. Vandu faz questão de recebê-lo na Academia, e conforme tinha prometido, entrega a Jules a patente de Maverik, consagrando-o como um cavaleiro da Hokhe.

***

Na caverna dos macacos albinos, após cerca de uma hora e meia rastejando por túneis apertados, com Madoz rastreando a rota de fuga da mandígora fêmea, o grupo da missão de resgate chega ao topo da montanha, no litoral do Fiorde. Do alto, eles podem avistar uma ponta de penhasco, e Ben Sif sente uma presença que há muito não sentia:

– O mestre passou por aqui há pouco tempo.

As palavras do necromante gelam a espinha dos demais. O “mestre” era Vitiferralis, a quem o mago não via há quinze anos. Muitos o julgavam morto.

– Ihhhh… – Exclama Marbal, preocupado.

– Velho traidor. Eu sabia que era ele que tinha libertado os dragões.

Sif indica uma ponta de penhasco. Era justamente ali que se erguia o Templo do Desespero, nas escarpas que davam para o Fiorde. Seguindo por uma trilha muito acidentada, talvez levassem o resto do dia inteiro para alcançar o local.

– Os senhores vão carregar as pessoas no colo? – Pergunta Manche, irônico.

Tinham perdido o barco, e estavam sem cavalos. O líder da missão já tinha reclamado disso antes, mas agora na reta final essa era uma questão fundamental. Todos se entreolham, alguns muito putos com aquele velho vilando rabugento.

– O filho do rei está  preso ali, porra. – Destaca Manche.

– Quero que se foda se são filhos de algum figurão. Pra mim são todos iguais. – Rebate Kreuber.

– No discurso é fácil falar que todo mundo é importante. – Replica Manche, antes de continuar mandando a real: –  Se cada um daqui puder carregar apenas uma pessoa, aí vamos ver quem é quem.

– Foda.- Admite Marbal, que continuava fumando um charuto de Dente de Leão atrás do outro.

– Chato pra caralho, hein? – Rebate Adjaian, irritado.

– Assim esse resgate vai ser uma grande merda. Vai morrer seis pra salvar dois. – Afirma Manche.

– É verdade. Vou mandar uma mensagem pro Viriferralis pedindo explicações sobre isso, professor. Hahahaha! – Ironiza Adjaian, rindo do mau humor do líder.

– Quero ver quem vai salvar o mendigo que o draco levou… – Debocha Manche, duvidando das boas intenções: – “Todo mundo vale igual nessa porra”… Sei.

Como chefe da guarda pessoal do Rei Hagen, Manche não pertencia à nenhuma das cavalarias, assim como Marbal. Tinha sido escalado pelo soberano para garantir o retorno do herdeiro, mas fazia questão de apontar ao resto do grupo a fragilidade da missão naquele momento.

– Amigo… O negócio é salvar o filho do Rei, algum outro nobre lá e meter o pé! – Diz Madox, resignado: – O aldeão, o mendigo, sinto muito. Essa porra não é caridade.

– Por isso gosto de você, caçador. – Diz Marbal, concordando com a avaliação.

– E depois vamos pra dentro do Malboro! Tampar na porrada esse filho da puta! – Se empolga Madox, para maior satisfação ainda do gigante vilando.

– Só te falo uma coisa: se eu puder salvar uma pessoa, vai ser a mais fácil, e que tenha buceta. Eu quero é que se foda se o filho do rei ficar. – Informa Kreuber para Manche, antes de criticar o pensamento do resto da equipe: – Quem quiser puxar o saco do Rei, que puxe. Eu é que não vou.

– Quem organizou a missão foi o Rei. Não salvar o herdeiro é falhar na missão. – Rebate Madox.

– Foda-se. – Devolve Kreuber, rebatendo: – Cada um com a sua missão.

– Então beleza. Tu veio fazer o que nessa porra? Dar um alô pra Malboro? – Provoca Madox.

– Eu vim pra salvar a galera. Já tem vocês pra salvar o mané, filho. – Responde o cavaleiro das Terras Altas.

– Tranquilo. Salva uns indigentes aí… – Replica o caçador vulkânico.

– Eu salvo alguma que sobrar. Já tô satisfeito. Vim pra me divertir. – Diz Kreuber.

– Essa porra é missão, não é diversão! – Rebate Madox.

– Se for pra salvar um, não vai ser um macho viadinho filho de rei… – Conclui Kreuber.

– A hora é de menos palavras e mais ação. – Interrompe Marbal.

– Minha prioridade nessa missão é porrar o traíra do Tio Vito. Filho da puta. –Informa Adjaian, ainda inconformado com a informação de Ben Sif.

– Vocês estão é comprometidos com a milícia pra ganhar patente, medalhinha, sorriso falso do Rei, gratidão com prazo de validade de uma hora… Eu não quero nada dessa merda. Se vier é lucro. Não vou me comprometer.

– Se a missão era resgatar o filho do Rei e os cadetes, por que você veio então? – Continua Madox, insistindo: – Seria melhor pra você ficar lá no portão da cidadela, mandando todo mundo à merda, porque tu é vida louca, bicho solto, e não quer saber de nada.

