66. A Pedra, a Corda e a Flor

66. A Pedra, a Corda e a Flor
Luke Logan, vulkânico de Darklands, cavaleiro da Bruma.

[Antes: 65. Passagem Subaquática]

Já estava claro que aqueles túneis no domo de pedra significavam as provações que teriam de enfrentar para chegar ao Tiwaz. Os Dragões Dourados certamente queriam se certificar de que somente humanos muito bem qualificados poderiam tomar posse daquele poder.

Observando o interior dos túneis com a iluminação das tochas, Kathra, Angelus e Luke percebem que as passagens estavam em aclive, dando acesso a recintos em algum nível superior.

– Esse perfume me deixa mais preocupado. – Diz Luke, tentando interpretar os sinais: – Acho que a corda representa a habilidade. A pedra é força, e o perfume, sensibilidade. O que vocês acham?

– Isso. Vou no caminho da bola de pedra. – Diz Angelus, fazendo força para movê-la para dentro do túnel.

– Então vou subir pela corda. – Afirma o cavaleiro da Bruma.

– Calma. Ainda tô na dúvida. – Rebate o filho de Vandu.

Com alguma dificuldade, o jovem tigunar rola a esfera pesadíssima buraco acima. Mas assim que Angelus entra no túnel, escuta um forte barulho vindo do fundo da passagem, como se outra pedra daquele tipo tivesse sido lançada em sua direção. E apenas alguns segundos depois, ele percebe que era isso mesmo: uma esfera de pedra rolava túnel abaixo, em velocidade máxima!

Surpreso, Angelus se vê obrigado a tentar saltar por cima da pedra, mas agilidade não era o seu forte. Antes de se chocar contra a outra, a pesada esfera literalmente atropela o filho de Vandu, que se estatela no chão com muitos ossos quebrados. A missão para ele terminava ali.

– Luke, invertemos… – Murmura Angelus, estirado no chão, completamente moído de dores: – A pedra é agilidade, e a corda é força.

– Tem razão, Gigan. Vou subir aí nesse túnel. – Diz Luke, enquanto ajuda o tigunar a sair dali.

– Bem melhor… Vai lá, garoto. – Diz o filho de Vandu, sofrendo para falar.

Luke então começa a subir o túnel, e logo escuta o barulho. Quando a esfera está prestes a alcançá-lo, o vulkânico tenta um salto, mas não calcula direito e dá um tranco na pedra, machucando o braço.  Sem perder tempo, ele continua correndo e ouve quando outra bola de pedra é lançada. Mais um salto, dessa vez quase perfeito, raspando a pedra. Quando a terceira esfera vem em sua direção, Luke marca o tempo exato para o pulo, passando liso.

– Puta que o pariu! Vou conseguir! Porra! – Comemora o Bruma, enquanto corre passagem acima.

No fim do túnel de pedra, Luke chega a uma outra câmara em formato de domo, onde um velho cavaleiro de raça ileana, de aspecto fantasmagórico, parece acordar de um sono secular, incrédulo. Atrás dele, há uma grande porta de metal dourado, com o símbolo do Tiwaz, uma letar T decorada com pontas de seta. O velho fantasma começa a falar em um idioma antigo, cujas palavras no entanto se traduzem de forma telepática para Luke:

“Então eles acordaram?”

– Quatro despertaram. – Responde Luke.

O cavaleiro balança a cabeça, lamentando a informação, e continua a falar:

“E vocês querem o Tiwaz?”

Assim que Luke faz um aceno positivo, o velho volta a falar:

“Então eu tenho uma notícia ruim e outra pior pra você, meu jovem… Quer ouvir qual primeiro?”

– A boa.

“Não há notícia boa, jovem… Quer a ruim ou a pior primeiro?”

– A que eu merecer primeiro.

“Até agora, você não merece nenhuma”.

– A pior.

“A notícia pior é que o Tiwaz está incompleto. As ‘Pontes’ estão desaparecidas há séculos”.

O velho aponta para atrás de si, indicando a porta, antes de continuar:

“E a notícia ruim é que você terá de vencer um Sentinela dos Dragões Dourados se quiser tomar posse do Tiwaz”.

Imediatamente, o cavaleiro fantasmagórico brande o seu machado de guerra e escudo, partindo para a luta:

“Mostre-me que merece o Tiwaz!”

Luke consegue se defender do primeiro ataque, usando com agilidade a trífia da Bruma, mas logo em seguida é derrubado por um potente golpe de encontro do velho. Levantando-se com rapidez, o vulkânico sofre mais um corte profundo no abdômen, antes de ser novamente derrubado com um chute. O braço ferido no salto estava atrapalhando seus movimentos. Sem conseguir escapar de golpes seguidos, que arrancam sangue de sua boca, Luke Logan acaba sendo nocauteado com uma porrada forte do escudo sentinela.

