67. As Armas do Tiwaz

67. As Armas do Tiwaz
Viktor Van Vossen, gaulês de Bruxel, mago necromante da Dokhe.

[Antes: 66. A Pedra, a Corda e a Flor]

Enquanto Niuton lutava no interior da caverna, Viktor Van Vossen teve um pressentimento ruim do lado de fora. Aproveitando que a passagem ainda estava aberta, com a maré baixa, Jon Tudur II resolve saltar até a plataforma, e também consegue se agarrar na pedra. Os Tirapeles continuavam sendo enganados com as brumas de brilho que Fuscão arremessava no outro lado da pequena baía onde se encontravam.

O filho do Arauto de Hevelgar também segue pela gruta até o domo onde Kathra e Angelus aguardavam notícias de Luke e Niuton, que tinham subido pelo túnel das esferas de pedra, mas ainda não tinham retornado. Assim que fica sabendo dos desafios, o jovem Tudur resolve subir pela mesma passagem. Como um gato, leve e ágil, o pequeno Jon não tem qualquer dificuldade para dar os saltos, e chega inteiro na câmara onde estão Luke e o velho Sentinela. Assim que avista o cadáver do amigo Falcão num canto, a raiva toma conta dele:

– Quem matou Niuton?!

O velho se espanta com a pouca idade de seu próximo adversário, ainda mais novo que o anterior, mas já começa a fazer guarda com o machado. Enquanto isso, Luke repassava a ele as duas notícias: a ruim e a pior.

O Cavaleiro Fantasma parecia impressionado com a habilidade do pequeno Hokhe, e acaba sendo derrubado com um potente golpe de encontro. Parecendo não acreditar na força do jovem Tudur, que leva uma boa vantagem no início da luta, o velho Sentinela dos Dragões Dourados pouco a pouco vai se acostumando com o estilo de Jon, e percebendo as falhas de sua técnica ainda primária.

Depois de acertar a primeira porrada no filho do Arauto, a segunda leva o jovem de apenas quinze anos à lona e a terceira é fatal, cravando a lâmina do machado com força no topo do crânio, que racha em duas partes, expondo os miolos à mostra. Uma cena horrível.

– Tem muito corpo pra carregar sozinho. – Diz Luke, triste com mais uma baixa.

Revoltado com tudo aquilo, o Cavaleiro da Bruma resolve descer novamente até o domo dos três túneis, apenas para subir novamente a passagem das pedras rolantes, sem dar qualquer explicação aos dois jovens que lá esperavam. Com muita raiva, Luke sofre um tranco no primeiro salto, mas consegue passar facilmente pelas demais esferas. Ao chegar à câmara do Sentinela, no entanto, o velho dispara:

“Você já perdeu. Não merece outra chance. Escolha outro desafio”.

Cabisbaixo, Luke aceita a negativa e arrasta os corpos de Niuton e Jon túnel abaixo, reunindo-se com Kathra e Angelus, que ficam estarrecidos com a morte trágica dos amigos.

Enquanto isso, do lado de faro, os maus pressentimentos de Viktor aumentavam muito.

– O importante é alguém voltar vivo, com o mapa. – Diz Luna: – Depois poderemos voltar com reforços.

– A questão agora é a seguinte: será que temos condições reais de completar essa missão? Se não, é melhor mesmo voltarmos em outra ocasião. – Concorda Kron.

O jovem nativo ileano, no entanto, surpreende o grupo, dizendo a Kron que pretende saltar até a caverna. Motivada por aquela sugestão, Felice Luna toma distância e consegue um salto perfeito até a plataforma, sem nem mesmo cair na água. A vilanda entra na caverna correndo para saber o que tinha acontecido com seus companheiros, já temendo o pior.

Percebendo que a passagem logo iria se fechar com a iminente subida da maré, o resto do grupo também decide tentar o salto para entrar na caverna. Fuscão afasta os peixes com o brilho, e Kron salta em seguida. O jovem mago agunar consegue se agarrar na pedra e escalar até a plataforma com a inscrição. O moleque pula em seguida, caindo na água, mas Kron o ajuda a subir até onde estava. O último a saltar é Viktor, que também cai próximo da plataforma, sendo logo puxado da água pelos dois companheiros.

