64. As Praias de Echo

64. As Praias de Echo
Glonigs, símios que habitam os Piktos.

[Antes: 63. Em Busca do Tiwaz]

De manhã bem cedo, antes que o sol apagasse as três luas do céu da Terra Vélgica, o grupo parte bem cedo de Vah Hal para Darklands, seguindo a estrada larga que cruzava os Bosques Agradáveis e contornava as Terras Altas. No meio da manhã, já estavam na Terra das Sombras, onde tiveram de decidir como chegar às praias de Echo, seguindo as pistas do mapa do Tiwaz.

Jon Tudur II e Niuton preferiam contornar os Piktos a sudoeste, seguindo depois pela margem da Chapada de Hill. A outra opção era um caminho mais curto, pegando a serra para Bruxel até as nascentes do Rio Gladerhud, por onde desceriam pela trilha até San Hoviland. Luke Logan aprovou a decisão dos jovens, comentando:

– Gladerhud é o lar dos gargos.

Apesar de ser um animal venerado pelos velgas, ninguém gostava de encontrar um daqueles felinos gigantes pelo caminho. Não eram poucas as histórias de viajantes desavisados que viravam comida do principal predador da floresta.

Após algumas horas de cavalgada por um terreno irregular, o grupo chega ao topo da Chapada de Hill. Para seguir de lá até as Praias de Echo, ao nível do mar, era preciso descer por trilhas muito íngremes. Quase no fim do caminho, foram atacados por um bando de seis Glonigs, símios carnívoros de pelagem negra e garras afiadas, muito fortes, mas com pouco mais de um metro de altura. As criaturas tentavam intimidar com base no apavoramento, urrando alto, correndo, saltando e avançando para cima das presas, com expressão assassina. Uma luta ali seria inevitável.

Os cavalos começam a relinchar e empinar, mas Niuton usa o arco para matar um dos gorilas. Luke se adianta e arremessa algumas brumas de sono, o que faz todos os animais dormirem.

– Já temos almoço! – Comemora Niuton McFerris.

Enquanto faziam uma pequena parada para preparar fogueiras e assar alguns dos bichos, os jovens se divertiam contando as histórias na Ilha de Fedo. Kathra também relembrava a criação rude que tinha recebido de Vandu, e que somente ele poderia dar continuidade à família iniciada por seu pai, Iuri, que tinha renegado o clã Petersen:

– Se eu morrer nessa missão, será o fim dessa linhagem de malucos.

– Sobrou você e a molecada que ainda vai trazer pro mundo. – Diz Logan, já se enturmando com os jovens cavaleiros.

– Se eu não morrer nessa, pode ser. – Responde Kathra.

– Fica tranquilo. Antes de morrer, Vandu me disse que caprichou no seu treinamento. – Informa o cavaleiro da Bruma, enquanto separava o couro de alguns glonigs para levar pra casa: – Quem quiser tirar onda e fazer uns casacos pra mulherada, a hora é essa!

Após o almoço, o grupo desce a cavalo pela trilha, chegando no meio da tarde a uma vila de pescadores abandonada, à beira do Mar de Hill. Muitos casebres tinham sido queimados, o que indicava que Calto ou Inferon passaram por ali. Mais adiante, alcançaram as Praias de Echo. Numa das casas do povoado à beira mar, parecia que ainda havia algum vestígio de viva alma, pois a fumaça sobia pela chaminé. No mapa de Niuton, a única indicação da entrada para as galerias secretas que guardariam o Tiwaz era o desenho de uma serpente em formato de um número oito, deitado. Uma pedra, uma corda e uma flor eram outros sinais que marcavam a localização da arma lendária, cujo símbolo era uma letra T maiúscula, estilizada.

Kron, Kathra, Jon, Niuton e Luke se adiantam para investigar o casebre, enquanto Angelus, Viktor e Luna caminha pela praia, averiguando os danos. No local, escondia-se um adolescente de raça Ileana, com menos de 14 anos de idade. O moleque preparava sua comida, um prato modesto de tubérculos, num caldeirão posicionado numa lareira. Vendo o grupo de guerreiros, o jovem se assusta e pula uma pequena janela para fugir dali, de forma ágil.

