72. A Redivisão das Armas

72. A Redivisão das Armas
Messali Mina, ileana de Flamme e Sacerdotisa de Virgo.

[Antes: 71. O Sinal de Imperatrix?]

Assim que a reunião da Clave terminou, Luke Logan saiu aliviado do salão, encontrando-se com Jules Flanagan, Viktor Van Vossen e Gunter Kron, que aguardavam-no do lado de fora. A promoção a Gargo estava fora de cogitação, mas ele pelo menos estava saindo livre. Para Jules, ao contrário, as novidades eram muito boas. Sin Kali tinha resolvido criar uma nova insígnia, a de “Destinado” a Gargo, como se fosse uma patente-promessa, pois o jovem contava apenas 19 anos.

Quando ficaram sabendo a decisão dos oficiais, Fuscão reagiu:

– Nosso grupo quase não completou aquela missão. Você acha que essa mesma equipe conseguiria matar um dragão? Eu falei pra você que era melhor ficar em silêncio, Luke.

– E eu já tinha dito que entregaria o Cetro numa boa… – Afirma Kron.

– Temos de trocar as armas. – Sugere Jules.

– É isso. Você não tem perfil para ser o “Frente”, Luke. Pra mim, o único de nós que poderia usar aquela lança é o negão.

– Sim. Somente Angelus tem força para encarar Bambu numa Luta Velga. – Concorda Jules.

A Luta Velga, que decidiria o portador do Pique do Tiwaz, era um tipo de combate desarmado, com base em quedas, agarramentos e muita força física. Além disso, um deles teria de encarar Bor Aussflag num duelo de pontaria, e outro seria testado numa prova de concentração contra Messali Mina. Naquele momento, a lança estava com Luke, os três arcos com Angelus, Kathra e Jules, e os dois cetros com Viktor e Kron. Os quatro decidem sair dali e voltar para o pátio da ACAFAM, onde aguardariam Kathra e Angelus retornarem de seus esconderijos.

– Vou mentalizar os caras e passar as novidades. – Diz Viktor.

Assim que recebe a informação telepática de Fuscão, Kathra respira aliviado, sentindo no fundo de sua alma que a predestinação era verdadeira. Era como se o próprio Imperatrix falasse em seus ouvidos. E ele estava mesmo disposto a morrer para matar Calto. Ao mesmo tempo alegre e raivoso com a chance, o filho de Iuri solta um uivo no meio da mata:

– Auuuuuuuuuuuuu!

Do outro lado do matagal, Angelus entende o recado. Estava na hora de voltar:

– Dulu! Dulu!

Os dois então colocam novamente os braceletes e chamam os Ravens Dourados para que os levassem de volta à Academia. Quando o grupo se reencontra, no entanto, Kathra não recebe muito bem a decisão:

– Eu não vou enfrentar ninguém. Quem peidou de início é que tem de provar o mérito.

– O mais fraco em cada arma tem que encarar os outros candidatos. – Explica Jules: – E se não fizermos as trocas, nossas chances serão ainda menores.

– Eu posso ir no lugar de Luke pegar o Bambu. – Propõe Angelus.

– Como você quer o Pique, então eu concordo com a troca, Angelus. Mas quem tinha de lutar nessa porra eram os peidões. – Insiste Kathra.

– Se não fizermos a troca, Angelus terá de disputar a prova de mira contra Bor Aussflag. E Luke enfrenta o Pedreiro-Chefe na Luta Velga. Eles seriam massacrados. – Continua Jules: – Mas se fizermos, o negão pega o Bambu, e você teria de enfrentar o Gargo Gigantrix, Kathra. E aí nossas chances aumentam nas duas disputas. Eu e Viktor estamos garantidos de qualquer forma, pois sou o mais habilidoso no arco, e ele tem a melhor concentração entre nós.

Angelus aceita o argumento sem mais discussões, e troca de arma com Jules. Na verdade, já estava até animado em enfrentar o campeão do reino na Luta Velga, em que ele também era um especialista. Mas Kathra continuava revoltado:

– Agora todo mundo é valente pra cacete. “Eu vou na missão”, “Eu isso, eu aquilo”. Antes queriam entregar o Tiwaz.

– Começou a choradeira. – Reclama Luke.

– Não, só estou constatando. – Responde Kathra: – Você não disse que entregaria as armas? Sim ou não?

– Defendi ou não defendi o direito do grupo? Queria que eu mentisse? – Questiona de volta o Cavaleiro da Bruma.

– Você, Viktor e Kron disseram que aceitariam entregar as armas. – Pontua o filho de Iuri.

– Não mete essa, Kathra. Falei porra nenhuma disso. – Responde Luke.

– É mentira? Só quem disse que não aceitaria entregar fui eu e Angelus.  – Insiste Kathra.

– Tu é fujão e mimado. Tá reclamando de quê? Ser valente é diferente de ser burro. Fiz a minha parte na Clave e o otário continua reclamando. Tá de sacanagem, né? – Acusa Luke.

– Luke, pede pra cagar e sai. Você perdeu totalmente a credibilidade perante o grupo. O melhor que faria era não ir pra essa missão. – Provoca Kathra.

– Concordo. – Diz Angelus.

–  Vocês não merecem! Não tem coração! Como vão encarar um dragão?! – Exclama Kathra.

– Tu bebeu, Kathra? Ou teu negócio é reclamar sem parar? Puta que o pariu! – Reclama o Cavaleiro da Bruma.

