63. Em Busca do Tiwaz

63. Em Busca do Tiwaz
Gunter Kron, agunar, discípulo dos magos elementais de Van Hal.

[Antes: 62. O Despertar de Zama]

529 cl.

Na virada do ano de 528 para 529, Ciclo Lunar, a expedição velga liderada por Vandu a Vulkan tinha sido bem sucedida. Apesar de Vitiferralis ter conseguido despertar Zama, a fêmea dos dragões de fogo, o monge conhecido como Vandam tinha conseguido destruir a temida criatura com a Aurora Infernal, antes de morrer incinerado por um bafo de fogo. Na missão, o líder Vandu também teve sua cabeça explodida por Tio Vito. Bia Jonson, a sacerdotisa de Virgo, e Halberic Lend, o chefe da Bruma, morreram lutando contra escorpiões de fogo. Ben Sif, mago necromante, e Jon Hagen, Cavaleiro Escarlate que acompanhou o grupo, morreram em batalha contra integrantes da guarda alada de Vulkan. Somente Jon Tudur, o Arauto de Hevelgar, e Kreuber Dikson, o cavaleiro da Hokhe que tomou para si as armas escarlates, voltaram com vida, sendo aclamados como heróis pelo povo de Van Hal. Desde então, Kreuber tinha dado baixa na cavalaria, iniciando seu treinamento na Ilha da Gerânia para se tornar um Escarlate, e Tudur tinha retornado para sua vida como um eremita, defensor dos povos do Oriente, cada vez mais ameaçados por Calto e os dracos.

O cavaleiro das Terras Altas tinha ficado um pouco decepcionado quando soube que os Escarlates não podiam possuir bens, mas mesmo assim aceitou o desafio. Tinha aprendido a manejar a espada certeira, e passava os dias melhorando a habilidade de montaria com o Raven. Sempre que podia, encontrava Tudur em missões pelo continente, quando relembravam os dias difíceis que passaram juntos na Ilha de Vulkan. Nos bordéis e nas tabernas, fazia questão de beber em honra a Vandam Nohis, que tinha insistido em levar a caixinha da Aurora da Morte no fim da missão:

“Eu e Tudur olhamos um para o outro, e deixamos o bucha se fuder pra gente!”

“Arma o Escudo de Hevelgar, Tudur! Vai molecão! Explode, garoto!”

O líder daquele grupo também era sempre lembrado pelo novo Cavaleiro Escarlate:

“Só fiquei com pena de Vandu…  O negão perdeu a cabeça.”

Nesses momentos, o Arauto de Hevelgar apenas ria das histórias contadas por Kreuber Dikson, que gostava de registrar:

“Aprendam! Só os vivos contam e escrevem as histórias!”

Mas havia um único porém, que ele só confidenciava a Tudur:

– Só fiquei bolado porque não pegamos Vito.

Enquanto isso, em Van Hal, Niuton McFerris ainda não tinha revelado a ninguém que encontrara o mapa do Tiwaz. Depois que se curaram das fraturas, ele e seu colega Angelus Gigan passaram um bom tempo se dedicando exclusivamente em emprenhar o maior número possível de moças que podiam conquistar, a maioria profissionais de bordéis velgas. Montados na fama alcançada após a fuga bem sucedida da Ilha de Fedo, e ostentando a patente de Maveriks da cavalaria sagrada, Niuton e Angelus tiveram caminho livre para seduzir um grande número de mulheres disponíveis nas ruas e povoados da Terra Vélgica.

Com a morte precoce de Adjaian, somente Angelus poderia passar a alcunha Gigan para seus descendentes, o que ele fez com grande devoção, tendo filhos com mulheres das raças humanas conhecidas pelo tamanho avantajado: preferencialmente tigunares e vilandas. Já Niuton, que tinha sangue da nobreza das Terras Altas, despejou uma grande quantidade de bastardos por todo o lugar, sem preferência de raça e nem assumir a prole.

– Meu negócio é viralatismo. Nada de nome e sobrenome. – Repetia Niuton, para horror da família.