– Danado! – Exclama Jon, enquanto avalia as condições do lugar paupérrimo.

– Ei, moleque! Se acalma! Vamos conversar! – Grita Luke.

Kathra sai do casebre e corre atrás do adolescente ileano, e Luke começa a revistar o interior do casebre, só encontrando objetos que comprovavam a extrema miséria do local. Pouca mobília, rústica, em péssimas condições. Alguns vasos de barro, e lenha. Ele também tenta achar algum fundo falso ou alçapão no chão, nada.

– Deixa esse moleque fugir, cara. Em breve nos esbarraremos com ele. – Diz Jon, sem que Kathra pudesse ouvi-lo.

– Pega ele! – Grita Niuton, atiçando.

Após algum tempo de perseguição, o moleque some pelo mato, e Kathra desiste:

– Cansou, fera? – Ironiza Jon, quando o jovem vulkânico retorna ao casebre.

Niuton e Luke começam a rir, e Kathra desabafa:

– Só ia dar pra ele um prato de comida, porra…

– Vamos embora. – Diz Luke.

– O negócio era achar esse moleque. – Insiste Kathra.

– Deixa um pouco de carne de macaco aí pra ele. – Sugere Luke.

Kron tenta usar seus ainda parcos conhecimentos elementais para sentir a presença do adolescente, e descobre que o moleque ainda estava por ali, na mata, à espreita.

– Vou atrás dele. – Diz Luke.

– Mas não sei onde ele está exatamente. Só sinto que está perto, nos observando. – Ressalta Kron.

– Não vamos lhe fazer mal! – Grita Luke, caminhando ao redor.

– Ele não deve entender nossa língua. – Diz Felice Luna.

– We won’t hurt you! – Tenta Luke, usando a língua dos bárbaros, a única que sabia algumas frases, além do velga.

– Não vai adiantar. Deve falar algum dialeto nativo dos ileanos. – Explica a jovem vilanda.

– Se quiser jantar conosco, precisa aparecer! – Insiste Luke.

– Tem alguma árvora alta aqui perto? – Pergunta Niuton olhando ao redor, mas só avistando arbustos que não se destacavam do matagal que cercava a vila. Ninguém entendeu o que ele queria com aquilo.

– Não sei mais o que fazer. Vamos embora? – Sugere Luke.

– Ei, moleque! Quero te levar pra uma aventura! Sou rico! Posso te dar muitas moedas! – Grita Niuton.

– Alguém grita aí: “Olha o Calto!” – Kathra faz piada: – Duvido que ele não aparece voado…

Gunter Kron era o único do grupo que falava um pouco do dialeto nativo dos ileanos do Oriente Esquecido, mas não estava convencido de que gritar era a melhor opção. Niuton então bola um plano:

– Galera, vou me esconder na mata. Saiam todos, fingindo que vão embora. Vou pegar esse moleque quando ele achar que estiver tranquilo pra voltar. Me esperem na praia.

– Boa ideia. – Diz Jon, já se afastando na trilha que levava do vilarejo para a praia. Um lugar bucólico, se não estivesse arrasado.

Quando o resto do grupo chega à praia, avista os barcos revirados e destroçados no canto esquerdo de uma praia belíssima, com águas verdes transparentes e calmas. Não há sinal de vida humana por ali, além da vegetação exuberante, pássaros e pequenos animais silvestres. O mais incrível do lugar, certamente, era o eco produzido pelas paredes de pedra que cercavam a baía, e davam nome à praia.

Conforme a previsão de Niuton, após cerca de uma hora, o jovem ileano volta pro casebre, desconfiado. O jovem cavaleiro sai do esconderijo com cuidado, e surpreende o moleque, agarrando-o pelo braço. Fazendo sinais para mostrar que não faria mal a ele, Niuton o arrasta para fora sem fazer muita força, pois o nativo se debatia e gritava, mas estava fraco e debilitado. Na praia, Kron consegue se fazer entender, e o menino se acalma.

