70. O Tiwaz na Clave

70. O Tiwaz na Clave
Sin Kali, de Van Hal, General da Hokhe.

[Antes: 69. Discussão na Academia]

Após décadas, os generais das duas cavalarias velgas, a Dokhe e a Hokhe, voltavam a se reunir em torno daquela távola mítica: a Clave. Uma mesa de pedra, no formato de uma ferradura alongada, com 27 lugares exclusivos para os maiores guerreiros vivos. Na cabeceira sul da mesa, a posição do Megatrix continuava vazia, mas todas as demais eram ocupadas pelas principais lideranças militares dos quatro reinos da Tetrarquia. Na pauta, a decisão sobre quem deveria conduzir as armas mitológicas do Tiwaz. Para a Opera Doma, a única cadeira na mesa em que era permitida a presença de civis e cavaleiros de baixa patente, e que ficava cercada pelos oficiais da cabeceira norte, quase ao centro da mesa, tinha sido convocado o Maverick Luke Logan, Cavaleiro da Bruma que acompanhara a jovem equipe que achou o Tiwaz.

Entre os oficiais, ao lado direito da cadeira do Megatrix, o General Sin Kali liderava a Hokhe, a cavalaria sagrada, destinada aos devotos da Religião Reformada dos 11 deuses. Do lado esquerdo, o Duque Kadwan den Darklands, que tinha sucedido seu pai e seu avô no comando da cavalaria negra, aquela que abrigava os adeptos da Antiga Religião panpsiquista.

Nas demais posições, a Dokhe contava com os irmãos Bor e Arien van Aussflag, comandantes do Condado que tinha o nome do clã, na Terra das Sombras, assim como Krul Petersen, da mesma região. O ducado também estava representado por Aldus Princevere, Derek Demoni, filho de um falecido arauto de Hiniar e a feiticeira guerreira Dominik de Havilan. Além destes, o caolho Hulen Sinister, de Bruxel; Kandaline, uma amazona de Citroya, radicada em Van Hal, Agnus Delano, o Príncipe Henzo Van Holland e Hank Hodrazar, um almirante da cidade portuária de Fleissig, representantes do maior reino velga. Para o último lugar na mesa, Kadwan tinha convocado o arauto Jon Tudur, seu velho conhecido, que tinha acabado de enterrar o filho no cemitério dos guerreiros da Academia.

A cavalaria sagrada contava com Darius e Dankan Agazar, dois casca-grossas de Van Hal, assim como Hanna Van Holland, filha do Rei Hagen e irmã de Henzo, e Jon Flanagan, pai de Jules. Terras Altas tinha direiro a três cadeiras, então ocupadas por Martin McFerris, tio de Niuton e sobrinho do rei, seu primo Filis De Ferris e o velho Igor Stan Haus. Do Reino de Aquitan, vieram Julian de Flamme, Elena de Aquitan e Hal Dankeldon. Por fim, a guerreira Diana, de Joy Divile, e o mais novo arauto de Milenor, Kreuber Dikson, que tinha deixado a Hokhe recentemente para se tornar um Cavaleiro Escarlate.

Nessa época, a Clave ainda não era um grupo fechado e regular, contando ocasionalmente com oficiais de grande experiência, e que por isso tinha a patente de Gargo Gigantrix. Como não havia um Megatrix, seriam 26 conselheiros com direito a voto, 13 de cada cavalaria.

No caminho para a Fortaleza das Cavalarias, em Van Hal, onde se localizava a Torre da Clave, Luke Logan não parava de pensar na discussão no pátio da Academia. Desde aquele dia, Kathra e Angelus não tinham mais sido vistos, o que já provocava rumores de que eles tinham fugido com as armas do Tiwaz. E se questionassem-no sobre isso? O cavaleiro da Bruma estava preocupado. Logo após o retorno glorioso do grupo de moleques, a quem ele tinha tutelado na missão por sugestão do mago supremo, alguns oficiais inclusive cogitavam promovê-lo para a patente de Gargo, o que seria algo de certa forma precoce, pois Luke ainda estava na casa dos trinta anos. Tudo dependeria de seu desempenho na reunião.

Nas escadarias para a torre, Luke encontrou Kreuber Dikson, que também se dirigia para a Clave. Desde o debate na ACAFAM, ele pensava nas palavras do Cavaleiro Escarlate, que naquele momento tinha se posicionado firmemente contra a ida dos jovens na missão.

– Responsabilidade essa porra, hein? – Diz Kreuber, aparentando preocupação: – Onde esses moleques se meteram? Tu não era o líder?

– Pois é… No fim ainda vou levar esporro e ganhar uma estadia nas masmorras de Van Hal. – Reposnde Luke, tentando fazer piada da situação.

– Pois eu já vou abrir a minha palavra contando o que aquele moleque disse na Academia: “a arma é minha! Quem quiser vem tomar! Vocês acham que vou entregar pra esse bando de nobre de merda da Clave?!” Amigos, foram essas as palavras de Kathra! Quem quiser que o defenda…

Luke engole em seco, pois aquilo certamente ia dar merda:

– Ninguém daquele grupo está pronto pra essa missão. Nem eu. Esse é problema. Kathra acha que dá, mas não é verdade. Não vou fazer algo só pra agradar o orgulho de um moleque. Simples. E Angelus ainda caiu na pilha errada e acompanhou o chorão.

– Pra mim eles provaram que têm muitos direitos. Menos esse. Eu nem conheço direito os moleques. Só sei que são moleques. Aliás, o único que era bom ali morreu. Na missão do Templo de Vito, o filho do arauto de Hevelagar mostrou ter fibra. E a filha do duque também, mas essa deu baixa da cavalaria. O outro moleque lá disse que ia peitar o dragão, e morreu fugido. Teve uma que abandonou o grupo. Vou bancar eles por quê? Com que segurança? Com que argumento? – Questionava o Arauto de Milenor.

– Mas tem um que se acha predestinado a matar o Calto. Quer ir de qualquer maneira. Não posso impedi-lo.

– Você é o líder, e como tal, nao cede a caprichos. Avalia seus liderados. – Diz Kreuber, despedindo-se com um último aviso antes de entrar no salão: – Cara, eu vim da Gerânia pra lutar ao lado dos melhores, os guerreiros mais casca-grossas da Terra Vélgica. Os consagrados, os macacos velhos.

Enquanto isso, nos matagais que beiravam o lago Hal, perto do Rio Richer, Kathra e Angelus continuavam escondidos, se comunicando através de ruídos animais. Tinham mandado os Ravens Dourados para as montanhas e retirado os braceletes, para que ninguém pudesse rastreá-los. Armados com os arcos do Tiwaz, aguardavam o resultado da Clave. O filho de Iuri estava com uma péssima impressão de Luke Logan, e temia pelo pior, pensando em voz alta:

“ Se Luke se posicionasse, defendesse sua equipe, afirmasse que confiava no grupo, seria mais respeitado. É assim que um líder age. Mas vai sair como um menino de recado incapaz! Eu nunca vi um líder de verdade virar as costas para sua equipe. Só os fracos agem assim. Um líder verdadeiro defende seus comandados até o final! Confia neles, dá suporte, alimenta o moral! Nunca vai ser respeitado esse Luke… Nunca!”

Pouco antes de se entocar, Angelus passou numa taberna para comprar uma carga de Dente de Leão e ouviu rumores de que Kreuber iria ajudá-los a negociar uma boa compensação, caso desistissem do Tiwaz. Mas pra isso teriam de dar as caras em Van Hal. Se esperassem a Clave, nada feito. Em linguagem de bicho, contou a notícia para o amigo:

– Ka ka ka ka ka kaaaa! Dulu! Dulu!

O jovem vulkânico continuava irredutível em sua posição:

“Foda-se. Faz o que tiver que fazer. Kreuber é pela-saco. Cada um toma suas atitudes e arca com as consequências. A vida é feita de escolhas. Amigo, a palavra de Katrha tá mantida. Quem quiser tomar as armas que venha pegar. Se tentarem crocodilagem vai rolar rajada pro alto”.

Traduzido na linguagem peculiar que utilizavam:

– Tsssss! Tsssss! Dulu! Dulu! Ku ku ku ku ku ku!

Angelus entendeu o recado e devolveu:

– Ki ki ki ki ki ki ki kiiii… Dulu! Dulu! Uá! Uá! (“Agora o problema é do Luke. Ele não pode dizer que eu não sou capaz. Meu histórico nessa porra nao me deixa abaixo de ninguém!”)

– Uá! Uá! Shi shi shi shi shi shi… Ah! Ah ah! Ah ah! (“Se ele disser que não considera ninguém preparado, estará quebrando a promessa que fez!”) – Sibila Kathra.

– Dulu! Dulu! Ku ku ku ku ku ku! Uá! Uá! (“Tu vai ver que a gente vai nessa porra”) – Assobia Angelus.

– Ih! Ih! Ih! Ih! Uh uh! Uh uh! Ku ku ku ku ku ku! (“Só quero que Luke cumpra com sua palavra de homem! Se fizer alguma coisa diferente disso é moleque! Não tem palavra e nem honra!”

– Tsssss! Tsssss! Ku ku! ku ku! – Concorda Angelus.

– Dulu! Dulu! Ka ka ka ka ka! (“O importante não é o quanto você bate, mas o quanto você apanha e se mantém de pé!”) – Finaliza Kathra.

***

Na Torre da Clave, Jon Tudur foi o último a chegar para a reunião. Tinha passado a tarde bebendo numa taberna:

– Desculpem a ausência, amigos. Ainda estou me recuperando da morte do meu filho.

Naquele momento, os irmãos Agazar já estavam quase se estapeando, empolgados, lembrando de batalhas antigas. O velho Stan Haus já dormia, e o galante Julian de Flame cortejava sem parar a citroyana Kandaline. Tinha até esquecido o motivo daquela Clave. Somente Martin McFerris parecia compenetrado, aguardando impaciente o momento de pedir a palavra e acabar com os sonhos dos garotos.

Quando todos os participantes já estavam em seus postos, o Chefe de Ordens gritou:

– Chamem Luke Logan!

O oficial de serviço então segue para a antessala da Clave e explica a Luke as regras de conduta:

– Responda só o que for perguntado. Você só tem direito à opinião se te perguntarem.

Como os dois Generais estavam na mesa, sem um Megatrix para conduzir os trabalhos, valia a regra das duas palavras. Cada um dos líderes poderia fazer duas perguntas iniciais para Logan, e ele deveria escolher qual delas responderia primeiro, mas de forma alternada.

Sin Kali é o primeiro a falar:

– Você acha que a sua equipe está preparada para a missão?

Um burburinho toma conta do ambiente. O general então continua, implacável:

– Se você estivesse no nosso lugar, e tivesse de tomar essa importante decisão, enviaria a sua equipe de jovens com o Tiwaz?

A falação aumenta, com os oficiais cochichando entre si, e somente é interrompida quando Kadwan den Darklands pede a palavra:

– Todos aqui sabem quem mandou você para essa missão. Você acredita que isso é um sinal?

Silêncio absoluto na Clave. Era isso que acontecia quando se referiam a Imperatrix.

– Você acredita que está preparado para defender os direitos da sua equipe aqui hoje? – Fulmina Kadwan.

Naquele momento, Luke suava frio. Tinha acabado de receber uma fantasia de cu pra uma festa de pica.

[Continua: 71. O Sinal de Imperatrix?]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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