Após alguns minutos, o cavaleiro acorda com o velho desferindo alguns tapinhas em seu rosto, para tentar reanimá-lo:

“Eu queria enfim poder descansar da minha missão, jovem. Mas para isso preciso ser derrotado.”

– Posso passar pela porta? – Questiona Luke.

“Só quem me derrotar. E você perdeu”.

– Eu falhei. – Aceita Luke.

Depois de escutar os sons de luta no fim do túnel, e sem receber qualquer retorno do cavaleiro da Bruma, Kathra resolve subir pela passagem da corda. O jovem flâmage enlaça as mãos entre os nós da amarra e começa a subir. Assim que entra no túnel, o vulkânico escuta o som de uma enxurrada de água, que logo se revela à sua frente. Agarrando firme na corda, Kathra faz muita força para seguir, tendo que parar algumas vezes para dar mais voltar com os nós ao redor dos punhos, mas acaba alcançando o final da passagem.

No fim do túnel, no entanto, Kathra não encontra o cavaleiro fantasma nem Luke. Num domo de pedra exatamente igual ao que o companheiro tinha chegado, também com uma porta dourada marcada com o símbolo do Tiwaz, o jovem é recepcionado por um monstrengo com quatro braços e mais de dois metros de altura. Um humanoide de aspecto bestial que não faz qualquer pergunta, partindo imediatamente para a briga.

– Puta que o pariu! – Grita Kathra, já fazendo guarda com suas novas manoplas de metal.

Após levar alguma vantagem inicial na luta contra o monstro, que ataca de forma desordenada, o vulkânico leva um golpe que rasga sua bochecha, na altura de uma cicatriz que tinha ganhado pelas mordidas que levou na Ilha de Fedo. A briga se desenrola de forma muito violenta, com porradas estrondosas sendo absorvidas de lado a lado, durante um bom tempo, até que a besta consegue derrubar Kathra com uma pancada firme no tampo do crânio. Desorientado, o filho de Iuri Petersen termina levando um soco forte na ponta do queixo, que o deixa caído no chão, desacordado.

Quando o jovem Flâmage acorda, horas depois, ainda grogue, o monstro está parado à frente da porta, parecendo ainda mais forte, e apenas observa seus movimentos.

– Boa noite. – Diz Kathra, atordoado, antes de começar a descer o túnel de volta.

Quando chega ao domo dos três túneis, ainda sequelado, o vulkânico resolve que não é hora de desistir e começa a subir pela passagem das esferas de pedra. No primeiro salto, apenas um tranco, mas o segundo é desastroso: a bola passa por cima de Kathra, exatamente da mesma forma que amassou Angelus, quebrando-lhe alguns ossos. Sua aventura termina ali.

Enquanto isso, do lado de fora, o resto do grupo já estava preocupado com o fato de que os três companheiros ainda não tinham retornado. Decidiram que um deles teria de entrar lá para ver o que tinha acontecido. Niuton McFerris se ofereceu para a tarefa. No dia seguinte, quando a maré finalmente baixou, viram a inscrição do oito deitado e a entrada da caverna. Para evitar que os Tirapeles atacassem, caso Niuton caísse no mar, estabeleceram um plano: assim que ele saltasse para a plataforma de pedra, Viktor arremessaria uma bruma de brilho na água, de forma a atrair a atenção dos peixes para outro lugar. O salto do jovem nobre das Terras Altas é quase perfeito. Ele cai na água, perto da pedra, mas logo consegue escalar até o nível da plataforma.

Quando Niuton chega até o primeiro domo de pedra, encontra Angelus e Kathra sentados no chão, quebrados. Eles explicam ao amigo o que tinha acontecido, e que não sabiam o destino de Luke. Apenas que o vulkânico não tinha retornado do desafio com as pedras. Motivado, o jovem resolve tentar aquele caminho, e salta facilmente sobre as três esferas. No fim do túnel, ao dar de cara com Luke e o velho, o cavaleiro da Bruma lhe antecipa as duas notícias:

– O velho aí tem uma notícia ruim e outra pior pra gente…

Esclarecimentos realizados, Niuton parte para a luta contra o Sentinela. O início do combate é equilibrado, e o jovem cavaleiro chega a acertar bons golpes no velho fantasma. Mas o guardião do Tiwaz consegue derrubar Niuton com uma forte porrada com o cabo do machado, e depois disso o mantém no chão acertando pancadas certeiras que arrancam sangue.  Encurralado, Niuton McFerris acaba ferido de morte com um talho enorme na garganta, e dá seus últimos suspiros estrebuchando num canto, para horror de Luke Logan.

[Continua: 67. As Armas do Tiwaz]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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