71. O Sinal de Imperatrix?

71. O Sinal de Imperatrix?
Martin McFerris, de Terras Altas, Gargo Gigantrix da Hokhe.

[Antes: 70. O Tiwaz na Clave]

Luke Logan respirou fundo e decidiu responder primeiro à pergunta de Kadwan den Darklands. Olhando fixamente para seu General, ele afirma:

– Acredito que tudo o que vem de Imperatrix deve ser respeitado e seguido. E eu o respeito ao extremo.

Um novo burburinho toma conta da Clave, que não entende a resposta. Kadwan se inclina na direção do Maverik da cavalaria que liderava, e replica:

– Sim ou não, jovem?

Kreuber comenta com Jon Tudur, que estava ao seu lado:

– Assim não vai ser promovido… Começou mal.

– Sim. – Responde o cavaleiro da Bruma.

– Boa. – Sussurra Tudur de volta para o Cavaleiro Escarlate.

– É um sinal do quê então? – Continua Kadwan.

– Puta que o pariu. – Murmura Kreuber para o companheiro ao seu lado.

– Ops… – Devolve o Arauto de Hevelgar.

Luke se incomoda com o complemento da pergunta. Olhando ao redor, ele percebe que todos estão esperando a resposta.

– Um sinal dele é um caminho a ser seguido. – Completa Luke.

– Um caminho a ser seguido por quem, jovem? – Insiste o General.

– Por quem o receber. – Esquiva-se o cavaleiro da Bruma.

– E quem recebeu o sinal? – Diz Kadwan, começando a ficar impaciente.

Todos continuavam em silêncio, olhando para Luke, que admite:

– Eu. Fui eu que recebi o sinal.

– E qual foi o sinal que VOCÊ recebeu, jovem? – Reforça o Duque, elevando o tom de voz.

– Um sinal de que o Tiwaz não era uma lenda. – Diz Luke, tentando manter a calma.

– Pois eu esperava que tu tivesses entendido muito mais do que isso… Temo que já tenha a resposta da minha segunda pergunta. Agora, pode responder a Kali. – Diz Kadwan, desanimado.

– Poorrraaaa… – Comenta Kreuber, com voz baixa: – Puta que o pariu. Adeus promoção. Se esse cara não sair preso daqui hoje já é lucro.

– Luke, esqueça tudo e ouça seu coração… Vai na fé, guerreiro. – Sussura Tudur.

– Aí fudeu. – Murmura Kreuber de volta.

Luke então abaixa a cabeça, pensa com todas as suas forças no mago supremo, e então se dirige ao General da Hokhe, para responder sua primeira pergunta:

– Não.

Um grande “Ohhhh!” ecoa pelo salão. Martin Mc Ferris sorri satisfeito, enquanto Kadwan abaixa a cabeça, entristecido. O General da Dokhe tinha conhecido pessoalmente alguns pais dos jovens que tinham retornado com as armas do Tiwaz, como Iuri Petersen, pai de Kathra, Erik Van Vossen, pai de Viktor, e Vandu, pai de Angelus. Todos eram heróis velgas e já estavam mortos, o que fazia Kadwan acreditar que Hagalaz tinha reservado um papel glorioso para os meninos.

Sin Kali se dá por satisfeito, e ordena que Luke continue a responder Kadwan.

– Assim como nenhuma outra equipe está preparada para essa missão. – Complementa o Cavaleiro da Bruma.

Um outro “Ohhhh!” ecoa na Clave, e a resposta fora de hora enfurece o General da Hokhe:

– O que foi isso?! Ninguém aqui pediu sua opinião sobre as outras equipes! Limite-se a responder o que foi perguntado! Agora, responda à segunda pergunta de Kadwan!

Luke então se volta para o Duque e afirma:

– Defender direitos é uma questão muito subjetiva, senhor. Caso estejamos falando sobre os bens adquiridos, afirmo não possuir autorização para responder pela propriedade individual de cada um deles.

– Pois eu estava me referindo ao direito de usar as armas do Tiwaz para caçar Calto. Mas você não precisa mais responder nada, Maverik Luke Logan. Tu nunca esteve preparado para isso. Pode responder a última questão de Kali, apesar de que todos aqui já saibamos a resposta. – Rebate Kadwan, acusando o golpe.

