55. A Era dos Dragões

55. A Era dos Dragões
Jon Tudur, cavaleiro velga de Viktoria, Arauto de Hevelgar.

[Antes: 54. O Resgate do Príncipe]

528 cl. Milenor 31. Assim que chegou em Van Hal, Jules Flanagan entregou o pergaminho que tinha encontrado no Templo do Desespero para os magos do Colegiado de Imperatrix. Na maior cidadela velga, o então cadete encontrou Jon Tudur, que tinha interrompido sua vigilância no sul do Oriente Esquecido para reforçar as tropas velgas. A presença do Arauto de Hevelgar tinha sido fundamental para que Calto parasse com a destruição em Mastrik. Jules tentou tranquilizar o cavaleiro, dizendo que Hanna e seu filho tinham escapado, mas ele já estava partindo para o Fiorde quando chegaram as boas notícias de Flamme, dando conta do sucesso da missão de resgate.

Ainda que tivesse se tornado um arauto, Jon continuava sendo um sujeito emotivo, e respirou aliviado quando soube que seu único filho tinha voltado com vida. Aliviado e orgulhoso, quando tomou conhecimento das atitudes do pequeno Tudur II. Jon agora era um cavaleiro experiente, já na casa dos 40 anos, e tinha aprendido muitas coisas sobre as armas do deus da Honra. O escudo de Hevelgar, além de ser inquebrável, podia irradiar um campo vibratório capaz de protegê-lo dos ataques mais poderosos, como o bafo que o Dragão de Fogo tinha arremessado em sua direção. O elmo também impedia que Jon fosse vítima de feitiços de controle, e suas luvas funcionavam como um detector de histórias: bastava tocar em um objeto para que Tudur tivesse visões sobre ele.

Outro arauto também tinha chegado a Van Hal para proteger os humanos do ataque de Calto: era John Hagen, um Cavaleiro Escarlate. Os Escarlates eram considerados os guardiões da linha do tempo, e geralmente se mantinham neutros nos conflitos entre os povos, observando a tudo de forma imparcial em seu Templo na Ilha da Gerânia. Mas com os Dragões de Fogo a conversa era outra. O despertar das quatro feras cardeais era uma grande ameaça à História dos Homens, e portanto ao domínio do deus Milenor, a quem veneravam. Se eles falhassem, poderia ser o fim da humanidade e o início da Era dos Dragões.

Hagen, um vulkânico de Cibel, informou que todos os onze Escarlates tinham deixado o Templo para ajudar os diversos reinos. A pior situação era a da Ilha de Nibel, que tinha sido completamente arrasada pelo dragão chamado Gorgon. Os integrantes nibelos da dinastia da Rosa Negra, atualmente no poder, tinham sido mortos sem piedade, assim como seus inimigos da Rosa Branca, que disputavam o controle nas duas ilhas gêmeas ao norte da Gerânia. Gorgon também tinha eliminado o Cavaleiro Escarlate enviado para proteger Nibel, que todos agora só chamavam de Ilha da Morte.

– Gorgon… – Diz Vandu, entre dentes, quando soube da história:

– Odeio dragões.

O Rei Hagen também exultou de felicidade quando o Príncipe Kaster finalmente retornou ao castelo. O monarca fez questão de receber e agradecer pessoalmente aos guerreiros que tinham conseguido completar aquela difícil tarefa. Apesar das perdas de Kal Manche, chefe da sua guarda pessoal, e de mais três integrantes do grupo, o Rei considerava que a missão tinha sido extremamente bem-sucedida. O jovem herdeiro, por sua vez, estava especialmente agradecido a Madox Heineken, que infelizmente tinha perdido um braço na luta final contra os dracos no templo. Além de receber a graduação para a patente de Gargo, o que não era comum para aleijados, Kaster garantiria ao vulkânico uma posição como instrutor na Academia de Flâmages chefiada por Vandu.

Além do caçador, Halberic Lend, Kreuber Dikson, Ben Sif e Bia Jonson também receberiam prêmios. O chefe da Bruma tinha sido convidado para a próxima reunião como titular na Clave, o que significava a sua promoção para Gargo Gigantrix. O cavaleiro das Terras Altas foi alçado à patente de Gargo, tornando-se um oficial da Hokhe. A sacerdotisa de Virgo foi presenteada pelo Rei com um conjunto de runas místicas, que ajudarariam-na a lidar com a dolorosa perda de seu irmão Jim. E Sif tinha encontrado em seus aposentos um poderoso Medalhão de Magiar do primeiro ciclo, um dos originais. Somente Imperatrix possuía um igual.

O Rei também tinha recompensado a todos com terras, ouro e títulos da pequena nobreza de Van Hal, o que decepcionou Kreuber, que também esperava receber alguma arma mágica.

