61. Atravessando a Cratera

61. Atravessando a Cratera
Escorpião gigante da Ilha de Vulkan.

[Antes: 60. Luta no Charco]

Após uma dura batalha nas plantações alagadas, Vandu, Vandam, Kreuber, Bia, Lend e Tudur ficam em silêncio por alguns segundos, pensando nos dois companheiros mortos. Tinham perdido um arauto e um necromante. Após um minuto que parecia durar horas, o gigante tigunar fica louco:

– Eu vou matar tudo! Vou vingar essas mortes!

– Vamos. – Concorda o cavaleiro das Terras Altas.

– Jon Hagen e Ben Sif… – Proclama o Arauto de Hevelgar, com os olhos mareados, olhando para os cadáveres no chão: – A morte de vocês não será em vão.

Kreuber pega a armadura e as armas do Arauto de Milenor. Mais do que falar bonito, o cavaleiro da Hokhe já estava revistando os corpos e catando anéis, utensílios e tudo que pudesse ter alguma serventia ou valor.

– Vagabundo nato. – Diz Vandu, já rindo daquela rataria.

– Depois eu devolvo pra alguém, se quiserem.

– A tradição manda que as armas sejam levadas ao Templo Escarlate na Gerânia. E quem levar costuma ficar no lugar de quem morreu. Se não forem devolvidas, os demais cavaleiros vão caçar o usurpador.  – Informa Bia.

– Quero que se foda se nos acharem. Estamos precisando agora. Depois faço ritual, fico de castigo, o que for preciso. O negócio é o hoje. – Afirma Kreuber, com um grande curativo no ombrom, mas sentindo a disposição renovada ao vestir as armas sagradas de Milenor.

– Será que eles encontram rápido? Se algum deles aparecer aqui, pedimos ajuda. – Diz Tudur.

– Pelo que Hagen disse, os escarlates estão bem ocupados. – Devolve Bia.

– Duas mortes é foda! É muito! – Continua lamentando Vandu.

– Mas temos que sair rápido. Logo darão falta desse esquadrão alado. – Preocupa-se a sacerdotisa de Virgo.

– Sim, vamos meter o pé daqui. Porradaria monstra. – Concorda Vandu.

Além de Ben Sif e Jon Hagen, oito nativos estavam mortos no local, e uma harpia. Uma verdadeira carnificina. Entre as coisas de Sif, Kreuber pega a caixinha de chumbo com a Aurora da Morte. Sem o necromante, ninguém ali teria condições de acionar o temporizador. Ou seja, mais uma vez teriam de se arriscar ao suicídio, ou pelo menos a perder algum membro do corpo, se quisessem usá-la.

– Na melhor das hipóteses, essa porra arranca braço… É foda. – Diz Kreuber, olhando a caixinha.

– Vamos deixar essa porra lá no ninho de Zama com um aviso: “Duvido abrir”. – Diz Jon Tudur, fazendo piada com a situação.

– Agora quero ver quem vai levar essa caixinha… – Provoca Bia.

– Tu mermo. – Responde Vandu, já recebendo o sinal negativo da sacerdotisa.

– Quem achou leva. – Decide Vandu, olhando para Kreuber.

– Só mantém essa porra fechada. – Diz Bia.

Com o sol de meio dia, o calor já começava a fazer estrago real. A insolação alterava os sentidos e minava as energias do grupo, que ainda estava usando as pesadas roupas do clima temperado da Terra Velgica. Se o bafo de vapor por ali já era mais do que ruim, mal podiam imaginar o inferno quando alcançassem a cratera do vulcão.

Vandam já tinha se livrado da maioria de suas vestes, e agora estava usando apenas uma tanga, além das armas e alforjes. O ferimento na perna ainda estava dolorido, mas ele podia continuar. Após algum tempo desmaiado, Halberic Lend começava a retomar a consciência. Apesar do nocaute sofrido, ainda estava inteiro para seguir. Mas o chefe da Bruma fica assustado ao se dar conta da situação:

– Dois mortos e dois avariados. Estamos na merda.

– Quer voltar pra casa? – Provoca Vandam.

– Não. Pelo menos vejo que ganhamos quatro montarias. – Diz Lend, olhando para as harpias.

– Vamos usar essas harpias para voar direto ao nosso destino. – Sugere Bia.

– Jura? Tava pensando em arrumar uns camelos. – Responde Kreuber, irônico.

– É pra rir? Você e Vandam podem se foder juntinhos. Que tal? – Rebate Bia, já avaliando os animais: – Acho que, com exceção de Vandu e eu, que somos maiores, cada um desses bichos consegue levar dois do grupo.

– Isso. Vamos logo. No fim dessa trilha tem o Tio Vito nos esperando. Coisa leve. – Diz Vandam, irônico, continuando: – Pode fazer contato com os animais pra saber qual o caminho até o centro do vulcão?

– Sim, precisamos descobrir como fazer esse trajeto com o menor risco possível.

– Concordo. De preferência em velocidade e voando bem alto. E descer num rasante direto para o olho do vulcão. – Diz Vandam.

– Vamos fazer isso. – Concorda Kreuber.

Bia então encosta a mão numa das harpias e começa a emitir sons para estabelecer contato. Através de seus dons telepáticos, ela visualiza o melhor caminho dali até o topo do vulcão, mas também entende que as harpias não conseguem ganhar muita altitude. Ela monta um dos animais, e Vandu faz o mesmo. Vandam e Kreuber, mas habilidosos, assumem a condução dos outros dois bichos. Tudur segue com o monge, e Lend vai na garupa do cavaleiro da Hokhe, que pede ao colega:

– Segura esse pacote aí, pra eu pilotar direito. – Diz Kreuber, entregando a caixinha com a Aurora da Morte para o chefe da Bruma.

O início do voo é conturbado, mas logo Bia forma um elo mental com os companheiros para informar os principais comandos de movimento. Para chegar à cratera sem despertar a atenção de mais guardas vulkânicos, as harpias voam contornando os arrozais ao sul, de forma a evitar a cidadela leste, sobrevoando as encostas de uma área rural. Como os animais não conseguem voar muito alto, acabam sendo avistadas por arqueiros que estavam vigiando uma torre de fazenda.

Bia consegue evitar o ataque com facilidade, mas Vandu não tem a mesma agilidade e quase despenca com a manobra. Pendurado na cela, o tigunar se esforça para não cair de uma altura de mais de 50 metros. Kreuber e Vandam também se saem bem, mas o gigante tigunar acaba sendo alvejado no ombro por uma flecha. Contorcendo-se de dor, Vandu usa toda sua força para não largar o cabresto, e finalmente consegue seguir adiante.

No início da tarde, o grupo alcança o alto da encosta e consegue ter uma visão da imensa cratera que toma o centro da Ilha de Vulkan. Tinha pelo menos uma milha de raio, descendo suavemente até uma depressão central. Um lugar absolutamente desolado, com pedras de tamanho médio espalhadas em um terreno árido tomado por areia, várias poças de lava, muita fuligem e vapor por todo o lado. O céu completamente encoberto por nuvens densas. Não havia o menor sinal de vegetação, nem de qualquer outra coisa viva por ali.

As harpias pousam no alto da encosta, se recusando terminantemente a prosseguir, o que era um péssimo sinal. Bia logo entende que até mesmo elas, adaptadas ao clima da região, não conseguiriam resistir ao calor e a baixíssima pressão no local. Enquanto planejam o que fazer, a sacerdotisa cuida do ferimento no ombro do gigante tigunar. Era mais um que seguiria adiante com capacidades reduzidas.

– Como vamos avançar agora? – Questiona Vandam.

– Vamos a pé mesmo. – Sugere Kreuber.

Com exceção dos arautos, cujas armaduras sagradas pareciam proteger do calor, não havia a menor condição de prosseguir naquelas condições. Vandam retira inclusive a tanga, ficando absolutamente nu e armado. O resto do grupo também se livra das placas de Vantium, mantos e roupas pesadas, mantendo apenas o essencial.

Vandu toma a frente do grupo, caminhando rumo ao centro da ilha. Kreuber segue logo atrás, junto com os demais. Cerca de uma hora depois, contra todas as probabilidades, Bia percebe que há criaturas vivas ali. Sete escorpiões gigantescos, muito cascudos, do tamanho de um cão de grande porte. Os horríveis aracnídeos parecem animados com a farta oferta de comida, e já caminhavam balançando os aguilhões ameaçadores.

– Vamos afastá-los com fogo! Escorpião não gosta de fogo! – Exclama Kreuber.

– Porraaaaa! Puta que o pariu! – Grita Vandam, recusando a proposta do cavaleiro Hokhe: – Essas merdas moram num vulcão! Você acha realmente que eles têm medo do fogo?!

– Sei lá… Pra mim escorpião é tudo igual. Então é porrada! – Responde Kreuber.

– Bia, troca uma ideia aí com eles… – Pede Vandam, dessa vez sem fazer nenhuma gracinha.

– Algo me diz que não tem ideia. – Diz Kreuber.

– Com certeza não tem ideia. – Conforma-se o vrúngio.

– Hagalaz quer mais baixas… – Lamenta o cavaleiro de Terras Altas.

– Então é porrada mirando o ferrão. Se quebrar aquela agulha acabamos com eles. Temos que partir pra porrada. – Diz Vandam.

Bia sabia que não havia a menor condição nem tempo de tentar um contato com aqueles insetos gigantes, mas já tinha ouvido falar daquelas criaturas nos cultos da deusa irmã Australi. Ameaçadores e adaptados ao local, os animais se aproximam, mostrando uma agilidade e velocidade impressionantes.

– Se formos picados, o veneno é paralisante! – Avisa Bia, horrorizada.

– Caralho! – Grita Vandam, brandindo sua lança.

– Já aviso que assim não vai dar. Temos que usar magia ou pensar em algo criativo. – Preocupa-se Vandu.

– Abre essa caixinha então! Vamos matar e morrer geral! – Diz Vandam!

– Vamos lutar de costas um para o outro! – Sugere Kreuber.

– Sim, mas não há muito mais a fazer. – Diz Tudur, já com o escudo e a espada de Hevelgar nas mãos.

– Olha só… Vai morrer geral. Mas vambora! – Exclama Vandam, já se posicionando para encarar dois escorpiões.

Kreuber tira uma dose de poeira cristal do alforje e aspira numa tacada só. O cavaleiro sabia que não podia abusar, mas agora era uma questão de vida ou morte. Aquela cafungada pelo menos iria reduzir a perda de movimentação causada pelo ferimento no ombro.

Vandu, Tudur e Kreuber conseguem lutar evitando os aguilhadas, mas Vandam, enfrentando dois ao mesmo tempo, tem de usar todo o seu repertório para não ser picado. Bia e Lend, pouco acostumados ao combate direto, acabam recebendo ferroadas. A sacerdotisa sente o corpo enrijecer, mas consegue resistir ao veneno, pois era uma tigunar grande e forte. O chefe da Bruma, no entanto, tem seus movimentos muito limitados. Se já não era bom lutador em condições normais, envenado tornou-se uma presa fácil. Desesperado, Lend tentou usar uma bruma de brilho, mas antes de conseguir ativar a substância, tomou uma aguilhada profunda no crânio, caindo no chão em convulsões.

“Desse jeito vamos perder pelo menos dois aqui”. – Pensou Kreuber, absolutamente preocupado com o desenrolar daquele confronto, mas sem dizer nada.

Na verdade, se perdesse tempo com elucubrações, morreriam todos ali.

[Continua: 62. O Despertar de Zama]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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