Quando confrontado com o nascimento das crianças, o jovem McFerris tinha uma resposta cafajeste na ponta da língua:

– Parecem muito com meus primos. Têm o mesmo olhar.

Antes de sair para a missão em que morreu, Vandu também tinha graduado Jules Flanagan, Jon Tudur II e Hanna den Darklands como cavaleiros, assim que os jovens retornaram a Van Hal. Mas a filha do Duque estava com seus dias de guerra contados. Assim que foi resgatada, o General Kadwan ordenou que ela desse baixa da cavalaria. Não queria mais ver a herdeira do ducado trocando porrada, numa época em que os Dragões de Fogo estavam à solta. Sua melhor amiga, Felice Luna, que tinha participado da missão de resgate, pelo menos até a metade, também estava inclinada a deixar a vida militar. O perrengue era muito para ela. Para decepção de Luna e de seus muitos pretendentes, como Jules Flanagan, Jon Tudur II e o falecido Adjaian, seu pai tinha arranjado o casamento de Hanna com o Príncipe de Terras Altas, primo de Niuton McFerris.

A reviravolta com a situação de Hanna tinha dado um fim, pelo menos temporário, à rivalidade enter Corvos e Falcões. Jules Flanagan tinha se tornado o jovem herói mais conhecido da Terra Vélgica, sendo cada vez mais requisitado para missões da Clave. Temendo pela decisão de Felice Luna, que também parecia decidida a abandonar a cavalaria, Niuton mostra a ela o mapa do Tiwaz, convidando a vilanda para participar de uma expedição que empreenderia apenas com seus companheiros da Academia. Desde a fuga de Fedo, Luna tinha ficado impressionada com o jovem cavaleiro, e ignorava o seu lado boêmio e vira-lata. Passando cada vez mais tempo juntos para montar um plano e convencer o resto da gangue, os dois acabaram desenvolvendo uma relação amorosa, o que muito agradou ao Duque de Canavera, pai de Niuton, pois finalmente ele poderia passar seu nome adiante.

Durante alguns meses, o jovem McFerris tentou sondar os cavaleiros mais experientes sobre o Tiwaz. Quase ninguém conhecia a história, mas os guerreiros mais velhos, assim como os magos e sacerdotes consultados, estavam certos de que tudo não passava de folclore. Afinal, todos tinham certeza de que os quatro Dragões de Fogo tinham sido derrotados e congelados, ainda em tempos imemoriais, muito antes do surgimento do velho Império Rubro, pelos poderosos Dragões Dourados, sem a participação de humanos. O Tiwaz, que significava “Caçador de Dragões”, era definitivamente uma lenda, uma mentira inventada para aumentar a moral dos humanos numa época muito difícil, quando os dragões davam as cartas.

Pois a Era dos Dragões agora estava de volta. Não definitivamente, graças à eliminação de Zama, o que poderia representar a extinção dos humanos. Mas o despertar de Gorgon, Inferon, Malboro e Calto, tornava tudo estava diferente. Ao Norte, Gorgon tinha tomado a Ilha de Nibel, que passou a ser conhecida como Ilha da Morte, e aterrorizava constantemente as Ilhas de Cibel e Citroya, assim como Horion, Hogan, Gaules, Geran, todo o litoral simério entre Treva e Darva, Havilan e Monserrat. Alguns dos reinos fizeram acordos com o dragão, oferecendo-lhe sacrifícios e tesouros. Em Cibel, o clã Montenegri tinha assumido o poder pela primeira vez como a dinastia da Rosa Branca, aceitando reverenciar o dragão. Os Cartago tinham sido banidos da ilha.

Ao Sul, Inferon continuava o seu festival de sangue, sem aceitar fazer qualquer acordo com gigantes ou humanos. O maior dos dragões espalhava a morte e o terror por toda a Terra de GIgantes e o sul do Oriente Esquecido.

Segundo as informações que chegavam do Ocidente, Malboro tinha se tornado quase um deus nos reinos Vrúngios, sendo adorado por sacerdotes e plebeus, enquanto consumia uma quantidade cada vez maior de carne humana sacrificada, sempre jovens.

Na Terra Vélgica, os reinos continuavam relutando em fazer acordos com Calto, que já tinha atacado Van Hal, Darklands e Terras Altas em momentos distintos. Na Costa Leste, Runa e Hassan também tinham sido arrasadas pelo dragão, que foi responsável pela quase eliminação dos povoados e vilarejos isolados do Oriente Esquecido. Restava apenas a grande cidadela fortificada de Dankel. O resto não passava de sombra do que já tinha sido. Justamente por isso, os Reis da Tetrarquia tinham resolvido enviar mais uma expedição de pesos pesados para caçar Calto. Entre eles, o jovem Jules Flanagan, recém consagrado cavaleiro. Quando soube que o líder dos Falcões não poderia ir com ele na busca pelo Tiwaz, Niuton McFerris não perdeu a oportunidade de provocar:

– Arrumou uma desculpinha pra sair fora, hein Jules?

– Sim, bem mais tranquilo ir atrás de um Dragão de Fogo. – Respondeu Jules, devolvendo a ironia.

“Mal sabe ele que é a bucha da vez”. – Pensava Niuton, lembrando as histórias que circulavam sobre Adjaian.

No fundo, Jules estava com o coração partido por causa do casamento arranjado para Hanna, justamente com o primo de seu colega das Terras Altas. Participar da caçada a Calto parecia uma boa maneira de esquecer tudo.

Decidido a encontrar o Tiwaz, Niuton reuniu seus antigos colegas Falcões para a missão: Jon Tudur II e Angelus Gigan, que também já tinham sido consagrados como cavaleiros, e Kathra, que ainda era Flâmage. O filho de Iuri Petersen ainda estava revoltado com a morte de Vandu, a quem considerava como um pai:

– Agora não sobrou ninguém. – Disse Kathra para Angelus, seu irmão de criação.

Felice Luna tinha recrutado Viktor Van Vossen, mais conhecido como Fuscão, e Gunter Kron, dois jovens magos que tinham entrado para o Colegiado de Imperatrix, sendo que o primeiro estudava as artes necromantes, e o segundo as artes elementais. 

Antes da missão, Kathra tinha encomendado dois pares de manoplas, com pregos nas falanges dos dedos, a um ferreiro de Van Hal. O vulkânico vendeu uma delas para Niuton, que tinha gostado da ideia. Quando viu a novidade, Fuscão também mostrou sua nova arma, uma lança de Vantiun ricamente trabalhada, com uma letra H estilizada no cabo:

– Fabricada por Johan Husef, o armeiro preferido de Darklands! Dizem que é excelente!

Para justificar a ausência no período, Niuton tinha arranjado uma missão de reconhecimento nos arredores da aldeia de San Hoviland. Era o povoado mais perto do sudeste da Chapada de Hill, onde o mapa do Tiwaz indicava o ponto inicial para a busca. Quando já estavam preparando os cavalos, no entanto, o grupo recebeu uma visita inesperada. O vulkânico Luke Logan, um cavaleiro da Bruma, apareceu no estábulo dizendo que alguém tinha mandado que ele acompanhasse aquele grupo de jovens. Sem poder dizer quem era a pessoa, Luke apenas explicou que não tinha escolha.

“Imperatrix” – Pensou Niuton.

Tudur II preferiu ser mais explícito:

– Por acaso esse alguém seria, sei lá… Imperatrix?

– Quem sabe? – Respondeu Luke, desconversando.

– Acho que nem Hagalaz sabe. – Completa Jon.

Na verdade, no dia anterior Luke tinha sonhado mesmo com o mago supremo, que lhe passara o comando. Quando contou sobre o ocorrido para seu novo chefe, recentemente promovido para o lugar do falecido Halberic Lend, obteve a liberação imediata para seguir com os jovens.

Um pouco contrariado, Niuton acaba aceitando. Afinal, aquele alguém era muito poderoso.

“Imperatrix gosta de estragar surpresas. Não dá nem pra sair na encolha”. – Pensou o jovem das Terras Altas, no fundo satisfeito com aquela proteção especial.

Se Imperatrix estava olhando por eles, certamente estavam no caminho certo.

[Continua: 64. As Praias de Echo]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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