65. Passagem Subaquática

65. Passagem Subaquática
Tirapele, peixe carnívoro das Praias de Echo, no Mar de Hill

[Antes: 64. As Praias de Echo]

Após algum tempo de caminhada sem os cavalos, o moleque conduz o grupo por uma trilha entre as pedras, e no fim da tarde alcançam uma plataforma de pedra à beira-mar, de onde podem ver um paredão encoberto pela água, do outro lado. A maré mais baixa só iria acontecer de manhã, após dois dias.

– Dois dias aqui é muito. Inferon vai acabar aparecendo. – Diz o jovem Tudur.

O jovem nativo explica a Kron que, quando a entrada da caverna aparecia na maré baixa, seria preciso dar um salto bem arriscado pra chegar até lá. Ninguém que ele conhecia tinha tentado entrar ali, pois não seria louco de ficar preso depois que a água subisse de nível.

– Ou seja: uma vez lá dentro, fudeu. – Avalia Jon, rindo de nervoso.

A outra opção seria pular naquelas águas, infestadas de um peixe carnívoro compreensivelmente chamado de “Tirapele”. O traiçoeiro animal atacava em bando com barbatanas afiadíssimas, tentando raspar a pele das presas, que acabavam mortas por hemorragia e devoradas. O moleque costumava ir até o local com os amigos, onde jogavam bichos vivos só para ver o espetáculo macabro. Também já tinham pescado alguns daqueles peixes. Carne deliciosa, segundo ele.

– Vamos jogar o dragão nesse mar. – Diz Jon, brincando.

– Com apenas um bafo, Inferon faz uma moqueca nessa baía inteira. – Responde Luna.

Jon começa a rir. Niuton pede foco ao grupo:

– Essa é aquela hora de pensar em alguma solução digna de Hagalaz.

– Tem alguma árvore grande perto? – Diz Jon, ainda brincando.

Kathra avalia o salto mencionado. A distância era de uns dez metros, com uma profundidade de cinco metros até a entrada da caverna. E só havia aquela maneira de entrar.

– Porra. É um salto arriscado. Um salto pra morte. – Avalia Jon, tentando demover o amigo.

– Caralho. Então vamos voltar praquele barraco, tocar uma punheta e voltar daqui a dois dias. – Diz Kathra, se conformando, antes de provocar o cavaleiro da Bruma: – Se o Calto vier, temos o Luke pra encarar.

– Vai lá, Kathra. Você que é guerreiro precisa estar descansado. Os magos ficam aqui quebrando a cabeça. – Responde Viktor, provocando.

– Quer que eu pule? Eu pulo. – Rebate Kathra.

– Calma… Ainda não. – Replica Fuscão.

– A melhor ideia até agora foi procurar uma árvore alta… – Diz o filho de Iuri, também tirando sarro com Niuton: – Se não pensarem em algo melhor, o ideal é ficar no entoque na cabana. – Insiste Kathra.

– Podemos tentar cravar uma lança ou espada numa fresta de pedra no outro lado, para ancorar uma corda. – Sugere Luna.

– Ou voltar na praia, pegar umas madeiras dos barcos fudidos pra ir boiando. – Diz Kathra.

– O problema são os peixinhos… – Preocupa-se Viktor.

– O Tirapele. – lembra Luna.

– Se arrumar uma madeira grande pra cada um, e outra madeira pra remo, esses peixes só seriam problema se eles atacassem a prancha. – Insiste Kathra.

– Kron, pergunte ao moleque se existe algum predador desse peixe. – Propõe Viktor.

O discípulo elemental repete ao jovem nativo a pergunta de Fuscão, e o moleque responde que quase todos os animais do Mar de Hill temem os dracos.

– Então. Basta ser amigo de um draco. – Ironiza Kathra.

– Vai um grupo lá na praia pra ver se encontra algumas pranchas. – Aceita Viktor.

Ninguém se anima em caminhar horas de volta na trilha para a praia. Já estava de noite, e retornar com madeiras grandes seria bem complicado.

– Vamos tentar cravar uma espada. – Diz Kathra, resignando-se à única ideia que tinha restado: – Ou uma flecha. Niuton e Kron? Conseguem cravar uma seta com corda do outro lado? O máximo que pode acontecer é errar. Se acertarem, eu desço primeiro.

– E se saltássemos para perto da entrada da caverna? Teríamos de nadar o que? Uns seis metros?  – Questiona Luke, recebendo o apoio de Kathra.

– Não esqueça dos peixinhos… – Reforça Viktor.

– Vou pular nessa porra de cabeça e nadar na direção do paredão. Mas na alvorada, com alguma luz. – Diz o jovem vulkânico.

– Você ainda teria de procurar a entrada da caverna, Kathra. Vai ficar complicado. – Rebate Fuscão.

– Complicado é peidar. – Devolve Kathra, provocando risos em Viktor.

– Se e quando avistarmos a passagem, vou junto. – Concorda Luke.

– Acho melhor esperar a maré baixar. – Conforma-se Fuscão: – Até agora não encontramos uma estratégia melhor.

Luke, Kathra e Viktor permanecem discutindo por quase toda a noite, o que permite ao resto do grupo descansar. Mas, pouco antes da alvorada, olhando para o horizonte ao sul, todos percebem aquela silhueta gigantesca, inconfundível, voando na direção do local. Pela origem, devia ser aquele que chamavam de Inferon. O dragão mais violento dos Cardeais, que não negociava nem fazia escravos.

– Vamos nos entocar! – Diz Viktor, olhos arregalados de medo.

– Lógico! – Concorda Kathra.

– Temos de pular! Não temos escolha! – Grita Luke, enquanto os demais começavam a acordar e já compartilhavam o estado de pânico: – Pelo menos os peixes devem se esconder também!

– Pode ser! – Concorda Fuscão.

– O quê?! Vamos deixar pra pular quando o dragão estiver próximo, pra assustar os peixes?! Ficaram loucos?! – Grita Luna.

– Não temos pra onde correr! – Avalia o Cavaleiro da Bruma.

– Tô me apegando nisso! – Grita o filho de Iuri, ainda sem saber o que fazer.

– Os peixes ainda estão infestando a água! – Exclama Luna, indicando um cardume de Tirapeles a poucos metros da superfície.

– Kron não pode fazer uma corrente de água para facilitar o nado? – Sugere Niuton, que tinha acabado de acordar.

– Acho que sim, mas precisaria de um tempo para o ritual! – Responde o elemental.

– Quanto tempo? – Pergunta Niuton.

– Uma hora, no mínimo! – Responde Kron.

– Esquece! – Diz Niuton, atônito.

Enquanto discutiam, a silhueta de Inferon aumentava no céu. Naquela altura, o jovem nativo já estava no meio do mato, procurando um esconderijo.

– Galera! Acho melhor tentar se esconder! – Grita Jon.

– Eu também! – Concorda Niuton.

– Vou pular! – Diz Kathra: – Melhor morrer na moqueca do que virar petisco!

Enquanto o desespero ameaça se instalar entre o grupo, Viktor tenta exercitar suas habilidades de pressentimento, recentemente adquiridas no Colegiado. Após algus segundos de concentração, ele sente que o dragão ainda não viu o grupo naquela área, e por enquanto está apenas de passagem, na direção de algum alvo mais adiante. Mas se fossem percebidos, Inferon iria matar a todos.

– Vamos brincar de estátua! – Sugere Viktor, dividindo com os demais sua descoberta. O mago então começa a se esfregar na terra e a cobrir-se com a vegetação local, procurando algum esconderijo por ali.

Vendo a movimentação de Fuscão, Niuton resolve fazer o mesmo, mas antes deixa um recado irônico para Kathra:

– Boa sorte no mergulho!

Com muita sorte, o jovem cavaleiro das Terras Altas encontra um toco de árvore aprodecido perto dali, com o interior oco, capaz de abrigar duas pessoas. Ele chama Luna para dividir o esconderijo, e os dois se apertam no local. Kron, que também tinha escolhido a mesma estratégia, acha um buraco fundo na terra. Ele e Jon entram na toca improvisada e começam a se cobrir com folhas e galhos.

Viktor também tinha encontrado um bom esconderijo em uma fenda perto da rocha que se projetava para o mar. Mas era um local pequeno, capaz de ocultar apenas ele com segurança. Angelus e Luke continuavam indecisos, pois não acharam nenhum lugar que não estivesse à vista do dragão, apenas pequenos arbustos em que precisariam contar com a sorte.

De dentro da fenda estreita na rocha, Viktor percebe que o jovem nativo ainda não tinha achado um bom lugar, e tentava se cobrir com terras e folha. O mago então chama o moleque para dividir com ele o esconderijo, pois sabia que qualquer um ali que fosse percebido representaria a morte de todos. O dragão também conhecia artes mágicas, e só precisaria de um indício para rastrear todo mundo.

Excitados com o perigo, Niuton e Luna aproveitam aquela ocasião improvável para fazer sexo enquanto esperam a passagem de Inferon. Afinal, aquela podia ser a última vez. Na frente da plataforma de pedra, apenas Kathra, Angelus e Luke ainda se questionavam sobre o melhor momento para mergulhar na água, ou se esconder. Se pulassem agora, teriam de enfrentar um cardume inteiro de Tirapeles. Se esperassem mais um pouco para que os peixes sentissem o dragão e fugissem, talvez fosse tarde demais.

– Tá maluco! Vou pular agora! Olha o nome do dragão! Inferon! Não se brinca com um nome satânico desse! – Exclama Kathra antes de finalmente mergulhar, gritando:

– Jerônimoooo!

Angelus pula logo em seguida. Enquanto isso, Kathra tentava encontrar a entrada da caverna submersa, sem sucesso, pois já estava bem escuro. Alguns peixes vêm em sua direção, mas o vulkânico consegue se desviar das barbatanas afiadas. O jovem tigunar não tem tanta sorte, e após também se perder nas águas turvas, acaba tendo um dos braços escalpelado em um ataque do cardume.

Vendo o tempo se esgotar, Luke finalmente decide mergulhar. Prendendo o fôlego, o cavaleiro da Bruma consegue ver num relance a inscrição na pedra, e logo abaixo a entrada da caverna. Nadando rapidamente, ele escapa de um ataque do cardume e ainda consegue indicar o local da passagem para os dois companheiros. Kathra segue logo atrás dele, mas Angelus novamente é vítima dos Tirapeles, que escapelam seu outro braço. Após alguns segundos, já quase sem fôlego, o filho de Vandu finalmente consegue entrar na gruta, onde ele, Kathra e Luke conseguem respirar e sair da água.

– Que se faça a luz! – Exclama Luke, produzindo fogo com um de suas brumas.

Poucos minutos depois, Inferon sobrevoa o local. Para sorte do grupo, que nessas horas apelava a todas as mandingas e rezas para deuses e espíritos, o dragão não vê nada. Enquanto isso, Kathra, Angelus e Luke já seguiam por um túnel de pedra que conectava a gruta subaquática a uma caverna maior, no formato de um domo, com diversas inscrições antigas nas paredes. Uma linguagem simbólica desconhecida, com os mesmos sinais que indicavam a câmara do Tiwaz no mapa de Niuton.

Iluminando ao redor com as tochas, avistaram três outros túneis de formato redondo, com cerca de um metro de raio, que ligavam o domo a outros recintos. Na frente de um deles, havia uma pedra esférica com um metro e meio de diâmetro. De outro, saía uma ponta de corda com nós amarrados a cada metro. O último emanava um perfume floral inebriante. Sem dúvida, os três sinais estavam lá: a pedra, a corda e a flor. Kathra, Angelus e Luke tinham achado o templo onde o Tiwaz estava escondido.

[Continua: 66. A Pedra, a Corda e a Flor]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: