69. Discussão na Academia

69. Discussão na Academia
Academia de Flamages, em Van Hal.

[Antes: 68. A Lenda dos Dragões]

Enquanto Kathra e Luke Logan debatiam sobre quem deveria usar as armas do Tiwaz na caçada a Calto, Viktor Van Vossen e o resto do grupo também chegavam ao pátio da ACAFAM. Quando Angelus Gigan se juntou à roda, Fuscão tentou explicar o que estava acontecendo:

– Tá rolando a discussão porque nós pegamos o Tiwaz. Mas parece que os oficiais querem que a gente entregue as armas para guerreiros mais experientes. Kathra é contra, mas o primo do Niuton é a favor. Eu vou esperar a reunião da Clave pra ver o que vai rolar.

Angelus abre caminho no meio da pequena multidão e se junta à roda de debate. Naquele momento, Kreuber terminava um raciocínio:

– O Kathra tem todo direito de espernear, mas o papo na Clave é de homens. Homens sinistros. Chamaram Luke pra reunião porque viram nele um líder adulto e sensato, e não o chefe de um bando de moleques. Kathra pode agir como moleque, Luke não.

O Cavaleiro da Bruma então pede a palavra e discursa:

– Fui convocado para me apresentar na Clave e estou ciente que o assunto principal será as armas do Tiwaz. Minha linha de raciocínio é a seguinte: as armas são propriedade de quem as detém. Não posso e não vou obrigar ninguém a entregar o que é seu. Fomos atrás de algo que era motivo de piada no reino e hoje se tornou objeto de desejo de todos, e com valor imensurável nesse momento. Não concordo em entregar as armas e não receber algo muito justo em troca. Coragem é algo que todos no grupo provaram que têm de sobra…. Mas não considero ninguém no grupo preparado para essa missão nesse momento. O que falta?

– Perfeito, Luke. – Diz Kreuber Dikson.

– O que falta?! – Revolta-se Kathra: – Falta tu deixar de ser peidão e parar de babar ovo de nobre! Isso que falta!

Quando o filho de Iuri vê Angelus chegando, tenta convencer o amigo da sua perspectiva:

– Angelus, vou resumir pra você: Nós fomos atrás do Tiwaz, que ninguém acreditava que existia. A gente se fudeu todo e conseguimos recuperar as armas, que na verdade são seis e não uma só, como dizia a lenda. Quando voltamos, os oficiais querem decidir que nós não temos capacidade de usá-las contra os dragões. Querem tomar de nós e dar pra outras pessoas que eles acham mais preparados… Já avisei que não entrego nem fudendo! Quem quiser que venha tomar. Vão fazer uma Clave pra decidir, mas eu não abro mão de ir na missão, e os nobres que se fodam! Quero fazer história e matar um dragão! Qual vai ser sua posição nessa porra? Vai entregar sua arma?!

– Vamos pegar o dragão. – Diz Angelus, conciso, para satisfação do amigo.

– Ainda vão fazer uma Clave pra dar ideia. Se eu tivesse que decidir, dava um prazo pra entregar na boa, no amor… Senão mandava uns cem caras pra tomar na marra. Podia morrer uns setenta com a munição que vocês tem, mas os que sobrassem iam pendurá-los em praça pública… Hahahaha! – Gargalha Kreuber, debochando.

– Se perguntarem se eu quero ir, é lógico que quero. Mas com certeza não sou o mais bem preparado nesse momento. Ou estou falando alguma mentira? – Questiona Luke.

– Verdade. – Pondera Angelus, parecendo mudar de opinião: – Se for só um ou dois garotos, tudo bem. Porém mandar um grupo de moleques não dá. Pode comprometer a missão. Temos que ter bom senso.

– Por mim, posso ceder o Estandarte para alguém mais preparado, com a condição de devolver depois, para que eu possa me preparar no futuro. – Opina Kron, que também chegava ao local.

– Devolver depois? – Ironiza Kreuber: – Vamos lembrar que acabaram de mandar um esquadrão cascudo e Calto dizimou. Periga não voltar nada, nem ninguém.

