74. Plano Arriscado

74. Plano Arriscado
Kadwan den Darklands, General da Dokhe.

[Antes: 73. Uma Nova Equipe]

Kadwan den Darklands, general da Dokhe, tinha reservado uma sala especial da cavalaria para que o grupo escolhido pudesse planejar o ataque a Calto. Seria uma reunião absolutamente secreta, para que não houvesse qualquer chance de vazamento da estratégia. Para tanto, nem ele mesmo conheceria o plano da equipe. Na condição de Gargo Gigantrix e líder militar do Condado de Aussflag, o vilando Bor assumia a liderança do grupo.

– A Clave confia em você, Bor. Conduza esses meninos à vitória! – Afirma Kadwan, dando um forte abraço em um de seus principais colaboradores.

Na noite anterior aos desafios, Viktor Van Vossen teve um sonho com Imperatrix. Era bem comum que o mago supremo usasse este expediente para se comunicar com as pessoas, e ninguém era otário de fingir que tinha recebido uma mensagem onírica do mestre. Nas poucas vezes em que isso aconteceu, o velho mago logo apareceu de verdade para o mentiroso, mas na forma de pesadelos terríveis que deixavam marcas profundas.

No sonho de Fuscão, ele subia a Torre de Imperatrix em Van Hal e pegava uma daquelas caixinhas da Aurora da Morte. Uma especial. O mago supremo tinha depositado lá o maior dos fragmentos dos Cristais de Kali. Se os demais portadores levavam uma carga de energia infernal potencialmente capaz de desintegrar todas as pessoas de um castelo, ou de um galeão, a caixinha de Viktor tinha o dobro daquele poder. O que representava também o dobro do perigo, pois assim que ativada era impossível prever a forma em que a Aurora se expandiria, em todas as direções, em velocidade quase instantânea. De longe, era um brilho etéreo, multicolorido, lindo. De perto, era o inferno na terra, mortal e avassalador.

Com 18 anos incompletos, Viktor Van Vossen se tornava o mais jovem portador da energia infernal, e logo a mais devastadora. Somente magos como ele tinham o conhecimento capaz de operar o mecanismo de tempo para acionamento da Aurora, o que a transformava em uma espécie de bomba relógio. Na posse de guerreiros, era uma arma suicida.

No fim do sonho, assim que Fuscão tomava posse da caixinha, o próprio mestre aparecia na torre e se pronunciava sobre os cristais encontrados com as armas do Tiwaz.

– A profecia diz que os Cristais de Xart representam o apogeu e a ruína dos velgas. A glória mais absoluta… E a destruição mais irreversível.

Naquele momento, Viktor olhava para os cristais encrustados no cetro do Tiwaz em suas mãos, e percebia que o mestre dos mestres também parecia manipular um deles. Solene, Imperatrix concluiria seu discurso, encerrando abruptamente o sonho:

– São um poder ainda mais perigoso do que a Aurora, justamente porque são de fácil manipulação. Por isso, vão revolucionar toda uma geração, para o bem… e para o mal.

No dia seguinte, logo após assistir às vitórias de Angelus, Kathra e Bor, Fuscão tomou coragem para subir a torre de Imperatrix e encontrou a caixinha no lugar onde deveria estar. Agora ele estava pronto para se reunir à equipe, que naquele momento já estava reunida para traçar o plano de caça ao dragão de fogo.

Entusiasmado com a vitória no desafio e com a derrota de Luke, e motivado pelo pó, Kathra parecia mais preocupado em cortejar Messali Mina. Depois que escutou Jules falando das habilidades sexuais da feiticeira Ileana, o vulkânico não conseguia parar de pensar nisso. Mina, no entanto, estava realmente comprometida naquele momento com um de seus amigos, Gunter Kron, que tinha cedido a ela o cetro do Tiwaz.

Por uma estranha coincidência, a equipe do Tiwaz agora era formada por um humano de cada raça mais conhecida nos reinos da Terra Vélgica, exatamente como nas histórias que os sacerdotes decifraram no Templo da Chapada de Hill, ocorridas no milênio anterior. Os seis eram exatamente um velga (Jules), um vilando (Bor), uma Ileana (Mina), um gaulês (Viktor), um vulkânico (Kathra) e um tigunar (Angelus). Faltavam as duas “Pontes”, que nas histórias do templo tinham sido envergadas por um agunar e um vrúngio. Apenas a raça alamana, a principal inimiga dos velgas, não tinha um representante no grupo lendário.

– Podemos levar mais um mago e um guerreiro como reservas? – Sugeriu Viktor.

– Não. – Esclarece Jules: Dessa vez, a Clave decidiu enviar uma equipe pequena, rápida e contundente.

