54. O Resgate do Príncipe

54. O Resgate do Príncipe
Ben Sif, gaulês de Bruxel, em Darklands, mago necromante.

[Antes: 53. O Plano de Bia]

O caçador dá um golpe com o cabo da espada na garrafa que prendia o príncipe, fazendo o vidro rachar em camadas e se estilhaçar. O jovem Kaster cai em cima de Madox, sujo de merda e urina. Estava há dois dias preso ali, quase morto de sede, e completamente entrevado pela impossibilidade de se movimentar. Quase sem forças, o herdeiro do trono só é capaz de murmurar algumas palavras, enquanto o vulkânico lhe servia um gole d’água:

– Obrigado… Muito obrigado! Que Hiniar e Hagalaz te protejam!

Antes de começar a descer com Kaster, Madox olha ao redor no altar, procurando algo de valor, mas não encontra nada. Enquanto isso, Jon já estava subindo nos altares do segundo nível, utilizando uma pedra para quebrar as garrafas, e um pouco de água do cantil para tentar animar os prisioneiros. E Hanna cuidava de fazer a mesma coisa para libertar aqueles que estavam nos nichos de baixo. Assim que deixa o príncipe no fosso, Madox escala novamente a parede do templo para resgatar o resto das pessoas nos altares mais altos, uma a uma.

Em cerca de dois minutos, todos estavam livres. Infelizmente, dois prisioneiros não tinham resistido à provação. Era um homem de meia idade, provavelmente um plebeu, e uma jovem da nobreza de Mastrik. Hanna a conhecia de vista. Mas as duas pessoas que estavam desmaiadas na forma ainda estavam vivas. Ao todo, tinham salvado mais 16 pessoas, entre adultos e crianças, mas quatro delas não tinham nenhuma condição de caminhar. As demais poderiam seguir com alguma dificuldade, considerando o terreno acidentado que teriam de encarar.

Enquanto isso, os dracos que voavam na direção de Kreuber já estavam retornando ao templo, pois não tinham visto nenhum sinal do cavaleiro. Ben Sif também já tinha abandonado sua montaria quando percebeu um buraco no chão perfeito para se esconder. Dali, ele pode assistir ao pobre cavalo ser devorado pelos quatro animais alados que estavam em seu encalço. Bia e Lend, no entanto, continuavam fugindo a galope. Quando os dracos alcançaram a sacerdotisa, ela arremessou outra bruma de fuga, e por sorte conseguiu encontrar uma fenda numa pedra, de onde também viu seu cavalo virar refeição, assim que a fumaça negra se dissipou no local.

Halberic Lend, no entanto, tinha conseguido manter uma distância considerável dos dracos, usando brumas em série para despistá-los, o que era sua especialidade. Após algum tempo, os predadores alados desistiram da perseguição, e começaram a retornar ao templo. No interior da torre, Madox, Jon e Hanna já tinham conseguido levar todos aqueles que conseguiam andar para o mesmo esconderijo utilizado anteriormente pela líder dos corvos, alguns metros abaixo da plataforma de pedra que se projetava do fosso para as águas do Fiorde.

Antes do primeiro grupo de dracos retornar, Jon pegou no colo uma criança velga, que não podia andar, e também se deslocou para o esconderijo. Antes disso, ele entregou para Madox a caixinha com a Aurora da Morte, seguindo a orientação de Halberic Lend. Com muita dificuldade, Hanna arrastou para o mesmo lugar uma jovem camponesa Ileana, que inclusive se parecia muito com ela. Ainda no fosso, com o caçador, tinham sobrado apenas dois homens adultos, conscientes, mas também incapazes de se movimentar, por conta de danos graves à coluna vertebral.

Quando os quatro primeiros dracos retornaram à torre, Madox Heineken já estava posicionado na plataforma de pedra, à beira do precipício, junto com os dois homens imobilizados. Sentindo o gelo subindo pela espinha, o caçador ficou absolutamente imóvel, em silêncio. Para sorte do grupo, os animais alados ainda não tinham percebido o que acontecera ali. Eram perigosos, mas também eram bichos estúpidos e irracionais. Além do que provavelmente estavam submetidos a um estado catatônico, sendo controlados por algum tipo de magia.

Assim que os outros dracos voltaram ao templo, retornando à posição de guarda no alto da torre, o caçador vulkânico olhou para a caixinha de chumbo. Aquele era o momento. Ele então arremessou os dois homens na direção das águas do Fiorde, e se preparou para a hora decisiva. Quando os primeiros animais peceberam os barulhos provocados por Madox e voaram para o interior do templo, o vulkânico acionou a caixinha e tentou arremessá-la para dentro do fosso, ao mesmo tempo em que se projetou para o abismo, gritando:

– Jerônimooooo!

