73. Uma Nova Equipe

73. Uma Nova Equipe
Bambu Nuseku, tigunar, Pedreiro-Chefe das Terras Altas,

[Antes: 72. A Redivisão das Armas]

Na manhã seguinte, Kathra e Angelus estavam avaliando o uso de uma das drogas mais poderosas de Asgaehart: o estimulante conhecido como Poeira Cristal, produzido a partir de algas tóxicas encontradas em alguns pântanos do Oriente Esquecido.

Altamente viciante, o composto era capaz de conferir força, habilidade e sensibilidade extraordinárias em um período de 24 horas, seguido por uma ressaca violenta, que deixava o usuário absolutamente prostrado, incapacitado para qualquer ação, por um tempo equivalente. A única forma de evitá-la era consumir mais uma dose, o que resultava em um problema maior: quem assim fizesse, tornava-se imediatamente dependente de cargas diárias da substância, ou do contrário definharia até morrer. Ainda assim, os viciados não duravam muito, pois o consumo regular também causava a morte, seja através de um comportamento suicida característico, ou pelo comprometimento do coração, que inchava até literalmente explodir, quase sempre em menos de um ano do início de uso.

Eram pouquíssimas as pessoas que conseguiam fazer um uso consciente da Poeira Cristal, em situações extremas, guardando um enorme espaço de tempo entre as doses para evitar o vício. Há cerca de dois anos, Niuton McFerris tinha usado o composto para fugir da Ilha de Fedo, e Angelus Gigan também já experimentara a substância há algum tempo. O Cavaleiro Escarlate Kreuber Dikson era outro que sempre levava algumas doses para casos de emergência. Kathra, ao contrário, nunca tinha tomado, mas sentia que agora era o momento.

– Vou tomar logo duas doses. – Disse Angelus.

Aquela era a dose máxima, resultando no dobro de poder estimulante, também por 24 horas. Mas o vício era quase certo, e os efeitos colaterais imprevisíveis, podendo se arrastar por mais de uma semana. Já tinham ocorrido casos em que um sujeito tomou três ou quatro doses, que resultavam num curtíssimo período de super força, mas todos tinham morrido poucos minutos depois. Aquela substância estava longe de ser uma brincadeira recreativa.

Angelus Gigan era um tigunar imenso, com mais de dois metros de altura e extremamente forte. Mas seu oponente era um verdadeiro colosso. O Pedreiro-Chefe das Terras Altas tinha mais de dois metros e meio de altura, corpo sem gordura nenhuma trabalhado em obras pesadas, uma envergadura absurda e olhos sempre vermelhos. Mas com duas doses de Poeira Cristal certamente o filho de Vandu iria para a luta em igualdade de condições.

– Eu também vou tomar duas. – Disse Kathra, convicto: – Pra mim é uma luta pelo destino!

O filho de Iuri Petersen, de raça vulkânica, também era um sujeito grande e muito forte, com quase um metro e noventa de altura e mais de cem quilos. No desafio, iria enfrentar o velho Bor Aussflag, um arqueiro muito experiente, com proezas de tiro cantadas em verso e prosa pelos reinos velgas. Se duas doses não fossem capazes de igualar a disputa, pelo menos iriam conferir algum equilíbrio à prova, com chances reais para Kathra.

Os dois amigos cheiram a mesma quantidade, poucos minutos antes do desafio. Se Angelus, mais experiente no uso, ainda podia ter alguma esperança de evitar o vício, o mesmo não se podia dizer de Kathra, que imediatamente começou a espumar pela boca e a se tremer todo, com movimentos involuntários da mandíbula que eram conhecidos pelos viciados como “morder a orelha”. Ou seja, em 24 horas o filho de Iuri cairia em uma ressaca monstruosa que podia durar dias. Se vencesse a prova contra Bor, teria de tomar mais uma dose se quisesse ir à missão. Seu destino estava de fato selado.

A Luta Velga seria o primeiro desafio. O objetivo era apagar o adversário. Também valia quebrar braços e pernas para facilitar a vitória, mas não havia desistência. Não havia público. Apenas os competidores e oficiais mais graduados tinham o direito de assistir às provas. Quicando de um lado para o outro movido pela Poeira Cristal, o filho de Vandu encarava seu rival com ódio.

Logo de cara, o Pedreiro-Chefe das Terras Altas consegue uma queda dura e passa a guarda de Angelus, que se defende como pode. Com um movimento rápido, Bambu consegue a montada, mas o filho de Vandu usa a técnica para explodir e repor a meia guarda logo em seguida, medindo forças com o rival de braços gigantescos. Após mais algum tempo resistindo por baixo, Angelus consegue repor a guarda e amarrar a luta, começando a cansar o adversário. Aproveitando um vacilo do oponente, o filho de Vandu cata as costas de Bambu e passa os ganchos. Tentando escapar na grosseria, o Pedreiro acaba oferecendo o pescoço. Angelus então aperta a goela do sujeito com toda a força, cana do braço encaixada.

Debatendo-se com muita energia, Bambu respirava por um fio de ar. O filho de Vandu então aplica ainda mais força, e demorou um tempo para que o corpo gigantesco e esguio do tigunar de Terras Altas estivesse enfim estirado no chão, completamente inconsciente. Angelus tinha confirmado sua posição como “Frente” do Tiwaz!

– Eu sou Angelus Gigan! – Grita o filho de Vandu, mordendo a orelha: – O número um dessa porra!

Angelus aguarda Bambu recobrar a consciência e cumprimenta o Pedreiro-Chefe das Terras Altas pela luta.

– Mandou muito bem, Gigan. – Elogia Jon Tudur, que assistia ao combate.

– Obrigado pelo reconhecimento. – Diz Angelus, enquanto confraternizava com seus jovens amigos, mas ignorando Luke Logan.

– Se alguém tem alguma diferença comigo a hora de acertar é essa. – Desafia Luke: – Qual vai ser?

– Bundão… – Menospreza Angelus.

– Nego fujão… É mentira? – Continua o Cavaleiro da Bruma, muito puto.

– What? – Questiona o filho de Vandu.

Como Kathra ainda não tinha aparecido na área de treinos, Fuscão provoca:

– Cadê Kathra o amarelão?

– Se nego que vai na missao ficar falando mal do Khatra eu não vou entender legal não. – Defende Angelus: – Melhor deixar o cara.

– Estou pronto. Vamos para a prova! – Surge o filho de Iuri, tentando controlar os tiques provocados pela Poeira Cristal: – E Luke não merece estar nessa equipe! Com ele não falo mais. Não o reconheço como nada, muito menos como líder.

Kathra olha para Bor Aussflag e mal consegue disfarçar o ódio produzido pela droga em suas entranhas. Tinha pensado em largar um pranchadão na cara do Gargo Gigantrix e resolver aquela porra no braço, mas aí já seria loucura que nem a Poeira Cristal justificaria.

Entre os artilheiros, a prova seria de tiro com arco montado no cavalo. Com alvos cada vez mais distantes em cada rodada, os competidores teriam três chances para acertar uma flecha enquanto cavalgavam pela linha de tiro. Quem errasse estaria fora. Acertar pelo menos uma flecha garantiria a passagem para o alvo seguinte. Se os dois falhassem na mesma distância, ganharia quem tivesse acertado mais flechas no total.

Bor Aussflag, cheio de marra, pergunta a Katra se ele queria começar o circuito.

– Os mais velhos primeiro. – Responde Kathra, assoando um pouco de sangue que escorria pelo nariz.

O velho oficial então sai cavalgando e começa a atirar, mas só acerta a última flecha, na mosca. Kathra sai logo em seguida e consegue dois acertos. Ambos passam para o segundo alvo, mais distante, com Kathra na liderança, por um ponto. Julgando-se predestinado, o filho de Iuri continua com o pensamento fixo em Imperatrix.

Bor recomeça o circuito e mais uma vez acerta a última tentativa, na mosca. Dessa vez, Kathra tem o mesmo desempenho do oficial, cravando apenas a terceira flecha. Os dois seguem para a próxima distância, com o jovem vulkânico ainda na frente da pontuação, o que deixa o Gargo Gigantrix preocupado. A dificuldade agora já era considerável, com o alvo a mais de 60 metros.

O oficial da Dokhe tenta a primeira, a segunda e a terceira flecha, mas erra!

– Porra! – Grita Angelus comemorando, pois o amigo tinha vencido o desafio.

À frente na pontuação, Kathra não precisaria mais atirar. Mas o jovem vulkânico seguia turbinado pelo pó, com intenção de humilhar o velho, e acaba errando as três tentativas. Ainda assim, tinha ganhado por uma flechada. Sem desmontar do cavalo, o filho de Iuri para em frente aos oficiais, trincado de poeira cristal, e declama em alto e bom som:

– Caros companheiros! Depois do ocorrido peço a todos que avaliem a condição de Luke! Ele claramente não conhece sua equipe e toda a realidade que temos aqui! Ele não conseguiu decifrar a vontade divina, mesmo estando claro à sua frente! Assim, peço que Luke seja também desafiado e que prove merecer estar entre nós!

– Ihhhhhh! – Atiça Angelus.

– Ohhhhh! – Exclamam os oficiais, surpresos com a impertinência do jovem guerreiro.

Os dois generais se entreolham, pois não tinha sido aquilo que a Clave decidiu. Mas Kathra continuava discursando, agora apontando para Bor Aussflag:

– Em minhas condições normais não teria como vencer tão bravo guerreiro! Mas não luto sozinho! Estou predestinado a essa missão! E esse palerma não conseguiu entender isso! Peço a avaliação de Luke! Assim como eu e Angelus tivemos que provar nosso valor!

– Mas o que Luke Logan acha deste desafio? – Questiona Bor, desconfortável: – Se ele não aceitar, não quero desafiar a decisão da Clave!

– Ihhhhhh! – Atiça Angelus.

– Agora. – Diz Luke, aceitando o desafio, antes de olhar para Kathra e provocar: – Bucha!

Bor questiona Luke se ele estava certo daquilo. Mas o cavaleiro da Bruma nem responde, preferindo continuar a botar fogo em sua richa contra Kathra:

– Já deixo outro desafio aqui: mano a mano eu e ele. Quem perder nunca mais aparece no reino! Não me importo em lutar contra um viciado de merda. Não aprendeu nada o que Vandu tentou te ensinar! Que pena.

– Não encosta no moleque não! – Intromete-se Angelus.

– Quem quiser tô aqui. Só vir pra dentro. É muita falação e pouca atitude. – Responde Luke.

Angelus tenta partir para a briga, mas é impedido pelos oficiais, que afastam os brigões. O filho de Vandu resolve deixar a área de treinamento. Aquele novo desafio não teria vez. Enquanto isso, Kreuber Dikson saboreava uma golada de seu cantil de rum, satisfeito com o desenrolar dos acontecimentos. O negócio agora estava animado com a quebra do protocolo.

– Tá muito nervoso, Luke… – Debocha o Cavaleiro Escarlate.

Uma grande discussão toma conta do recinto. Kadwan de Darklands questiona Luke sobre o desafio contra Bor Aussflag. Ele ressalta que o vulkânico não precisaria aceitá-lo, pois não foi o que a Clave decidiu, mas o proíbe de fazer outros desafios.

– Tô dentro, já disse. – Confirma Luke.

A contragosto, os generais aceitam a proposta de Kathra, e Bor Aussflag parte para sua nova tentativa na primeira distância. Mais uma vez, o velho Gargo Gigantrix acerta apenas a última flecha. Luke cavalga para a linha de tiro, mas só acerta a primeira flecha. Empate na primeira rodada. Nervoso, Bor acaba errando todas as tentativas no segundo alvo, mas Luke também não se sai melhor. Os dois continuam em mais uma rodada na mesma distância, e ambos erram todas as flechas novamente. Na quarta tentativa, o resultado ruim se repete, fazendo com que os generais já questionassem a validade do desfaio.

Mas, na quinta rodada, Bor Aussflag acaba cravando duas setas na mosca, e Luke acerta uma! Os dois enfim passam para o terceiro alvo, com Bor à frente por um ponto. O Gargo Gigantrix parte em seu cavalo, concentrado, mas erra todas as flechas. Luke Logan segue para suas tentativas, e também erra! Dessa vez, não havia mais empate. Bor era o vencedor.

Triste, Luke entrega seus braceletes e o arco do Tiwaz para o oficial da Dokhe:

– Boa sorte.

– Porra Luke! Sacanagem. Ele merece. – “Lamenta” Kreuber.

– Eu disse. Querem brincar com a vontade do divino… – Ironiza Kathra.

O Cavaleiro da Bruma então para na frente do filho de Iuri, e questiona:

– Ainda tem alguma diferença para tirar comigo?

– Não. O que queria provar já está provado. Boa sorte como entregador. – Debocha Kathra.

– Peidão. – Responde Luke, se retirando do local.

– Meninos, não briguem. – Contemporiza Kreuber.

Fora da área de treinamento, Angelus Gigan procura Luke para cumprimentá-lo com um aperto de mão:

– Foi mal, cara.

Enquanto isso, Kathra já se preocupava em comprar mais algumas doses de Poeira Cristal para seguir na missão, mas Kreuber o tranquiliza:

– Relaxa. Eu sempre tenho.

A nova equipe do Tiwaz estava formada: Angelus Gigan na “Frente”, Kathra, Jules Flanagan e Bor Aussflag como “Artilheiros”, e Viktor Van Vossen e Messali Mina na “Contenção”.

Reforçados pelos dois arautos, Jon Tudur, o Cavaleiro de Hevelgar, e Kreuber Dikson, o Cavaleiro Escarlate, eles formavam o time que logo sairia para emboscar Calto.

[Continua: 74. Plano Arriscado]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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