– Trabalho de alta periculosidade, e ainda quer pagar mal… – Murmurava o cavaleiro para Lend, enquanto estavam recebendo os louros no castelo dos Van Holand.

Não demorou muito para que os místicos decifrassem as intenções de quem tinha recuperado aquele manuscrito, de origem desconhecida: tratava-se de uma fórmula mágica para despertar Zama, a fêmea dos Dragões de Fogo, também mantida em hibernação milenar na Ilha de Vulkan, onde inclusive era objeto de culto e adoração pelos povos locais. Se isso acontecesse, seria possível esperar duas coisas: os quatro Cardeais guerreariam entre si pela fêmea, e quem saísse vitorioso fatalmente dominaria toda Asgaehart com sua ninhada, ao lado de Zama, que era ainda maior e mais poderosa do que os machos.

Isolada no meio do misterioso Mar de Hill, Vulkan era conhecida por esse nome devido ao imensao vulcão ativo localizado no centro da ilha. Praticamente esquecida pelos humanos durante milênios, a ilha só veio a se tornar habitada após as primeiras invasões bárbaras, no início do Segundo Século. A história era bem conhecida. Um dos povos invasores, formado por humanos da raça conhecida hoje como “vulkânicos”, tinha se estabelecido principalmente em terras do Reino Venegasco, na Ilha de Cibel, em Darklands e em Flamme, no Reino de Aquitan, que já eram habitadas por velgas e vilandos que tinham expulsado os nativos ileanos. A tribo vulkânica de Flamme, no entanto, teve que fugir de lá quando da retomada da cidadela pelas forças velgas, no fim daquele século. Seguindo um “chamado religioso”, navegaram até a longínqua Ilha de Vulkan, acompanhados de representantes das demais tribos da mesma raça, num evento histórico que ficou conhecido como o “Êxodo Vulkânico”, e que acabou dando o nome para a raça invasora.

No início do Século III, durante a segunda leva das invasões bárbaras, os vulkânicos de Cibel e Darklands já tinham sido bem assimilados aos reinos velgas locais, e voltaram-se contra os alamanos e os novos invasores de sua raça, ganhando definitivamente a confiança de seus aliados. Em Venez, porém, os vulkânicos já faziam parte da nobreza local, que tinha feito um acordo com os bárbaros, e continuaram a receber os povos das duas raças estrangeiras. Quanto aos que tinham migrado para a Ilha de Vulkan, nunca mais se tinha ouvido falar deles.

Quando Ben Sif informou ao mestres necromantes que tinha sentido a presença de Vitiferralis no Fiorde Ociental, poucos tiveram dúvidas de que ele seria o responsável pela libertação dos quatro dragões Cardeais, e agora teria o objetivo de libertar Zama. O retorno do velho mago também explicava o roubo da mortífera Cornucópia Rubi do Templo Elemental de Aussflag, há alguns anos, que tinha levado à forca alguns aprendizes e um mestre. Afinal, “Tio Vito”, como era chamado de forma pejorativa, conhecia aquele lugar com a palma de sua mão. Os pobres condenados certamente não teriam como impedi-lo de tomar posse da poderosa peça.

Tido como morto ou desaparecido logo após a devastação da população de Hogan, o mais provável é que Vitiferralis tivesse enlouquecido. Afinal, o velho mago tinha perdido toda a sua família: mulher, filhos, sobrinhos e netos, no ataque que o Pentagrama de Treva realizara com a mesma arma, a Aurora da Morte, em Darklands. O que tinha sido justamente uma retaliação ao atentado que ele realizou com Vandu e Iuri Petersen no maior reino bárbaro do Ocidente.

Para resumir, Vito era o responsável indireto pelo extermínio não apenas de sua família, mas de todos os habitantes da cidadela de Darklands em 513 cl. Tudo isso agindo contra a vontade de seu mestre Imperatrix, que alertara a todos sobre as consequências imprevisíveis de se usar aquela arma de destruição em massa. Mas Vitiferralis sempre foi conhecido como um psicótico obsessivo, e tinha se articulado ao Duque Owen den Darklands, avô de Hanna, para planejar o atentado. Considerando a personalidade do mestre e toda a tragédia que tinha se seguido, seus antigos discípulos não tinham mais dúvidas de que agora ele queria ver a porra toda pegar fogo.

Ninguém ali sabia ainda, mas aquela seria a primeira das muitas vezes em que Vitiferralis voltaria da “morte”.

– Vito é um cara ruim e doente. – Decretou Vandu, quando soube das novidades.

O gigante tigunar estava triste com a perda de seu filho Adjaian, mas ao mesmo tempo muito motivado. Além de Ben Sif, que era um antigo discípulo do mestre elemental, Vandu era a única pessoa já tinha participado de uma missão ao seu lado. Na reunião da Clave, que contava com as presenças especiais de Tudur e Hagen, o então Gargo Gigantrix e chefe da Academia de Flâmages, já com 55 anos, fez questão de se candidatar para a missão em Vulkan. O Cavaleiro Escarlate também se mostrava confiante para a missão, o que despertava uma certa desconfiança dos oficiais:

– Vou arrancar um dente desse Vito… Não vai ter magia que conserte! Hahahaha! – Exclamou o Arauto de Milenor, que podia arremessar sua espada escarlate com precisão absoluta.

– Esta é uma missão para arautos, de fato. – Define Sin Kali, General da Hokhe.

– Eu também vou com vocês. – Afirma Tudur, já pedindo proteção a Hevelgar. Ele conhecia bem Vitiferralis, e sabia que arrancar um dente do mago seria tarefa quase impossível.

Kadwan den Darklands faz questão de lembrar um detalhe muito perigoso:

– Vitiferralis pode estar com a Cornucópia Rubi. – Afirma o general da Cavaleria Negra, provocando um burburinho entre os participantes.

Todos ali sabiam que o objeto era capaz de explodir qualquer coisa viva, se as notas corretas fossem produzidas naquele berrante do mal. Mas Vandu já tinha uma resposta para isso:

– Vou convocar Vandam. Ele tem uma Cornucópia Safira, que poderá nos proteger.

Vandam Nohis era um velho amigo do gigante tigunar, mas não era bem visto pela maioria dos oficiais. Em primeiro lugar, era vrúngio, talvez o único da raça que habitava a Terra Vélgica. Vivia como um monge eremita numa cabana nos Piktos, e só aparecia nas cidadelas para frequentar bordéis e encher a cara de rum em tabernas. Sim, Vandam era um putanheiro bêbado. Mas como possuía uma Cornucópia Safira, e manejava com destreza o arco e uma lança, poucos se metiam com ele. Seu aspecto detonado assustava as pessoas: magro e carcomido, cabeça raspada, olhos vermelhos típicos da raça vrúngia e uma cicatriz de garrafada cruzando a bochecha. Tinha chegado a Flamme logo após a expulsão dos alamanos, por meio do falecido tigunar Jim Jonson, com quem compartilhava a devoção por Hoguz, deus das Profundezas. Vandam chegou a se alistar na cavalaria por influência dos amigos, mas por motivos óbvios tinha dado baixa ainda como Aprendiz, sem nem mesmo chegar a ser consagrado cavaleiro. Quando soube por Vandu que a missão poderia vingar seu amigo Jim, o monge bêbado nem pensou duas vezes para aceitar o convite.

Naquele tempo, só existiam seis patentes na Cavalaria, por ordem crescente: Aprendizes e Flâmages (cadetes da Academia), antes da consagração como cavaleiro; Maveriks, para os graduados; Gargo, para os oficiais, Gargo-Gigantrix, para aqueles que podiam participar das reuniões na Clave, e os dois Generais, um da Dokhe e outro da Hokhe. A cadeira de Megatrix estava vaga há séculos.

Para completar o grupo que seria enviado a Vulkan, o recém promovido Gargo Gigantrix Halberic Lend, chefe da Bruma, sugeriu a inclusão de alguns guerreiros que tinham retornado com ele da missão bem sucedida no Fiorde Ocidental: Kreuber Dikson, campeão das Terras Altas, Bia Jonson, sacerdotisa de Virgo, e Ben Sif, mago necromante, antigo discípulo de Vitiferralis, portador da energia infernal. Quando Lend comunicou aos três a convocação, somente Kreuber reagiu de forma inesperada:

– Não vou de bucha nessa porra não, hein?

O cavaleiro das Terras Altas acabou sendo convencido quando o próprio Rei determinou que ele fosse preparado pelos sacerdotes de Hiniar em um Ritual da Meia-Noite, que iria garantir a Kreuber uma proteção mística através de uma corrente de metal cravejada de cristais, que ele só precisaria arrebentar para ser agraciado com algum milagre, quando mais precisasse.

Já Madox Heineken ficou chateado por não ter sido chamado para a missão, mas sabia que seria improvável que enviassem um aleijado. Companheiro de Vandam em noites intermináveis de brigas e bebedeiras nas tabernas do velgas, o caçador logo esqueceria a mágoa, tornando-se um dos principais conselheiros de Kaster, o futuro rei.

Naquele mesmo dia, antes do pôr-do-sol, um time de peso pesados já estava formado para evitar que Vitiferralis despertasse a fêmea dos dragões. Tio Vito tinha uma boa vantagem de tempo, mas eles tinham dois arautos, dois magos, dois sacerdotes e dois guerreiros dispostos a tudo para acabar com aquela palhaçada.

[Continua: 56. A Ilha de Vulkan]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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