Quando os quatro chegam ao domo, Luna se desespera ao ver o corpo morto de Niuton. Todos ficam consternados com a morte de Jon e o estado lastimável do resto do grupo: apenas Luke ainda tinha condições de lutar. Viktor começa a tratar dos feridos, e Kron se anima ao saber que ninguém tinha ainda tentado subir pelo túnel do perfume, marcado pelo desenho da flor.

O discípulo dos magos elementais improvisa uma máscara com tiras de pano e couro arrancadas de suas vestes, e começa a subir. Mas o cheiro floral é intenso demais. Assim que Gunter Kron entrou no túnel, começou a ter alucinações. No primeiro trecho, ele consegue resistir às imagens distorcidas aterrorizantes que invadiam sua consciência, mas na metade do caminho aquilo já estava insuportável demais. Apavorado, o jovem agunar volta correndo pela passagem e se encolhe num canto, visivelmente transtornado com a experiência, sentindo fome, frio e medo. Após um tempo, um pouco mais calmo, mais ainda completamente sem razão, Kron começou a conversa com os cadáveres de Jon e Niuton.

Percebendo a desolação que tinha tomado o grupo, Viktor respira fundo três vezes e começa a subir o túnel da Flor. Tinha tentado alguma premonição, sem sucesso. Mesmo segurando o fôlego, o jovem gaulês começa a experimentar as mesmas alucinações que seu colega corvo. Talvez a substância intoxicasse a pele, não era possível ter certeza. Mas naquele momento, Fuscão sentia que, pela primeira vez, todos ali dependiam dele. Precisava apenas de sua maior habilidade, que tinha treinado por um ano inteiro: o autocontrole psíquico.

Com muita calma, o filho do legendário Erik Van Vossen supera a provação, resistindo a todas as alucinações pavorosas que tentavam tomar sua mente. No fim do túnel, Viktor encontra uma câmara exatamente igual às que tinham sido encontradas pelos colegas, com uma porta dourada marcada com o símbolo do Tiwaz. Mas naquele local não havia nenhum guardião.

Ou parecia não haver. Assim que dá o primeiro passo, Fuscão começa a ter pesadelos de fundo pessoal, guiados por uma voz macabra proveniente da porta, pouco mais que sussurros sombrios, que apresentavam visões horríveis das mortes de seu pai e de sua tia, Erin. Algo de difícil superação, inclusive para ele. Mas Viktor sabia que não era mais um. Carregava consigo o espírito dos Van Vossen, marcados pela glória e pela tragédia. Não seria aquela porta que o impediria de prosseguir.

Na verdade, Viktor estava absolutamente imóvel, catatônico, e toda aquela batalha se dava dentro de sua própria cabeça. Lutando contra bestas, fadas e demônios pessoais, o jovem necromante supera o guardião psíquico. Quando retoma a consciência, ele percebe que ainda estava no fim do túnel, mas a porta já estava aberta, revelando um interior magnífico!

Num templo ricamente decorado com colunas belíssimas, afrescos com cenas de batalhas milenares e inscrições grandiosas, oito pedestais estavam iluminados pela luz de cristais brancos que se destacavam no teto. Dois deles estavam vazios, mas os seis restantes tinham peças de metal realmente impressionantes, confeccionadas com algum material que se assemelhava àquele das armas sagradas dos arautos. Sem dúvida, aquela coleção era o Tiwaz!

No pedestal mais alto, uma grande lança brilhava imponente, acompanhada por um par de braceletes. Era uma arma pesada, com mais de três metros de comprimento e a espessura de um cabo de espada. Um Pique. Uma arma para gigantes. De cada lado, na plataforma superior, estavam os dois pedestais vazios. As “Pontes” que tinham sido mencionadas pelo Sentinela. Pelo desenho no pedestal, eram dois martelos de guerra.

Num nível abaixo, três púlpitos ostentavam um tipo de Arco Balestra exótico, ao lado de uma aljava de metal com 50 projéteis com mais de um metro de comprimento e a espessura de um dedo grosso. Também haviam pares de braceletes em cada um desses pedestais.

