50. A Ira de Malboro

50. A Ira de Malboro
Malboro, o Dragão de Fogo do Oeste.

[Antes: Fuga ou Sacrifício?]

Já longe do local onde ficaram Adjaian e Marbal, Kreuber resolve seguir na direção do penhasco em que estavam os prisioneiros. Enquanto isso, Madox espera em seu esconderijo, pensando alto, ainda espantado com o que tinha acontecido:

– Tudo teria se resolvido com um sacrifício, mas o Djavan quis aparecer… Foi só a gostosa da Bia dizer que não concordava com aquilo que o ímpeto de Zé Bonitinho aflorou! O perigote das mulheres! Puta que o pariu! Agora vai morrer virgem, com apenas 16 anos, de bobeira! O que um jovem não faz por causa de xereca!

Conduzindo a carroça aos trancos e barrancos, Manche se arrepende de uma decisão:

“Maldita hora que eu aceitei levar aquele moleque bucha!”

Kreuber também cavalga desesperadamente, refletindo sobre o desenrolar da situação:

“Hagalaz ainda nos mandou a oferenda de bandeja… Inacreditável”.

O cavaleiro de Teras Altas busca avidamente algum lugar para se entocar, sem sucesso. Ben Sif continuava escondido, implorando a todos os espíritos do local por alguma proteção. Bia e Lend fogem para o norte, cabelo ao vento, sem olhar para trás. E até o pobre Santino se arremessava pelos barrancos montanha abaixo, se arrebentando inteiro para se afastar o máximo possível do local onde Adjaian e Marbal aguardavam Malboro.

O gigante vilando olhava para seu novo amigo moleque e pensava em tudo que já tinha falado até aquele momento:

“Aí a gente aproveita pra passar lá no covil e quebrar a perna do Malboro”.

“Vai eu e o moleque na frente pra caçar Malboro”.

“Essa é a minha missão. É pessoal.”

“Já aviso que vou pegar Malboro mesmo que sozinho”.

“Ele vai se foder comigo”.

Tinha falado pra caralho, e agora era a hora de botar tudo aquilo à prova. Mas olhou para o lado e só viu um moleque de 16 anos.

Enquanto isso, Adjaian pensava em Jon Tudur II. O filho do lendário cavaleiro de Hevelgar era realmente um jovem exemplar. Tinha decidido abandonar o desafio apenas para acompanhar Hanna e Jules. Era um bom amigo de Academia de Flâmages, embora fosse um pardal. Naquele momento, Adjaian podia imaginar as palavras de Jon em sua cabeça:

“Adjaian… Pensa bem, leque! Tu é jovem, vai enfrentar um dragão de vinte metros! Mete o pé, cara! Não vale a pena o sacrifício! Não há chances de vencer!”.

Adjaian também olhou para o lado, e viu que até mesmo Marbal parecia petrificado. Foi quando começou a pensar em desistir. Malboro já estava próximo, mas os dois estavam montados em cavalos. De repente podia acontecer um milagre.

E foi assim. Os dois se entreolharam, pensaram melhor, e abriram fuga. Galopando como se não houvesse amanhã, o jovem vilando grita de raiva:

– Manche! Nunca mais dê uma opinião perto de mim!

Para tentar aumentar as pouquíssimas chances de sobrevivência, vão cada um para uma direção. Adjaian vira para sudeste, e Marbal para o nordeste. Mas o Dragão de Fogo já estava muito próximo, voando a quase 200 km/h. Era uma covardia. Muito puto, a fera dispara uma bola de fogo gigantesca, que atingia mais do que o dobro da sua velocidade, na direção do pobre Adjaian.

O jovem vilando nem sentiu. Foi literalmente varrido do mapa, incinerado imediatamente, reduzido a poucas cinzas e uma marca negra no chão, junto com seu cavalo. Um triste fim.

O dragão olha ao redor e vê Marbal fugindo. Dispara outro bafo infernal, com o mesmo resultado. De uma hora para outra, o gigante tinha sido reduzido a pó.

Mas Malboro não estava satisfeito. Ainda tinha tempo de pegar mais um. Foi quando percebeu Manche tocando a carroça, já ao longe. A enorme bola de fogo nem acerta em cheio, apenas resvalando no veículo de carga. Mas foi o suficiente para carbonizar o chefe da guarda pessoal de Van Hal e os dois cavalos, que se transformaram em pedaços de carvão.

Ben Sif e Madox Heineken continuavam escondidos, apenas ouvindo os estrondos aterrorizantes dos ataques mortais, rezando para todos os deuses e espíritos conhecidos. Malboro observa de longe o resto do grupo se afastando de seu território, como baratas em fuga, e se dá por satisfeito. Bia, Lend e Kreuber estavam salvos por um triz.

O dragão para no ar por alguns minutos, magnânimo. Apenas para demonstrar toda a sua supremacia, dispara para o alto mais um jato flamejante, assustando todos os seres vivos que testemunhavam aquela cena ao mesmo tempo magnífica e terrível. Após um tempo, ele voa de volta para o oeste, rumando para o seu covil no Deserto de Gelo.