Após se alimentar com a carne de macaco que trouxeram, o moleque diz a Kron que somente ele sobreviveu no povoado. O dragão tinha queimado tudo. Comeu pessoas, vacas, cavalos, tudo o que era vivo. Em poucos minutos. Desde então, ele estava sobrevivendo com restos e da coleta de frutas e raízes do local. Niuton pede a Kron para dizer ao garoto que ele pode voltar com o grupo para Van Hal, pois se ficasse logo seria atacado novamente. O nobre providenciaria ao jovem uma vida digna no reino.

Assim que conquistam a confiança do nativo, Niuton mostra o símbolo no mapa do Tiwaz. O jovem ileano olha a figura por alguns segundos, e diz a Kron que ele e alguns amigos já tinham visto aquilo. Havia uma inscrição a umas cinco milhas dali, seguindo pelas pedras do litoral norte da praia. Mas só aparecia durante poucos minutos, na maré mais baixa da semana, quando as luas se alinhavam no céu, pois estava gravada numa pedra que ficava embaixo d’água. Ele também achava que, mais embaixo da inscrição, havia uma caverna. Mas nenhum deles tinha entrado ali, pois seria difícil voltar.

– Bora matar esse moleque e fazer uma necromancia. O diálogo vai ficar mais fácil. – Sugere Kathra.

Todos olham horrorizados para o vulkânico.

– Tô zoando, hein galera? Só queria ver a cara de vocês. – Explica o filho de Iuri, rindo.

– Muito bom… – Diz Niuton, satisfeito, enquanto o moleque olhava Kathra com medo. Não falava a língua velga, mas podia perceber as intenções apenas com o tom e expressão.

– Ele quer se juntar a nós? – Pergunta Niuton para Kron.

– Caralho! Tu vai adotar esse trombadinha? – Questiona Kathra.

Kron avisa que o jovem nativo vai levá-los até o local da inscrição. Ele aceitou a proposta de seguir com o grupo, pois não tinha para onde ir. Estava em dúvida se devia ficar no vilarejo ou tentava seguir para San Hoviland, onde moravam primos distantes.

– Ele vai com a gente. O moleque tá sem rumo. Tenho recursos, se ele sobreviver, vou arrumar algo pra ele. Quanto mais gente, melhor. Depois da missão resolvemos isso. Se ele preferir nós o deixaremos com os parentes.

– Caralho, Niuton? Virou Sacerdote de Virgo agora? – Estranha Kathra.

De fato, aquela não era uma ação característica do jovem McFerris. Mas, desde que tinha se envolvido com Felice Luna, Niuton estava diferente.

– Acho que tu tá praticando a pederastia e ficando mole. – Provoca o filho de Iuri, continuando a bravatear para o resto do grupo: – Porra, o cara é Falcão, com uma atitude dessas… Tô entendendo nada! Nem na taberna ele vai mais! Parou até de roubar as coisas! Como é que pode?!

– Parei porra nenhuma. O moleque vai ser útil, não tem por que matar. Só mato se valer alguma coisa. Na volta a gente decide. Jon deixa ele em casa. – Responde Niuton.

Jon Tudur apenas ri, mas já estava de olho no tratamento dispensado ao jovem nativo.

– Também vai desistir do negócio de poeira cristal e aquela rinha de gente que a gente tava montando? – Pergunta Kathra, gargalhando.

– Lógico que não. – Responde o McFerris, aproveitando a situação: – Esses moleques de rua inclusive podem ser braço barato pros nossos negócios.

– Agora sim! Esse eu conheço! Esse eu confio! – Exclama o jovem vulkânico, já desenvolvendo a ideia: – Essa ideia é boa, hein? Montar um bonde de moleques e ensinar pra eles o fino dos punguistas…

– Pois é! Esse moleque aí não tem pai nem mãe pra reclamar. Hagalaz deixou ele vivo. É bom a gente ter ele como amigo, e grato a nós. O dragão comeu gente, casa, janela, boi, geral… E o moleque tá aí vivo, com os quatro membros, sem demência, inteirinho. Não sou eu que vou matar. Hagalaz vai ficar muito puto. Tô fora.

[Continua: 65. Passagem Subaquática]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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