– A ação contra Calto tem que ser rápida. Entre o momento em que ele nos perceber, e o momento de atacá-lo, cada segundo a mais favorece o dragão. – Diz Mina.

– Tem que ser uma tocaia. Atacar de preferência sem nem ser percebido. – Diz Kathra.

– Sim, temos que chegar o mais próximo possível, em local propício para encurralá-lo. – Diz Jules.

– Tem algum cânion para onde seja possível atraírmos Calto? – Questiona Kathra.

– Talvez os desfiladeiros de Kling ou de Aden… – Responde Jules.

– Boa ideia. Mas temos que pensar em como levá-lo até lá. Pode ajudar nisso, Mina? – Pergunta o filho de Iuri, mordendo a orelha.

A feiticeira apenas olha. Servir de isca para um dragão era trabalho muito perigoso.

– A qual distância os dragões podem lançar aquelas bolas de fogo? – Pergunta Bor.

– Vi Calto lançar uma rajada a 500 metros… – Responde Jules, deixando todos assustados.

– O Escarlate tem que arremessar a espada no olho do dragão. Pelo menos já deixa Calto caolho. – Sugere Kathra: – Com uma cabeça gigante daquela ele só vai conseguir enxergar do lado do olho bom.

– Não vamos esquecer que Dragões de Fogo são hiper inteligentes, e podem ler nossas mentes e emoções. Eles sentem nossa temperatura, nosso batimento cardíaco, nosso cheiro e nossas intenções. Vazar um olho é quase nada. – Lembra Jules.

– Porra… – Resmunga Kreuber.

– Entendi. Não vai fazer muita diferença. – Admite Kathra.

– Talvez seja melhor acertar a 23ª vértebra… Para impedi-lo de soltar o fogo. – Diz Bor.

– Mas como deixar Kreuber próximo o bastante? – Questiona Jules.

– Pior ainda: só vou poder arremessar uma vez. A Espada Escarlate não é bumerangue, nem um dos martelos perdidos do Tiwaz.  – Ressalta o Escarlate.

– Tive uma ideia: vamos atraí-lo para o desfiladeiro e fuder as asas dele. – Diz Angelus.

– Sim. Se conseguirmos acabar com sua capacidade de voo, pode ser uma vantagem importante. – Concorda Kathra.

– Com certeza. Isso seria por conta da nossa artilharia. – Responde Bor.

– A artilharia precisa dar rajadas nas asas para prejudicar seu voo. – Complementa o filho de Iuri: – Mas ele deve ser quase tão ágil no chão quanto voando.

– Tanto faz. O bicho tem quase 30 metros de altura. Cada pisão dele fode tudo. – Afirma Bor.

– Temos de atraí-lo para uma canaleta, limitando seus movimentos com os poderes do cetro, de forma que o Frente possa arremessar a lança no coração da fera. – Sugere Jules.

Após realizarem um teste com o estandarte de Mina, os sacerdotes constataram que os cetros emitiam um pulso circular constante que se propagava pelo ar, visível como uma luz dourada. Este pulso se projetava num raio de cerca de 500 metros e durava um minuto a cada Xart consumido, capaz de atordoar um dragão ou impedi-lo de atravessá-lo.

– Sim, podemos usar os estandartes depois que ele estiver no nosso raio de ação. – Diz Bor.

– Sem as Pontes do Tiwaz, os Artilheiros terão de atrair Calto para que possamos encurralá-lo. Vai morrer gente fazendo isso. – Afirma Jules: – Precisaremos de iscas sucessivas, e o resto da equipe já preparada em seus postos para dar continuidade ao plano.

– Se ele chegar ao desfiladeiro, podemos fazer um ataque simultâneo. – Sugere Bor.

– Mas a questão é justamente COMO levá-lo até lá. Acho que um artilheiro têm que se infiltrar no covil de Calto e conduzi-lo na direção do desfiladeiro o mais longe que puder. – Continua Jules: – Quando o primeiro cair, os demais continuam servindo de isca. Apenas os dois arautos, o Frente e a Contenção ficariam no local da tocaia, para o ataque final.

– Qual de nós artilheiros tem a melhor habilidade de voo? – Pergunta Kathra.

– Eu e Bor. – Responde Jules.

– Por que Mina não atrai Calto? – Indaga Bor.

– Se eu tentar atraí-lo, ele descobrirá o nosso plano. Ele tem de acreditar que está nos perseguindo. E vamos torcer para que não use magia para ler os pensamentos dos artilheiros… – Diz Mina, concluindo: – Assim que eu sentir sua presença, farei de tudo para distraí-lo, para que ele não tente localizar o resto da equipe.

– E a energia infernal? – Questiona Kreuber.

– Usaríamos no ataque final se Angelus falhasse. – Diz Bor.