– Não. Eu vim pra completar a missão, que é salvar todo mundo. Se for pra salvar um só, eu não vou salvar o príncipe só porque o Rei patrocinou essa merda. – Explica Kreuber.

– Pois eu vim pra salvar a vida do filho de meu amigo Jon Tudur, e do filho do Rei. – Responde Madox.

– Jon Tudur, o cavaleiro de Hevelgar? – Pergunta Bia.

– Ele mesmo. – Responde Luna, continuando: – Quando ele souber o que aconteceu, vai vir aqui sozinho e encarar a porra toda.

– Eu também vim pra salvar meu amigo Tudur. – Reforça Adjaian.

– Você é o maior lambe saco do reino, moleque. Caçador de medalhinha. – Provoca Kreuber.

– Tá falando merda, pra variar. Eu pedi pra vir nessa missão. – Responde o jovem vilando.

– Na verdade, tudo o que eu quero agora é voltar pra taberna… – Assume Madox, já preocupado com o nível de rum no cantil.

Bia continuava triste, devido à morte do irmão. E Halberic Lend, chefe da Bruma, sempre calado, não aguentava mais ouvir tanta merda. Na verdade, continuava atento aos movimentos da sacerdotisa, que nunca tinha esquecido.

– Agora que os senhores já perderam batante tempo discutindo asneiras, entenderam que precisamos arrumar um barco ou cavalos para continuar o resgate? – Diz Manche.

– Exatamente. – Concorda Madox.

– Isso é fato. – Aceita Adjaian, antes de perguntar: – Tem algum porto ou cais pelo caminho?

– Tem sim, moleque… Há um porto no alto dessas montanhas.  Vários barcos. – Ironiza o caçador.

– Larga de ser viado, Madox. – Devolve o jovem vilando.

– Barcos só conseguiríamos se voltássemos ao Fiorde… Teríamos de descer ao nível do mar e caminhar pela margem procurando alguma aldeia. Bem arriscado. – Diz Luna.

– Se não tem porto, vamos atrás de cavalos. Bia, consegue sentir se há algum nas redondezas? – Pergunta Kreuber.

– Aqui não. Sólá para os lados de Klinwater, no planalto, onde vivem mustangues selvagens.

– Mas aí vamos nos desviar muito da rota. Foco na missão. – Rebate Madox.

– Então vamos voltar pro Fiorde. – Sugere Adjaian.

– Vai morrer seis pra salvar dois… Vai vendo. – Insiste Manche.

– Que voltar pra casa, cara? – Replica Adjaian para o líder.

– Quero. – Responde Manche, lacônico.

– Então pode voltar. Depois falo pro Rei que você ficou doente. – Ironiza Adjaian.

– Mas não vou voltar porque prometi que iria salvar meu afilhado, seu moleque bucha. – Devolve Manche.

– Bucha pra caralho! Hahahaha! – Gargalha Madox, dando mais uma golada no rum que já estava acabando.

– Mas… Mas… Mas… –Debocha o jovem vilando, antes de se voltar para Kreuber:

– E o vida louca, vai dar alguma sugestão?

– Acho melhor tentar arrumar cavalos. Barco vai dar o maior trabalho pra navegar depois. Jim morreu. Seríamos um alvo fácil. – Responde Kreuber.

– Prefiro arrumar cavalos também. – Concorda Adjaian, mudando de ideia.

– Maluco, a gente vai salvar os cadetes e o filho do Rei. Se tu quiser salva o resto do pessoal. Boa sorte arrumando cavalos por aí.

– Cada um vai pro lado que quiser então, porra. – Diz Manche.

– Eu vou direto terminar essa missão. Lá naquele penhasco salvar o filho do Rei. – Afirma Madox.

– Eu vou também. – Diz Adjaian, mudando novamente de ideia.

– Se a maioria decidir ir direto pro resgate, vou também. Pego meu afilhado e meto o pé. – Diz Manche, ressaltando: – Mas se for só o Madox e esse moleque bucha, vão se foder garantido.

– Manche, eu vou direto. Não vim passear nessa porra não. – Responde o caçador, provocando: Tu vai passear com eles? Achei que queria concluir a missão.

– Vou com o grupo mais forte, porque não sou otário. – Responde o líder, complementando: – E acho que Marbal vem comigo.

– Precisamos de mais pessoas conosco, Madox. – Confirma Adjaian.

– Beleza. Quem mais vai passear? E quem vai aonde interessa? – Pergunta Madox.

– Vou com Manche. – Diz Bia.

– Manche, se formos eu, você, o moleque, Bia e Marbal, somos o grupo mais forte…

Madox não tem tempo de completar a frase. Com seu faro apurado de caçador, ele sente o aroma de predadores se aproximando de onde estavam. Parando de falar abruptamente, ele avisa aos demais:

– É um bando de mandígoras… Ficamos tempo demais aqui. Já estão ao redor, nos cercando. Bia, você também pode senti-los?

A sacerdotisa se concentra, começa a grunhir e rosnar, mas logo desperta do transe:

– Estão com fome…

– Já suspeitava. – Responde Madox.

Todo aquele falatório tinha cobrado um preço. E agora teriam de lutar pela vida.

[Continua: 48. A Caravana de Klinwater]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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