– Mas eles não tinham o Tiwaz. – Rebate Kathra.

– Acho que não tinham de levar novato nenhum. Ainda mais um que voltou quase aleijado. – Ironiza o Cavaleiro Escarlate.

– Beleza. Fácil de resolver isso. Só virem aqui e tomar de mim. – Teima o filho de Iuri.

Até Madox Heineken, que estava passando por perto, para pra ouvir o debate e dar a sua opinião. Ele estava impressionado com a fibra moral do jovem vulkânico. Após se aposentar da ativa e virar instrutor da ACAFAM, o caçador sem braço era a pessoa que Kathra mais considerava como um familiar.

– Esse moleque é meio maluco! Mas se posiciona, não fica em cima do muro. Não é um garoto de entrega desses nobres que nunca entraram numa batalha e querem decidir a vida de todos!

– Falou outro aleijado. – Zomba Kreuber, antes de questionar: – Vocês acham mesmo que vão conseguir impedir que um reino tire o doce de uma criança?

– A arma é minha, caralho! Se quiser pula lá no fosso e pega uma pra você! – Devolve Kathra.

Angelus começa a rir, e Kathra pergunta novamente ao amigo:

– Você arruma algo, quase morre pra conseguir, e essa parada pode levá-lo a conquistar uma coisa que quer muito. Aí vem um nobre pela-saco dizer que agora a parada é dele, que tu é moleque e vai ter que entregar. Eu te pergunto: qual seria a tua atitude?

– Verdade. Pergunta difícil, mas você tem uma boa razão. Vamos aguardar a Clave. – Diz Angelus: – Porém você sabe que o Rei e a Clave pensam sempre no povo e no objetivo da missão…

– Porra, mas meu advogado na Clave é o Luke! Tô fudido! Vou ter que resolver no braço. Não vai ter diplomacia a meu favor. Luke peida e é puxa-saco de nobre! – Lamenta Kathra.

– Calma. – Diz o filho de Vandu.

– Angelus, nego quer tomar na mão grande a tua arma! Tu vai aceitar essa porra?! Lembra que foi um dragão que matou teu irmão! – Insiste o filho de Iuri.

O tigunar já parecia sensibilizado com o nível de argumentação, mas Kathra continuava repetindo sem parar:

– Se vierem tomar minha arma vou dar 50 rajadas pro alto e que se foda! Vão tomar é o caralho! Vem esses amiguinhos dos Petersen querer decidir uma porra que eles nem acreditavam que existia? Nem fudendo que eu entrego!

– Essa babaquice de moleque importa bem menos que o objetivo. – Replica Kreuber: – Duvido que vão correr o risco de enfraquecer a próxima equipe que vão mandar pra caçar Calto… Dragão de Fogo é foda. Voa, pressente, solta fogo, enxerga de longe, não dá pra brincar. Chegou a hora de separar os homens dos meninos. – Conclui o Escarlate.

– Angelus, tu vai? Ou vai entregar a arma? – Insiste Kathra.

– Pra quem eu iria entregar? – Responde o tigunar.

– Com certeza seria um bucha que nem conhecemos. Só pra fazer o que a nobreza quer. – Desdenha o filho de Iuri.

– Pra um bucha eu não entrego não. – Disse Angelus, começando a radicalizar.

– Tenha a glória ou morra tentando! Essa não é a filosofia dos Gigans? – Atiça Kathra.

– Posso sugerir que os indicados pela Clave tenham que conquistar esse direito. – Argumenta Luke: – Teriam que nos derrotar numa luta justa, sem morte. Sério.

– Boa, Luke. Na verdade isso é briga de compadre. – Diz Angelus, minimizando o assunto.

– Quero ver quem vai ser contra eu sugerir essa solução na Clave. Hahahaha! Mas vamos aguardar o “homem rajada” falar… – Ironiza Luke, rindo.

– Porra. Eu queria pegar esse filho da puta do Calto na unha. – Diz Angelus, com raiva.

– Quer ir na missão? Então vai lá, encara o guerreiro mais experiente numa luta justa sem morte, e conquiste o direito de usar as armas na missão! Não acha justo?! – Exclama Luke, gostando da própria sugestão.

