51. Escalada ao Templo

51. Escalada ao Templo
Halberic Lend, velga de Flamme, chefe da Bruma.

[Antes: A Ira de Malboro]

Após gastarem um tempo para conectar o que tinha sobrado da carroça a um dos cavalos, Bia, Lend, Madox e Sif pegam a trilha de volta até o penhasco onde se localizava o templo, e o mago tinha sentido a presença de seu antigo mestre. Assim como Santino, o necromante agora não parava de olhar para o céu, pois tinha ficado realmente impressionado com todo aquele poder de fogo.

Com a morte de Manche, a liderança passaria ao Gargo Halberic Lend, o único oficial que tinha sobrado no grupo. De forma geral, o chefe da Bruma era um sujeito reservado e calado, mas agora ele sentia que teria de assumir o comando para que a missão não se tornasse um completo fracasso. Quatro pessoas já tinham morrido. Enquanto cavalgam, Lend avalia a situação por que tinham passado:

– Olha pessoal, a opção do sacrifício envolvia a capacidade da galera superar o próprio orgulho, pela missão… Mas como tinha nego brabo no grupo, que não aceitou reverenciar Malboro, deu ruim pra todo mundo. Espero que tenham aprendido a lição.

Madox não poderia perder aquela chance de repetir o seu discurso sobre Adjaian:

– Djavan, moleque novo, não tinha nem ideia da dimensão de Malboro. Estava lá de peito estufado, olhos fixos esperando a chegada de seu inimigo. Devia estar pensando ali em como a Bia estava impressionada e apaixonada por ele. Porém, em poucos minutos o longínquo semblante de Malboro se tornou colossal, e toda aquela coragem juvenil foi se esvaindo!

O caçador continuava contando a sua versão para o que tinha acontecido:

– Quando Malboro cafungou em seu cangote, Djavan, totalmente cagado pelo medo, e sabendo que Bia, sua amada imaginária já estava longe e não ia ver nada, montou em seu cavalo e partiu desesperado para a fuga!

Madox então conclui sua historinha, para a vergonha de Bia, que ouvia tudo aquilo ruborizada:

– Mas aí o dragão soltou um bolão de fogo nos cornos dele. E foi assim que Djavan morreu.

– Não foi só ele, cara. Foda também foi Marbal, catarroso pra caralho, dizendo toda hora que ia pegar Malboro, e também saiu voado na hora que deu merda.

Quase uma hora depois, os quatro avistam Kreuber, que tinha chegado antes ao local perto do penhasco. O cavaleiro das Terras Altas estava fumando um cigarro, olhando o horizonte a oeste e pensando na matança que tinha acontecido.

– Tu viu o que aconteceu? – Pergunta Lend.

– Sim, foi o maior peido da história de Asgaehart. – Responde Kreuber.

– Os caras meteram marra, e Manche se fodeu por causa disso.

– Meteram marra de burro, né? – Rebate Kreuber.

– Foda. Na hora H, viram o tamanho do dragão aumentando. Grande pra caralho… – Continua Lend.

– A sombra chegando… – Complementa Kreuber.

– Só aí que se ligaram… – Diz Lend.

– Devem ter ficado em pânico, pensando no que iriam fazer… Todo cagado. – Imagina Kreuber.

– Deram uma esporada nos cavalos e abriram fuga cada um prum lado, na estratégia “tomara que pegue o outro”. – Conclui Lend.

– E sabem o que Djavan tinha pra lutar? – Pergunta Madox.

Como ninguém fala nada, o caçador mesmo responde, ironizando:

– 16 anos!

Bia não aguentava mais ouvir aquela conversa:

– Precisamos decidir o que fazer agora.

– Em homenagem aos caras, hoje não decido nada. – Diz Kreuber.

De onde estavam, podiam ver o penhasco onde se localizava o templo, mas nenhum sinal dos dracos. Podiam seguir com os cavalos por mais um trecho de trilha, mas a última parte teria de ser realizada a pé, escalando. Além da carroça, ainda tinham três cavalos. A boa notícia é que não havia nenhum sinal de qualquer fera ou predador naquela área. Todos estavam devidamente entocados, por conta da presença de Malboro no território. Provavelmente só eles ainda estavam boiando pela região.

Madox repete o que já tinha dito antes:

– Por mim temos que salvar os cadetes e o filho do Rei na agilidade e meter o pé.

– Facinho. – Provoca Bia.

– Difícil pra caceta. Mas é mais fácil que salvar todo mundo. – Responde Madox.

Lend estava calado. O que fazer? Decretar o fracasso da missão e pedir reforços? Para isso, alguém teria de retornar a Flamme, no Reino de Aquitan, desfalcando ainda mais o grupo. Tinham saído dez pessoas, e agora restava só a metade. Seria vergonhoso.

– Eu topo seguir adiante para tentar salvar pelo menos o filho do Rei Hagen. Depois a gente volta com reforços pra salvar o resto. – Diz Sif.

– Vamos seguir adiante. Pelo menos temos de mapear o caminho. – Decide Lend.

Já estavam no fim da tarde. Madox seguia à frente, tentando rastrear o melhor caminho até o penhasco. A melhor forma de se aproximar seria subir por uma encosta de pedras, evitando a face da escarpa que dava para o Fiorde.

– Vamos por ali, Madox? – Pergunta Sif.

– Acho que a melhor estratégia é essa. – Responde o caçador.

O grupo então amarra os cavalos e a carroça em uma pedra, no fim da trilha, e começa a escalada até o penhasco, da forma mais silenciosa possível. Após uma tentativa frustrada de seguir pelo lado oeste, eles se veem obrigados a retornar um trecho, e finalmente conseguem alcançar a encosta que dava acesso à entrada do templo. No alto do penhasco, agora eles podiam ver claramente uma espécie de torre circular com paredes de cinco metros de altura, e um diâmetro de dez a vinte metros. Empoleirados ali, 16 dracos montavam guarda, absolutamente imóveis. Todos engolem em seco, tentando se manter quietos para que os animais não percebessem a aproximação. Naquele momento, nem poderiam imaginar que, na outra face do penhasco, Jon e Hanna também estavam tentando entrar no templo, mas através da plataforma de pedra projetada ao lado do fosso, de frente para as águas do Fiorde.

***

Quando o sol se pôs no Fiorde Ocidental, Jon e Hanna saem de seu esconderijo e começam a escalar o paredão de pedra até o alto do penhasco, atentos a qualquer movimentação dos dracos que guardavam a torre do templo, no alto. Quando já estava a uma altura de dez metros, o filho do arauto de Hevelgar arremessou uma pedra na água, para conferir se o barulho chamaria a atenção de algum dos animais. Nenhum dos bichos se moveu um centímetro. Estavam mesmo compenetrados em vigiar o local. Voltar ao templo seria uma missão mais complicada do que poderiam imaginar.

Os dois cadetes da ACAFAM continuam subindo, e conseguem escalar a escarpa sem chamar a atenção. Agora já estavam próximos da entrada do templo, de onde tinham saltado no início da manhã. Era muito alto ali. Olhar para baixo provocava medo e vertigem. Podiam tentar rastejar pelas pedras até o fosso, mas a probabilidade de que fossem vistos por algum draco era altíssima.

Jon e Hanna se entreolham, sem saber o que fazer. Retornar não era uma opção. Àquela altura, algumas pessoas aprisionadas já podiam ter morrido. De alguma forma, eles precisavam quebrar aquelas malditas garrafas.

[Continua: 52. A Orquídea Negra]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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