52. A Orquídea Negra

52. A Orquídea Negra
A Orquídea Negra da Angústia.

[Antes: 51. Escalada ao Templo]

Quando Madox, Lend, Sif, Bia e Kreuber avançam pela encosta, a menos de cem metros da torre de pedra, o caçador pisa em falso, fazendo rolar alguns fragmentos de pedra penhasco abaixo. Com isso, quatro dracos levantam voo da plataforma de entrada e seguem em direção ao local. Assim que avista os animais alados, Halberic Lend lança rapidamente uma bruma de fuga, e todos tentam se esconder por ali, em pequenas saliências e rachaduras nas paredes.

Enquanto isso, do outro lado, Jon e Hanna percebem a movimentação dos dracos, e se perguntam o que poderia ter chamado a atenção dos bichos.

Os dracos sobrevoam a área coberta pela fumaça negra. Assim que a bruma se dissipa, todos já estão bem escondidos. Os bichos então retornam para a posição de guarda na entrada do templo voltada para o Fiorde. Afastados um do outro, Kreuber começa a se movimentar novamente para tentar se aproximar da torre. Sif não acha uma boa ideia, e sussurra para Lend, que estava escondido a alguns metros dele:

– Porra, precisamos montar um plano e parar com essa porra de ir no impulso.

– Nem sabemos ainda o que vamos fazer se conseguirmos entrar lá. – Responde Lend.

– Vamos pensar, pra não agir como alguns que se queimaram… – Insiste Sif.

Madox, que estava um pouco mais distante, tenta se comunicar com os dois:

– Acho que vocês magos devem entrar primeiro para ver se os prisioneiros estão lá.

Bia, que estava escondida mais atrás, também começa a se preocupar com a falta de comando. Kreuber já tentava se esgueirar à frente, enquanto Lend, Sif e Madox discutiam o que fazer, com muita dificuldade, pois não podiam falar alto. Já tinham descartado o uso das brumas de sono, pois os dracos voavam rápido demais. A não ser que fossem atraídos para o interior daquele templo, como sugeriu o necromante. Adiantando-se até aonde estavam, a sacerdotisa sugere uma alternativa:

– Posso entrar lá para ver isso e avaliar a condição deles. Se precisarem de ajuda, poderei salvá-los.

Os três concordam com a sugestão, e Bia avança até onde estava Kreuber. Ela então informa sobre o plano e pede que o cavaleiro aguarde um pouco. Com muito cuidado, a tigunar escala os últimos metros da encosta, e aproveita a escuridão para alcançar a lateral do templo e se esconder ao lado da parede. Enquanto observa os dracos montados em cima da torre, ela tenta encontrar uma forma de se infiltrar no local. Mas, para isso, teria de conseguir fazer com que pelo menos um daqueles animais se afastasse.

Usando suas capacidades de empatia, Bia sente uma toca de morcegos hakens nas redondezas. Fazendo muita força para controlar um deles, ela o conduz na direção do draco que montava guarda perto de onde estava. O animal então se vê obrigado a levantar voo para se defender do ataque suicida do haken, que era bem menor, mas também dotado de garras perigosas. Quando o draco passa a perseguir o morcego, Bia usa uma corda com gancho para escalar a parede, silenciosamente. Ela teria somente alguns poucos minutos para entrar ali antes que o animal alado retornasse com o resto do morcego entre os dentes.

Do outro lado, Jon estica o pescoço para tentar ver a câmara no interior do templo onde esteve antes, mas percebe que só conseguiria enxergar alguma coisa se escalasse mais alguns metros. O que poderia chamar a atenção dos dracos. Ele e Hanna sabiam que precisariam quebrar as garrafas, mas o barulho também os denunciaria. Aquela era uma situação muito difícil. O jovem Tudur então faz um sinal para avisá-la de que tentaria entrar no templo. Arrastando-se para cima, Jon consegue agir silenciosamente, e avança sem ser percebido.

Chegando ao fosso circular onde esteve antes, Jon se esgueira pelas sombras para não ser visto pelos dracos. Num dos cantos da câmara interior do templo, ele vê duas pessoas desacordadas, em posição fetal, deitadas lateralmente em uma plataforma esculpida como uma forma para as garrafas. Aquilo não estava lá antes. Ao lado delas, há materiais que parecem ser utilizados para produzir vidro. No chão do fosso, um cadáver parece ter sido abandonado. Nas paredes de pedra, ele percebe que tudo continuava como antes, mas agora os gritos e as lamúrias eram bem mais fracos, quase inaudíveis. Era esperado. Aqueles pobres coitados já estavam naquela situação penosa há mais de um dia.

Olhando detidamente ao redor, Jon vê outra coisa que também não tinha notado antes, e que chama sua atenção. Numa pequena gruta alagada mais ao fundo da caverna, havia um tipo de planta de aspecto horrível e pegajoso, pingando das folhas escuras um tipo de seiva translúcida. Ele então observa os prisioneiros que estavam nas garrafas mais próximas, nos altares do primeiro nível. Nenhum deles era o Príncipe Kaster. Naquele momento, Jon se lembra que ainda tinha em seu poder uma carga de bruma de fuga, produzida por Fuscão, que ele não tinha usado quando estava na Ilha de Fedo.

Enquanto pensava no que fazer, Jon avista alguém descendo as paredes da torre por uma corda, sorrateiramente. O jovem velga fica aliviado ao perceber o uniforme da Hokhe. Quando Bia desce ao fosso e vê o cadete, faz sinal para que ele não fale nada. Os dois se escondem num canto do templo, e Jon conta à sacerdotisa tudo o que tinha acontecido com eles até ali. Mostrando a estranha planta para Bia, Jon percebe quando ela arregala os olhos. Era uma Orquídea Negra da Angústia, algo que ela nunca visto antes. Só conhecia por conta das lendas macabras sobre o vegetal. Aquela seiva só podia ser produzida quando a planta era alimentada por sons de sofrimento humano.

Tocando a planta para saber o que tinha ocorrido, Bia tem algumas visões que mostram o sórdido Vitiferralis obtendo uma quantidade de seiva suficiente para acordar Zama, a fêmea dos Dragões de Fogo. Horrorizada, a sacerdotisa tinha finalmente descoberto qual era o principal objetivo daquele templo. Ela explica a Jon que o líquido é muito venenoso para humanos. Não deve ser tocado e muito menos bebido. A planta também sofria com o sofrimento alheio, mas não podia deixar de produzir a seiva enquanto estivesse exposta a todo aquele desespero.

– Então a seiva é a lágrima da planta… – Espanta-se Jon, falando baixo.

– Ela sabe que a seiva só pode ser utilizada para o mal. – Diz Bia.

Bia e Jon circulam cuidadosamente na câmara interior do templo, tentando reconhecer as pessoas aprisionadas. Em sua maioria, eram de raça velga, adultos e jovens, mas também crianças. Também havia pelo menos um gaulês, um vilando e um mestiço de Ileano. Mas o príncipe não estava entre eles, pelo menos nas garrafas daqueles altares mais baixos.

Enquanto isso, no lado da encosta, o resto do grupo começa a ficar preocupado com Bia. Ben Sif decide tentar se aproximar da torre, mas acaba sendo obrigado a se esconder quando um dos dracos percebe seus movimentos, e voa em sua direção. Madox aproveita o deslocamento do animal alado para alcançar a torre, e rapidamente escala as paredes naquele local. Em poucos minutos, o caçador também conseguiria alcançar o interior do templo.

Ele então avista Bia no fosso e se surpreende ao perceber que ela encontrou o jovem Tudur. O vulkânico também fica impressionado com a visão das garrafas nos altares de pedra. Sem descer ao fundo, Madox escala lateralmente a parede interna da torre, de forma a olhar os prisioneiros no nível intermediário. Ele vê algumas caras conhecidas da nobreza, mulheres da corte, mas também não encontra o herdeiro de Van Hal.

Ainda do lado de fora, Sif e Lend pensam no pior. Bia e Madox tinham entrado há algum tempo. O novo líder da missão então resolve arriscar um plano. Ele prepara uma bruma de fuga para ser acionada automaticamente após alguns minutos, e se afasta junto com Sif para um local mais perto da torre. Quando a fumaça se espalha onde ele montou a armadilha, quatro dracos levantam voo para averiguar a área, e os dois aproveitam para entrar no templo, usando as mesmas cordas deixadas pela sacerdotisa e pelo caçador.

Assim que avista o interior da torre, e a Orquídea Negra, Ben Sif logo entende o que estava acontecendo ali. “Sofrimento verdadeiro vale ouro”, costumava repetir seu antigo mestre, quando falava de necromancias. Aquilo era um Templo do Desespero, que servia para criar uma substância poderosa, a Linfa do Mal Eterno.

Por Magiar! O que será que Vitiferralis esperava fazer com aquela poção terrível?!

[Continua: 53. O Plano de Bia]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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