Um silêncio constrangedor toma conta do local. Martin McFerris sentia-se confiante em ganhar o debate. O clima era tenso, e Luke percebe que tinha irritado o superior de sua cavalaria. Ele então se dirige novamente ao líder da Hokhe, e crava:

– Uma vez com essa responsabilidade eu jamais deixaria de seguir um sinal de Imperatrix e enviaria o grupo pra missão. Independente do que qualquer um achasse. Caso alguém do grupo não se julgue apto para a missão, faria as trocas necessárias.

Um novo “Ohhhhhhhhh”, ainda mais longo, é reproduzido em uníssono pelos participantes. Sin Kali intumesce os olhos, e rebate com raiva:

– Isso é uma piada?! Tu mandaria a equipe que tu mesmo disse que era despreparada?! E que sinal é esse, de que tu fala agora? Tu não disse aqui que o sinal era de que o Tiwaz não era uma lenda?! Não precisas responder mais nada!!! Tu ofendes a inteligência deste Conselho!

Uma discussão generalizada explode na Clave. Alguns estavam revoltados com a patente contradição do cavaleiro, e elevam o tom de voz em sua direção. Kadwan se anima e toma a palavra:

– Senhores, este era o sinal a que me referia! Estes jovens receberam do Alto a missão divina de eliminar nosso maior inimigo! E quem sentiu isso foi o professor de todos nós! Luke Logan pode não ser o líder ideal para a equipe, mas que outros guerreiros seriam mais indicados do que aqueles que têm as armas nesse instante pelo direito natural? Que a Clave possa decidir sobre isso!

A balbúrdia continua por um tempo, com várias discussões paralelas, até que o General da Hokhe pede a palavra.

– Que a Clave possa decidir! Mas se este jovem vulkânico nos ofender novamente com essas contradições, sua punição será exemplar! Que a palavra passe a Martin McFerris!

– Essa é a nossa melhor chance contra Calto. Talvez seja a única. Não tenho nada a perguntar ao jovem Logan, que está claramente atormentado nesta mesa sagrada. Não tem qualquer condição de liderar a equipe. Rogo aos senhores que os melhores, e somente os melhores, sejam escolhidos para envergar o Tiwaz!

Nova balbúrdia se instala no local. Luke engole as palavras, pois sabia que só podia se manifestar se assim fosse pedido. Kadwan passa a palavra a Krul Petersen, irmão de Kal, Ian e Iuri, cavaleiros da Dokhe que cumpriram missões importantes no passado:

– Meu sobrinho renegado é um desses jovens. Ele não gosta de mim, e eu não gosto dele, mas eu o conheço. Se há alguém com sangue no olho suficiente para esse serviço, é ele. Esta Clave deve dar um voto de confiança para os desígnios de Hagalaz!

A confusão atinge o clímax, e os diálogos atravessados se tornam quase ofensas de lado a lado. Sin Kali passa a palavra para o velho Darius Agazar:

– Tem que resolver isso à moda antiga, na porrada! Alguém aí tem candidato pra surrar essa molecada? Eu tenho! E pra linha de frente do Tiwaz, porra!

O caos continua instalado, com dedos em riste, ameaças e muita gritaria. Dessa vez, o General da Dokhe tem dificuldades para retomar a palavra. Após um tempo pedindo ordem, Kadwan pede a manifestação de Jon Flanagan, da Hokhe, com quem já tinha conversado anteriormente por conta do relacionamento frustrado entre os filhos, Jules e Hanna:

– Toda essa discussão é tola se não partirmos da estratégia. Mandamos os nossos melhores homens da ativa para um confronto direto, e fracassamos! A chave para a vitória pode ser um ataque furtivo de uma equipe pequena e bem entrosada. E o Tiwaz proporciona justamente isso! Talvez seja necessário ajustar a equipe, mas alguns destes jovens têm plenas condições de superar o desafio. E eu confio em meu filho!

Pela primeira vez, os oficiais parecem concordar todos com uma manifestação. Sin Kali passa a palavra para Elena de Aquitan, que se dirige a Flanagan:

– Pois eu sugiro que a sacerdotisa Messali Mina, a única que voltou com vida da última expedição, junto com seu filho Jules, tenha a chance de merecer o Cetro do Tiwaz!

Kadwan dá a palavra para Bor Aussflag:

– Eu mesmo quero desafiar algum artilheiro do Tiwaz. Se tivermos compreendido o tal sinal corretamente, os escolhidos de Hagalaz certamente superarão os desafios. Do contrário, que seja a minha última missão pela Dokhe! E que as tripas de Calto reguem a vegetação da Terra Vélgica!