– Porra! – Exclama Ben Sif, aliviado, finalmente podendo sair do esconderijo.

Perto dali, Madox também sai do buraco onde se enfiara. Não sabia se ria ou se chorava. Mas pelo menos estava vivo. Adjaian e Marbal tinham literalmente evaporado.

– Caralhoooou! Djavan e Marbal tomaram um bolão de fogo na nuca, fugindo que nem saci ladrão! – Exclama o caçador, quando vê apenas duas imensas trilhas negras no chão, perto dali. Entre consternado e impressionado, deixa sua última homenagem para o jovem vilando:

– Descanse em paz, Djavan…

Madox e Sif então caminham pelas montanhas na direção do penhasco, e também avistam horrorizados os restos de Manche e dos cavalos. Fragmentos carbonizados. Por sorte, a carroça estava quase intacta, com exceção de algumas madeiras queimadas. Madox estava de bobeira com tudo aquilo:

– Malboro matou os caras que nem a gente mata barata. Sem tomar conhecimento, só pra parar de incomodar! E Manche ainda disse que era sempre bom levar uns buchas… O bucha levou Malboro diretamente até ele!

Sif apenas escutava, de boca aberta. Nem se quisesse poderia fazer alguma necromancia para se comunicar com os companheiros mortos. Excitado, o caçador continuava falando sem parar:

– E Santino? Vivão! O moleque trocou a vida do Santino pela vida de três do nosso grupo. Praticamente fudeu com a missão e nem pegou a Bia! Parabéns Djavan! Vai ser difícil superar essa atuação!  Sempre lembrado, nunca esquecido!

– Santino um dia vai contar a história de quando quase foi sacrificado, mas foi salvo por um moleque de 16 anos… – Imagina Sif.

– Santino deve tá pensando: “Ele morreu no meu lugar. Mas é aquilo, antes ele do que eu”. – Responde Madox.

– Eu teria sacrificado aquele soldado viadinho cagão… – Reitera Sif.

Aquela tragédia era mais uma prova incontestável do poder absurdo de um Dragão de Fogo. Não eram Dragões de Gelo, perigosos e quase tão grandes, que viviam nas montanhas do deserto gelado. Nem eram os Dragões Negros do Extremo Ocidente, rápidos e agressivos, mas bem menores. Todos estes inclusive faziam parte da dieta dos Cardeais. Só haviam quatro deles: Malboro, Gorgon, Calto e Inferon. Os maiores e mais poderosos predadores de Asgaehart. Os únicos espécimes do gênero que podiam enfrentá-los eram os 16 Dragões Dourados. Mas estes já não andavam entre os humanos há séculos. Menores e inteligentíssimos, tinham se autoexilado para sempre em local desconhecido, e deixado os seus Sentinelas para evitar o retorno de seus primos vermelhos. Mas estes tinham falhado. Ou melhor: tinham sido bem sucedidos por um bom tempo. Até Vitiferralis enlouquecer.

Segundo as lendas, os Dragões de Fogo só temiam uma coisa: o Tiwaz. Um conjunto de armas fabricado pelas milenares Ninfas de Pertisona, entidades etéreas nascidas do ventre da própria deusa Travel, com o sêmen dos Dragões Dourados. Armas energizadas pelos místicos e raríssimos cristais de Xart, e produzidas sob medida para que alguns escolhidos pudessem enfrentar os quatro Cardeais. Mas o Tiwaz tinha se perdido após o último confronto, ocorrido há quase mil anos, quando a aliança entre humanos e Dourados resultara na hibertação dos Dragões de Fogo, que agora estavam novamente livres.

Ben Sif só conseguia pensar em toda essa história, e no quanto poderia ser mal visto quando descobrissem que seu antigo mestre tinha sido o responsável por toda aquela desgraça. Mas pelo menos haviam muitos como ele. Antes de perder o juízo, Vitiferralis era considerado um dos melhores discípulos de Imperatrix, tendo ele próprio formado vários dos magos que hoje lutavam pelo Império Velga. De qualquer forma, pensou Sif, era melhor passar a manter sua origem em segredo. Mas, se conseguisse retornar com vida ao templo necromante de Darklands, certamente se juntaria aos mestres que já estavam estudando um jeito de encontrar os Dragões Dourados.

Algumas horas depois, Bia e Lend chegam até o local, seguindo a fumaça emitida pelos corpos carbonizados, e encontram Sif e Madox. A perda tinha sido grande, mas pelo menos a carroça ainda poderia ser utilizada. Quando ela pergunta o que houve com Adjaian e Marbal, Madox conta a história triste mais uma vez. O caçador parecia até se divertir com isso.

– Acho que aquele garoto e o brutamontes tinham problemas. – Diz Bia, triste.

Sif responde, aproveitando a deixa para fazer piadas de humor negro:

– Problemas? Acho que não… Só estavam de cabeça quente. Eram meio esquentados e acabaram se queimando com o grupo.

[Continua: 51. Escalada ao Templo]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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