– Sim, em último caso. – Concorda Viktor.

– Acho que o Escarlate tem de ser uma das iscas. O que acha, Kreuber? – Sugere Kathra.

– Não. O Escarlate tem que chegar por trás de Calto, para acertar a vértebra. – Argumenta Bor.

– Por mim está bem. Mas gosto mais da ideia de Jules e Bor. – Diz o Escarlate.

– Se colocarmos Kreuber perto de Calto, teremos garantido pelo menos um tiro. Não podemos correr o risco de perdê-lo como isca. – Insiste Jules, cada vez mais demonstrando seu espírito de liderança.

– Eu posso ser uma das iscas. Kreuber não vai ser uma delas. – Afirma o Gargo Gigantrix.

– Eu também. – Diz Jules, esticando um mapa sobre a mesa: – O covil de Calto fica nesse ponto bem ao norte dos Piktos Orientais. Os desfiladeiros de Kling, perto do Condado de Aussflag, ficam a mais de vinte quilômetros de lá.

– Não serve. – Descarta Bor.

– Já o Desfiladeiro de Aden é mais próximo, a menos de dez quilômetros do covil, e perfeito para emboscadas. Largura de 80 a 100 metros, com muitas reentrâncias laterais para camuflar a equipe que ficará de tocaia. – Indica Jules.

– Temos de pegá-lo em Aden. Mas precisamos melhorar a estratégia das iscas. – Diz Bor.

– Sugiro seguir o plano de Jules. – Diz Kreuber.

– A dois quilômetros de distância, Calto pode nos sentir. E a 500 metros, ele solta suas bolas de fogo, a uma velocidade impressionante. Sem falar que o dragão voa mais rápido que qualquer um dos nossos Ravens. – Explica o Destinado: – Vamos precisar de três ou quatro iscas para levá-lo até o desfiladeiro. E cada uma delas terá de mantê-lo no rumo por dois ou três quilômetros…

– As iscas têm que ficar em pontos estratégicos. – Diz Kathra.

– Sim, quando sentir as armas, Calto vai querer exterminar o Tiwaz. – Diz Jules.

– Porra! Se é pra voar pela vida e tentar trazê-lo no papel isca, para que servirão os nossos arcos? Quem aqui vai atirar pra trás em pleno voo, com Calto no encalço? – Pergunta Kathra, rindo de nervoso com a situação.

– Se tivéssemos as Pontes, seria diferente. É um improviso. – Contraargumenta Flanagan.

– Eu me disponho a ser a última isca. Até porque sou o mais fraco no voo. – Aceita o filho de Iuri.

– Se formos só eu, Bor e Kathra de iscas, cada um vai ter de aguentar mais de 3 quilômetros fugindo. – Diz Jules.

– Posso ser uma isca também. Se o dragão arremessar uma bola de fogo, posso tentar me defender. – Diz Jon Tudur, que estava calado até então.

– Se Tudur dividir conosco essa missão, cada um precisa manter Calto na rota durante pouco mais de dois quilômetros. – Explica Jules, mais confiante.

– Temos que fazer o Calto engolir quem estiver com a energia infernal, e desintegrá-lo por dentro. – Sugere Tudur.

– Ele sentiria o cheiro das Lágrimas de Sol. – Discorda Jules.

– Ainda acho que Kreuber, Tudur e mais um artilheiro do Tiwaz deveriam ser as iscas.  O resto ficaria posicionado no desfiladeiro para atirar nas asas e dar apoio ao golpe final. – Insiste Kathra.

– Quando o primeiro artilheiro aparecer atacando pela lateral, Calto vai se ligar na tocaia. Ele precisa acreditar que o fugitivo está tentando se esconder pelo desfiladeiro, com medo. – Replica Jules: – Assim que ele entrar ali, o pessoal da contenção tem de fechar as saídas e nós realizamos o ataque final. E Viktor tem de ficar próximo ao Frente, pois está levando a Aurora.

– De acordo. Mina fechará a entrada. – Diz Fuscão.

– Serei a primeira isca, meus jovens. – Informa Bor.

– E eu serei o segundo. De onde você parar, eu continuo, meu capitão. – Completa Jules.

– Esse plano tem de ser muito bem estudado. É o plano de nossas vidas. – Afirma Kreuber.

– O plano está bom. Mas acho que só Tudur vai voltar com vida. Ele sempre volta. – Diz Angelus.

– Acho mais fácil eu encontrar com meu filho. – Diz Tudur: – Que seja pelo menos com a missão bem sucedida.

– Preparem as covas. – Diz Bor, fazendo uma última piada com a situação: – Especialmente quem tá indo como isca. Hahahaha!

[Continua: 75. Tocaia para Calto]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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