Sin Kali chama o outro Agazar para a conversa:

– E o nosso candidato para ser o “Frente” do Tiwaz é o gigante tigunar Bambu Nuseku, Pedreiro-Chefe das Terras Altas! Todos aqui conhecem sua força sobre humana!

Kadwan passa novamente a palavra a Jon Flanagan, que questiona Luke:

– Jovem Luke Logan, qual arma do Tiwaz está em seu poder?

Com a boca seca, já sentindo a necessidade de água, o Cavaleiro da Bruma responde:

– A Lança do “Frente”.

– E você por acaso é o mais indicado de seu grupo para usá-la? – Continua Flanagan:

– Acredito que devemos redistribuí-las. – Esquiva-se Luke da resposta direta, mais uma vez.

– Percebe que você não pode ser o líder desse grupo? Isso já deveria ter sido feito. – Conclui o pai de Jules.

Sin Kali então passa a palavra para Jon Tudur, que tinha se mantido quieto até aquele momento. O Arauto de Hevelgar faz uma pausa dramática e discursa:

– Não sei se todos sabem, mas essa busca pelo Tiwaz tirou a vida do meu filho. Ele e seus amigos acreditavam numa coisa que achávamos que era lenda. A lenda se tornou realidade e nos deu esperança contra os dragões. Se meu filho tivesse retornado com alguma das armas, apenas perguntaria o que ele gostaria de fazer com ela. Se seu desejo fosse ficar com ela e se juntar na luta contra os dragões, que assim fosse. Logo não me oponho a lutar ao lado desses jovens guerreiros! Obrigado a todos!

As palmas ecoam pelo ambiente. As palavras de Tudur tinham enfirm gerado o espírito de união que mantinha os velgas como um dos povos mais fortes e aguerridos de Asgaehart. Kadwan aproveita a deixa para conclamar os oficiais ao consenso:

– Temos de ouvir estes jovens! Se algum deles estiver inseguro, que ceda o lugar para os candidatos que surgiram aqui! Se ninguém quiser ceder, casamos as lutas justas para definir isso, no mano a mano!

Antes da reunião acabar, no entanto, Kreuber Dikson pede a palavra. Tendo conversado antes com o Escarlate, Luke Logan engole em seco, já temendo o pior.

– Jovem Luke Logan, você acha seus jovens companheiros inconsequentes e despreparados para lutar com um Dragão de Fogo? – Questiona Kreuber.

– Não conheço ninguém preparado para lutar com um dragão de fogo. Ninguém. Mas acredito que três de nossa equipe têm a determinação e a audácia necessária para a missão. – Responde Luke.

– Você não acha que para enfrentar um Dragão de Fogo é necessário ser um guerreiro ou mago ao mesmo tempo louco e competente, movido pela empolgação? – Insiste Kreuber.

– Empolgação? Tem que ser movido pela coragem e o sangue nos olhos como nós fizemos. Fomos atrás do que todos fizeram piadas. Ao invés de nos abater, acreditamos e buscamos sem desistir. Demos de cara com Inferon, mas não recuamos. E mesmo sem saber se era possível, fomos lá e fizemos. Pra ir nessa missão não quero ao meu lado um louco ou um empolgado, mas sim alguém com coragem e determinação e que esteja disposto a morrer caso seja necessário. – Rebate Luke.

– Senhores, eu já tinha vontade de lutar ao lado destes garotos, por toda sua ousadia e coragem. Perceber que eles não querem entregar as armas, só me faz ter ainda mais vontade de lutar ao lado deles! Com todo respeito, Senhores! Se me permitirem, quero acompanhá-los e me responsabilizar pela ida desses jovens na missão!

Luke Logan não podia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Aquele Escarlate filho da puta tinha provocado sua insegurança em relação ao grupo, e agora se manifestava de forma absolutamente contrária.

Martin McFerris pede a palavra, irritado com o populismo e demagogia de Kreuber:

– Os jovens podem ir, mas alguns deles terão que enfrentar os candidatos que foram sugeridos por esta Clave!

– O “Frente” vai ter que encarar Bambu Nuseku! – Repete Agazar.

Kadwan e Sin Kali concordam em votar a proposta, que termina sendo aclamada. O mais fraco em cada arma teria de enfrentar Messali Mina pelo Cetro, Bor Aussflag pelo Arco, e o Pedreiro-Chefe de Terras Altas pela lança.

Que os mais fortes vencessem e formassem a nova equipe do Tiwaz!

[Continua: 72. A Redivisão das Armas]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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