A mistura das Lágrimas do Sol com os minúsculos fragmentos de Cristais de Kali produzia um tipo de brilho fulgurante, que se expandia de forma incontrolável para todas as direções, quase que de forma instantânea. Era um arco-íris difuso, mortal para todo tecido vivo. Enquanto caía, Madox pode perceber quando a energia tocou seu braço direito, o mesmo com que tinha lançado a caixinha, fazendo com que o membro se desintegrasse imediatamente.

Pelo menos não havia qualquer sangramento, pois o dano foi completamente cauterizado por aquela energia infernal.

O caçador cai duranteintermináveis segundos antes de mergulhar nas águas do Fiorde. Não tinha dado a sorte de ter a queda amortecida por águas, e fraturou a bacia. Cansado, quebrado e sem um dos braços, Madox sofre para alcançar as pedras no litoral. Olhando para cima, ele agradece aos céus por não avistar nenhum draco. Todos tinham sido dizimados pela Aurora da Morte, graças a Hagalaz!

Sentindo dores horríveis no tronco, devido aos ossos quebrados, o caçador observa ao redor para ver se alguns dos homens que ele tinha arremessado sobrevivera à queda. Nenhum sinal deles, infelizmente.

Enquanto isso, Halberic Lend aguarda um tempo para lançar mais uma bruma de fuga, e agradece aos deuses quando percebe que mais nenhum draco tinha se levantado para persegui-los. Tudo indicava que Madox tinha sido bem sucedido em realizar o plano de Sif, e agora restava saber se tinham conseguido libertar os prisioneiros. O chefe da Bruma então cavalga até a posição de Kreuber Dikson, e eles caminham juntos até o templo, onde encontram Jon, Hanna e mais 14 pessoas regatadas, incluindo o filho do Rei!

Os cadetes avisam Lend que Madox tinha se jogado para o Fiorde. O chefe da Bruma pede que Jon e Hanna levem os resgatados até o fim da trilha, onde poderiam usar o cavalo que tinha restado e a carroça para levá-los à Flamme. Enquanto isso, ele e Kreuber descem pelo penhasco para tentar encontrar algum sinal do caçador.

No fim da trilha, junto à carroça, Jon e Hanna encontram Sif e Bia, que usa seus poderes de cura para cuidar dos feridos. A sacerdotisa pede para aguardarem um pouco até que ela pudesse entrar em contato mental com Lend. Já no litoral do Fiorde, o chefe da Bruma e o cavaleiro de Terras Altas respiram aliviados quando encontram o caçador estirado numa pedra. Tinha perdido um braço e se quebrado, mas estava vivo.

– Agora tu vai poder ficar contando história pros cadetes, Madox! – Diz Kreuber, fazendo piada com a triste situação do caçador, que certamente seria aposentado da cavalaria.

– Porra nenhuma! Vou acoplar uma arma nesse cotoco! – Responde Madox, enquanto sofria com dores por todo o corpo.

Kreuber começa a rir, mas todos ali sabia que os dias de atividade do caçador vulkânico na Dokhe seriam encurtados. Afinal, tinha perdido o braço com que lutava. Naquele mesmo momento, Lend escuta a mensagem de Bia, e avisa que Madox também estava vivo. A missão tinha sido um sucesso! Era fato que tinham perdido quatro guerreiros pelo caminho, mas o saldo era muito positivo. Tinham salvado o príncipe, os dois cadetes e mais uma dezenda de prisioneiros. Seriam considerados verdadeiros heróis no Império, e já podiam imaginar as honras e premiações que receberiam.

Bia, Sif, Jon e Hanna aguardam o retorno de Kreuber e Lend com Madox, que não podia caminhar. Todos ainda estavam apreensivos com a possibilidade de que Vitiferralis voltasse ao templo. Mas Sif tinha a intuição de que seu antigo mestre já tinha conseguido tudo o que precisava para o seu novo objetivo, o que também passava longe de ser uma boa notícia.

E assim, no início da noite daquele dia intenso, após algumas horas atravessando o Planalto dos Ventos, o grupo finalmente chegava à capital do Reino de Aquitan, com sete heróis e 14 resgatados. 16, se contassem Jon e Hanna. Mas os dois cadetes eram mais que isso, e também mereciam o reconhecimento. Em Van Hal, o Rei Hagen já estava ansioso esperando pelo retorno de seu filho mais velho, e queria saudar pessoalmente todos os cavaleiros que tinham participado daquela aventura.

Pelo menos naquela ocasião, missão dada era missão cumprida. Mesmo que tivesse custado alguns cadáveres.

[Continua: 55. A Era dos Dragões]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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