– Você tinha começado bem, mas já tá rateando… Começou a ficar indeciso. Vai cair na pilha desses moleques? – Pergunta Kreuber para Luke.

Luke não responde ao Cavaleiro Escarlate, preferindo continuar provocando Kathra:

– E o que a criança acha?

Fuscão, que também já estava no meio da roda, se adianta para responder:

– Por mim, entrego.

– Excelente. – Afirma Kreuber, satisfeito com a resposta do mago.

Kathra se revolta:

– Puta que o pariu! O cara venceu o desafio do Tiwaz e quer virar garoto de entrega!

– Como você estava dizendo, eu ganhei as armas. Talvez você que fracassou esteja tentando arrumar uma maneira de colocar seu nome na História. Eu já garanti o meu! – Debocha Viktor.

– Você só garantiu uma vaga de entregador! – Rebate o jovem vulkânico: – E que quero isso mesmo: fazer história!

– E tá fazendo… Historinha de bebê chorão. – Replica Fuscão.

– Por não aceitar ser feito de trouxa? – Questiona Kathra.

– Kathra, como bem disse o jovem mago, quem conseguiu foi ele. Como o Luke vai defender que você tem de ir?! Não teve nem força pra pegar no dia… Me diz como o Luke vai ter a cara de pau de te defender na Clave? Ele vai é perder a promoção para Gargo se fizer isso. – Contrapõe Kreuber, usando o argumento de Viktor, antes de se retirar da discussão.

– Fui o primeiro a saltar pra alcançar a caverna! Não venci o desafio mas botei a cara, acreditei e voltei com uma das armas do Tiwaz! Quem quiser que venha tomar! Tem que ter papel de homem nessa porra! – Revolta-se Kathra, explicando o que entendia ser o seu mérito.

– Pelo que eu lembro nem você nem Angelus acharam a entrada, né? Se não fosse eu, os Tirapeles iam agradecer a janta! Hahahaha! – Lembra Luke.

– Beleza. Vamos ver como será na Clave. Cada um com suas opiniões. Só espero que Luke não peide… – Provoca o filho de Iuri.

– Tu entrou na porrada pro monstrengo e saiu fudido quando tentou saltar as esferas de pedra. Falhou em duas provas! Voltou pra casa se arrastando, pra variar. Só está com uma arma porque o Fuscão venceu o desafio. E ainda se considera apto para a missão?! – Rebate o Cavaleiro da Bruma.

– Que se foda o que vocês acham, Luke! Querem as armas, vêm pegar! – Teima Kathra, já saindo do meio da roda.

– Se não tivesse sido criado pelo Vandu eu diria que esse cara é um molequinho mimado. Mas não tem jeito: é a natureza dos Petersen aflorando. Hahahaha! Cantando uma marra que puta que o pariu… – Ironiza Luke.

 – Petersen é o caralho! Não faço parte dessa família pau no cu não! – Gritou o jovem vulkânico, já de longe.

– Só sei que também não vou entregar minha arma assim tão fácil não. Não sou cabeça dura, mas quero entender isso direito. Quando o time é forte e unido as chances aumentam. Gosto de ter vocês no meu grupo, mas também confio no meu advogado Luke. – Diz Angelus, ressabiado, enquanto a aglomeração por ali já começava a se desfazer.

– Como eu respeito a opinião de todos, vou manter o que falei: não vou incluir a minha sugestão de duelos para a Clave. – Finaliza Luke, também deixando o local.

Já não havia quase ninguém no pátio quando Angelus viu Kathra montar no Raven Dourado e partir para local desconhecido. Enquanto voava, o filho de Iuri fazia alguns sons animalescos usando as mãos e a boca:

– Dulu! Dulu!

O jovem tigunar logo entendeu o código. Era melhor não confiar no poder de defesa de Luke, e partir para o plano B. Sem esperar muito, o filho de Vandu pegou seu arco, montou em seu Raven e também partiu, sem avisar a ninguém.

[Continua: 70. O Tiwaz na Clave]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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