53. O Plano de Bia

53. O Plano de Bia
Draco, predador alado oriundo da Terra dos Gigantes.

[Antes: 52. A Orquídea Negra]

No fosso do templo, Ben Sif se aproxima do cadáver estirado no chão, pelas sombras, fazendo silêncio para que os dracos que montavam guarda na torre não o percebessem. O necromante então mastiga uma raiz de Cidália, e começa o ritual para ver as últimas memórias do morto. O pobre rapaz tinha sido capturado de surpresa, num campo perto de Mastrik, enquanto pastoreava ovelhas. Ao ser arremessado pelo draco, sofreu uma lesão que o deixou paralisado. Antes de morrer, assitiu a um mago preparando o vidro para engarrafar dois prisioneiros. Era Tio Vito. O sujeito não tinha visto o príncipe Kaster, mas Sif aproveita as últimas alucinações da necromancia para entrar em contato com os espíritos que ainda estavam no local, e consegue obter a confirmação. Sim, o herdeiro ainda estava ali. E vivo.

Enquanto isso, Madox já estava no nível superior dos altares, o que ficava mais perto dos dracos que vigiavam o templo. Escalar a parede ali era arriscado demais, mas o príncipe só podia estar numa daquelas garrafas. No último altar, quando já podia sentir o cheiro azedo do animal alado que estava logo acima, o caçador conseguiu ver Kaster Van Holand. Na mesma hora, o príncipe para de gemer e olha para o súdito da Dokhe, parecendo não acreditar que enfim poderia ser salvo. O jovem estava sedento, completamente retorcido, mas agora tinha esperanças. Com gestos, Madox tenta tranquilizar o filho do Rei de Van Hal.

Enquanto tentavam definir algum plano, Bia informa a Lend que tinha percebido um padrão: toda vez que algo chamava a atenção dos dracos fora do templo, quatro deles alçavam voo para averiguar o que estava acontecendo. Ela então sugere que quatro pessoas do grupo sigam para locais longe dali, e soltem brumas de fuga em sequência, de forma a fazer com que todos os animais deixem o templo. Somente assim os que ficassem teriam tempo para salvar os prisioneiros.

– Enfrentar quatro é pica. – Diz Jon.

– Acho que não temos alternativa melhor. – Responde Lend.

– Dependendo do tempo, podemos salvar todo mundo. – Reforça Bia.

– Também acho que é a nossa melhor chance. – Diz Sif, se juntando ao grupo.

Lend pede que Bia tente entrar em contato telepático com Kreuber, que continuava do lado de fora. Ela explica o plano para o cavaleiro de Terras Altas, e tenta convencê-lo:

“Os que servirem de isca serão verdadeiros heróis”. – Informa Bia, projetando sua voz na cabeça de Kreuber.

“Eu não nasci pra isca. É morte certa”. – Rebate Kreuber, também em pensamento. Antes de terminar a conexão mental, a sacerdotisa consegue ler outras convicções do cavaleiro Hokhe:

“Quero que se foda esse príncipe. Por ele não vou. Posso até morrer por vocês, mas por um nobre vagabundo, não”.

Bia comenta com Lend a resposta do cavaleiro Hokhe, e o chefe da Bruma argumenta que poderão planejar melhor como se esconder dos dracos.

– Você pode ir com ele, Ben? – Pergunta Lend.

– Ficou louco? Óbvio que não vou sair pra servir de isca pros dracos. – Rejeita Sif.

– O plano é bom. Quem for vai ter tempo de chamar a atenção e fugir, ou se esconder. – Reforça Jon, antes de se oferecer para a missão: – Se ninguém mais quiser ir, eu vou. Ainda tenho comigo uma bruma de fuga. – E mostra para Lend a peça que Viktor tinha lhe dado.

Lend fica impressionado com a determinação do garoto, mas rejeita a sugestão:

– Eu tenho mais de 20 aqui comigo. Brumas de verdade, não essa gambiarra aí que eu não faço ideia onde você arrumou. Mas você é um dos que precisam ser salvos, rapaz. A missão agora é nossa. Aliás, onde está a duquesa?

– Está lá fora, perto da plataforma de pedra, na escarpa do Fiorde. – Responde Jon.

Bia entra em contato telepático com Hanna. A jovem líder dos corvos também se oferece para a missão de atrair a atenção dos dracos, de forma que todos os prisioneiros ali pudessem ser salvos. Quando escuta aquilo, Ben Sif muda de ideia. Não era justo que aquela nobre adolescente de 17 anos, justamente uma das pessoas que tinham de ser resgatadas, ocupasse o papel de alguém mais experiente e inteiro, como ele.

– Vamos lá. Eu vou nessa missão. – Aceita o necromante, antes de sugerir: – Mas vocês precisarão ficar com a Aurora da Morte. Quando esses bichos voltarem, e vocês já tiverem tirado os prisioneiros daqui, alguém terá de acioná-la para exterminar os dracos, facilitando a nossa fuga.

A contraproposta era bem razoável, mas manusear aquela caixinha de chumbo metia em medo em qualquer um que não estivesse acostumado.

– Eu fico com ela. O comando é meu agora. – Diz Lend.

– Nós também teremos de sair com Sif, Lend. E ainda precisaremos de mais uma pessoa. – Lembra Bia.

– Kreuber precisa ir conosco. Entre em contato com ele de novo, Bia. – Pede Lend.

A sacerdotisa volta a realizar um elo mental com o cavaleiro, que mentaliza:

“Por que vocês não vazam daí e o Ben lança a energia infernal pra matar todo mundo? Depois a gente fala pro Rei de Van Hal que o filho dele estava morto. Acabaria draco, nego fudido, planta sofrida. Acabaria geral”.

“Você enlouqueceu. Bastaria um necromante para nos mandar todos à forca.”

“Está bem. Se não tiver ninguém mais pra servir de isca, eu vou. E se quiserem que eu entre aí pra ficar no garante com a caixinha, vou também. Tô doido pra acabar logo com tudo isso. Eu nem tentaria escapar”.

Bia comunica a resposta de Kreuber a Lend. Como eles já tinham as quatro pessoas para a missão de atrair os dracos, agora precisariam decidir quem ficaria com a caixinha infernal de Sif. Com a morte de Manche, o chefe da Bruma sabia que seria ele, como o mais graduado do grupo, que teria de prestar satisfações ao Rei Hagen, na volta. Pior ainda, teria que explicar tudo na Clave.

– Madox fica com a Aurora. – Decreta Lend.

O chefe da Bruma pega a Aurora da Morte com Sif. Usando gestos, ele aponta para a caixinha e para Madox, que continuava pendurado no lato da parede do templo, ao lado do altar onde o príncipe estava preso numa garrafa. O vulkânico entende o recado, e engole em seco. Afinal, só restaria ele e os dois jovens cadetes no templo, para resgatar os prisioneiros. Ele bem sabia que portar a Aurora, sem conhecer a técnica mística para programar o tempo de seu acionamento, era sinônimo de suicídio. Mas ele ainda tinha alguma esperança de escapar vivo dali. Como? Ainda não sabia. Mas seus pensamentos já calculavam todas as probabilidades:

“Vocês vão tomar no centro dos seus respectivos cus. Suicida é o caralho. Nem fodendo. Vou bicar essa porra de caixa no fosso e meter o pé”.

Antes de saírem pela plataforma de pedra no fundo do fosso, pelo canto onde Jon tinha entrado, Lend entrega ao jovem cadete a caixinha de chumbo, para que ele a repassasse ao caçador, no momento certo. Arrastando-se para fora do templo, ele, Bia e Sif encontram Hanna em seu esconderijo, e repassam todo o plano para a jovem. Quando os dracos voassem para longe, ela deveria se juntar a Madox e Jon na tarefa de livrar os prisioneiros.

Lend, Bia e Sif escalam as pedras no escuro, e depois de algum tempo chegam até o local onde Kreuber os esperava. Já era alta madrugada quando os quatro retornaram ao final da trilha, onde tinham deixado os cavalos e a carroça. O necromante usa seus poderes intuitivos para descobrir uma pequena gruta próxima, onde o cavaleiro das Terras Altas poderia se esconder quando acionasse ali uma bruma de fuga para chamar a atenção dos dracos.

Bia monta um dos cavalos e segue pouco mais de uma milha na direção norte, enquanto Ben e Lend cavalgam na direção contrária. O necromante então se posiciona no local combinado, e o chefe da Bruma continua avançando mais um tempo para o sudeste, até que todos estivessem distribuídos ao redor do penhasco onde se localizava o templo.

A luz da manhã começava a apontar no horizonte quando Kreuber disparou a primeira bruma de fuga e se retirou para o esconderijo na pequena gruta. Tal como previsto pela sacerdotisa de Virgo, quatro dracos deixaram o templo para averiguar a área. Quando eles já estavam no meio do caminho, Bia aciona a bruma ao norte. Todos cruzaram os dedos e depois comemoraram quando mais quatro animais levantam voo para o local. A sacerdotisa foge em carreira com seu cavalo. Pouco depois, Ben Sif faz o mesmo, sendo também seguido por quatro deles. Por último, é a vez de Lend acionar a fumaça negra.

No templo, Madox, Jon e Hanna nem acreditam quando ficam livres para iniciar a operação de resgate. O plano de Bia tinha funcionado.

[Continua: 54. O Resgate do Príncipe]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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