Nos dois pedestais mais próximos, Viktor vê dois estranhos estandartes, no formato de um cetro ornado com discos, também com braceletes. Sentindo que aquelas eram peças mais adequadas a um mago como ele, o gaulês toma para si um dos exemplares.

Todas aquelas armas exuberantes apresentavam pequenas pedras brilhantes de cor âmbar encrustadas. Algumas estavam iluminadas, e outros apagadas. Viktor logo reconhece que se tratavam dos lendários Cristais de Xart, produzidos pelos Dragões Dourados, fonte de energia mística que podia se manipulada por magos experientes. Usando sua sensibilidade, Fuscão sente que o controle das armas era realizado por meio dos braceletes, e que aquele estandarte, quando firmado no chão, podia emitir um pulso de energia muito poderoso, capaz de afastar ou atordoar um Dragão de Fogo. Eram as duas posições de “Contenção”. Definitivamente, aquilo tinha sido feito sob medida para ele.

Quando Fuscão cruza os braceletes, tocando uma peça na outra, sente a formação de uma nova conexão mental. Dessa vez, com uma criatura: um mitológico Raven Dourado, que acabava de deixar os picos mais altos de uma montanha inacessível na Ilha da Gerânia para encontrá-lo. Era um animal menor, mais ou menos do tamanho de um cavalo, e mais rápido do que seus primos cinzentos, negros ou escarlates, companheiros dos arautos. No mesmo momento, uma das paredes laterais do Templo se abria, revelando uma enorme queda d’água que escondia aquele imenso portal numa escarpa da Chapada de Hill. Quando a cachoeira para de jorrar, Viktor pode enfim avistar aquela paisagem maravilhosa.

Atrás de si, Viktor vê mais duas portas. Quando abre a primeira, ele chega à câmara onde Niuton e Jon tinham perdido a vida lutando contra o velho Sentinela, que agora não passava de uma das imagens pintadas na parede. Na outra, o jovem mago vê o domo onde Kathra tinha perdido a luta para o monstro de quatro braços, reduzido naquele momento a uma estátua de pedra sem vida.

Quando escutaram os gritos de Viktor, que ecoavam nos túneis, dizendo que tinha vencido o desafio, Luna e Luke seguem até o Templo do Tiwaz. Angelus e Kathra vão atrás, praticamente se arrastando. Ainda enlouquecido, Kron continuava chorando e conversando com seus amigos mortos. O Cavaleiro da Bruma pega a enorme lança, não se importando com o tamanho gigante da peça, que claramente teria de ser empunhada por algum humano maior, como um vilando, tigunar ou alamano. Usando o bracelete, ele sente a conexão com Viktor, e que o Pique podia se tornar incandescente com a queima de um dos cristais, servindo para atravessar o coração de um dragão. Aquele era o “Frente” da equipe.

Luna se apodera de um dos arcos, com as aljavas de metal. Conectando-se à arma com os braceletes, a jovem vilanda percebe que aqueles arcos tinham a capacidade de arremessar até dez setas de metal por rajada. Eram os “Artilheiros” do Tiwaz.

Angelus e Kathra chegam ao Templo logo depois, e também pegam os dois arcos restantes, com seus respectivos braceletes. Algumas das armas, no entanto, apresentavam cristais apagados. Viktor orienta os amigos para entrarem em contato com os outros Ravens Dourados. Antes de sair do templo, no entanto, Fuscão volta até o domo dos três túneis para resgatar Kron, que ainda estava sob efeito de alucinações, e pega o último estandarte para o amigo corvo. Luke e Luna também voltam ao local para pegar os corpos de Jon e Niuton, de forma a garantir funerais dignos em Van Hal.

O Raven Dourado de Viktor é o primeiro a chegar, gracioso e imponente como somente uma daquelas criaturas mitológicas podia ser. Poucos minutos depois, mais quatro animais alados pousavam ali, prontos para levarem o grupo de volta para casa.

Aqueles jovens tinham encontrado o Tiwaz. Agora o “Caçador de Dragões” não era mais uma lenda, mas uma realidade.

[Continua: 68. A Lenda dos Dragões]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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