– Vocês deixaram eu e Angelus na merda! Tinha que lutar quem queria entregar as armas antes da Clave! Mas agora quem vai lutar é justamente quem não queria abrir mão! – Acusa Kathra, revoltado: – E os peidões vão assistir de camarote!

– Qual arma você quer, chorão? Peidão é você, moleque fujão! – Rebate Luke.

– Fujão é o caralho! – Intromete-se Angelus na discussão.

– Se você achava que não estava apto, quem tinha que lutar essa porra era você! – Continua Kathra.

– Não. Eu disse que ninguém estava apto pra missão. – Explica-se Luke, antes de fazer uma proposta: – Faz o seguinte: eu luto por você. Quer? Chorão chato pra caralho. Só reclama. É só me pedir. Peidão.

– Eu tô puto porque agora vou ter que lutar no lugar de quem não fazia questão de ir com todo o coração! Não é pela luta, mas pela justiça! – Replica o jovem vulkânico.

– Fui na Clave e na única oportunidade que tive, defendi o uso das armas pela equipe. – Afirma o Cavaleiro da Bruma.

– Tinha que ter se posicionado desde o início! A equipe é essa! Acredito neles! – Diz Kathra.

– A verdade é que, pra mim, tu é hoje o menos preparado. Foi o único que não conseguiu fugir da Ilha de Fedo, e ainda entrou na porrada pra um cachorro. Foi preso e levou tapa na cara. E agora falhou na luta contra um monstro, e falhou tentando saltar as pedras. Com a maior marra do mundo, pulou no mar na frente de todos e teria virado comida de Tirapele se eu não achasse a entrada da caverna. E o pior: fugiu com medo de perder as armas! Mas mesmo assim não citei nada disso e defendi seu direito de ir também.

– Por isso eu vou lutar pelo direito de ir. Mas quem peidou não fui eu. Quem peidou e abriu mão das armas no primeiro latido foi você, Viktor e Kron. Mas agora eu vou dormir porque tenho um desafio pra encarar amanhã. Tu pode ficar até mais tarde porque não tem nada pra fazer.

– Vou chamar o Bambu pra um mano a mano agora. – Diz Angelus, ignorando o resto da discussão.

Mas ele teria de esperar até a manhã seguinte, quando os desafios já estavam marcados na área de treinamento da Academia.

Já Gunter Kron, quando conheceu sua oponente, desistiu imediatamente do desafio. Não apenas era uma feiticeira bem mais poderosa do que ele, como também era uma ruiva absurdamente gostosa. Além disso, Messali Mina já tinha encontrado Calto antes na missão fracassada, e agora poderia rastrear o dragão com muito mais facilidade. Assim como Bia Jonson, Mina também era uma sacerdotisa de Virgo, mas muito mais experiente. Podia curar, se comunicar e, em alguns casos, até mesmo dominar a mente de seres vivos. Também era uma sedutora profissional que já tinha se aproveitado de Jules Flanagan na última missão, e agora lançava seus truques amorosos para conquistar Kron e não ter de enfrentá-lo.

Além do corpo, Messali Mina tinha oferecido ensinar ao jovem agunar algumas artes da Casa de Virgo, secretamente, se voltasse da missão contra Calto. E ela também dizia que tinha certeza de que retornaria novamente, pois acreditava que o dragão se apaixonara por ela. Para finalizar a proposta irrecusável, a sacerdotisa ainda prometeu devolver a Kron o cetro do Tiwaz logo após a missão.

– Pelo bem da próxima missão, ciente das minhas capacidades atuais e com o intuito de me retirar para um treinamento focado totalmente em magia para o futuro, sinto-me na realidade moral de entregar o cetro do Tiwaz à sacerdotisa Messali Mina, para que ela execute de forma mais assertiva a missão de caça ao Calto! – Declarou Kron para os oficiais da Cavalaria, assegurando que não tinha segundas nem terceiras intenções com a desistência.

Não haveria mais disputa pela arma de “Contenção”. Viktor Van Vossen e Messali Mina teriam a missão de envergar os cetros durante a caçada.

Kron não estava mais preocupado com isso. Tinha garantido, de uma tacada só, uma noite maravilhosa e um possível futuro como mago elemental conhecedor das Artes de Virgo.

Naquela madrugada, Kathra caminhou até a Torre de Imperatrix, em Van Hal. Não havia guardas, mas ninguém subia lá sem ser convidado. As histórias davam conta de quem tinha tentado invadi-la acabava enlouquecendo. E quem tinha entrado, voltava apavorado. Seja por causa das sombras projetadas pela luz dos archotes nas paredes de pedra, que pareciam atrasar um segundo, seja pelo vento que sibilava no local, provocando uma música de fundo tenebrosa.

Observando aquela torre sombria, o filho de Iuri pensava firmemente no mago supremo, no Tiwaz e em como ele se sentia predestinado à missão que seria enviada para caçar Calto. No fundo, o vulkânico pedia uma luz de como chegar a uma vitória no desafio contra Bor.

Foi quando tateou os bolsos e encontrou um saquinho de poeira cristal. Ele nunca usava aquela merda, então devia ser coisa esquecida por Angelus. Feliz com o “sinal”, Kathra começa a rir, e exclama para si mesmo:

– Não tô falando que sou um predestinado?!

Naquele momento, já tinha decidido dar uma cafungada antes da prova. E, se perdesse, também tinha a convicção de que armaria uma tocaia para caçar Luke pelo reino.

[Continua: 73. Uma Nova Equipe]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: