76. Uma Nova Era

76. Uma Nova Era
Dokhe e Hokhe reunidas nos arredores do Desfiladeiro de Aden.

[Antes: 75. Tocaia para Calto]

Messali Mina não estava acreditando no que acabara de presenciar, observando a tudo do alto do Desfiladeiro de Aden. Calto, o temido Dragão de Fogo, estava morto. A missão enviada pela Clave tinha sido bem sucedida, para alívio do povo velga.

O custo, como de costume, era bem alto. Sete guerreiros tinham sucumbido: os dois arautos: Jon Tudur, Cavaleiro de Hevelgar, e Kreuber Dikson, Cavaleiro Escarlate; mais quatro integrantes do Tiwaz: o Frente Angelus Gigan, os Artilheiros Bor Aussflag e Kathra, e o mago atuando na Contenção, Viktor Van Vossen. Por último, a grande surpresa da batalha: Luke Logan tinha aparecido em um momento decisivo para ajudar Angelus a acertar Calto, e também morreu desintegrado pela Aurora da Morte.

Em outra coincidência, somente Jules Flanagan e Messali Mina, que já tinham sobrevivido à primeira missão fracassada de caça ao dragão, estavam vivos para contar a história. Devido ao elo mental, puderam testemunhar todos os detalhes do combate, ainda que Jules estivesse a quilômetros dali, sofrendo com muitos ossos quebrados após cair de seu Raven. Entre os animais alados, somente o espécime de Mina escapou com vida. Do Tiwaz, os arcos de Bor e  Jules tinham sido destruídos por baforadas de Calto, mas as armas sagradas dos arautos estavam caídas por ali, junto com a lança de Angelus, o arco de Kathra e o cetro de Viktor. Como a energia infernal não deixava corpos, não haveria enterros. Incinerado pelo bafo do dragão, os restos de Bor Aussflag também tinham virado apenas cinzas ao vento. O único porém, pensava Mina, é que também não havia sobrado nenhuma parte de Calto como troféu daquele dia glorioso.

Como previra o mago supremo, a Aurora da Morte entregue a Viktor tinha sido fundamental para a destruição de Calto, mas o dragão só pode ser encurralado devido ao uso estratégico do Tiwaz e do poder dos arautos, que minaram todas as forças da fera gigantesca. Aquele grupo entraria para a História de Asgaehart. Kathra de fato era um predestinado: cumpriu seu destino e morreu em paz. Envenenado com Poeira Cristal, mas em paz. O filho de Iuri inclusive tinha deixado uma carta testamento antes de partir para a missão. Nela, escreveu que queria que seus filhos fossem criados com a mesma educação que ele recebeu, e que entrassem para a Academia assim que começassem a andar. O problema, no entanto, é que Kathra tinha renegado toda a família. O único conhecido que poderia fazer cumprir, pelo menos em parte, seus últimos desejos, era Madox Heineken. O caçador de Darklands, no entanto, agora era um rico conselheiro do futuro rei, e quase sempre tinha coisa melhor pra fazer.

Quanto a Angelus, enfim tinha “pegado Calto”, como sempre sonhara.

Kreuber Dikson e Jon Tudur entrariam para as lendas como os dois únicos guerreiros que tinham feito da parte das missões contra Zama e Calto. Matar dois Dragões de Fogo não era algo nada comum nos currículos daquele tempo. Se o nobre cavaleiro oriundo de Viktoria tinha sempre aspirado a se tornar um mito, conseguira seu objetivo com honras e o alto custo de não deixar nenhum herdeiro. Mas a história do campeão da Hokhe de Terras Altas era uma verdadeira comédia de erros: de cavaleiro temido pela malícia com que roubava os pertences de suas vítimas, frequentador de tabernas e puteiros baratos, tinha se tornado um glorioso Cavaleiro Escarlate, um vagabundo com passe livre nas cortes mais altas do continente.

Devido ao sacrifício daqueles heróis, a Terra Vélgica era agora a única região de Asgaehart que não tinha um Dragão de Fogo se autoproclamando como dono. E aquela seria uma vantagem enorme para os velgas na década seguinte.

Os três Dragões Cardeais restantes logo sentiram a morte de seu irmão Calto. Naquele momento, Inferon, Gorgon e Malboro já tinham conhecimento da volta do Tiwaz. Se, por um lado, eles sabiam que alguns humanos agora tinham armas poderosas para enfrentá-los, também não perderiam a chance de tomá-las ou destruí-las se tivessem oportunidade. Para eles, Calto tinha pagado o preço por ser o mais imprudente e o menos inteligente dos três. Em cada um de seus territórios, eles jamais cairiam numa emboscada como aquela.

Montada em seu Raven Dourado, Messali Mina voou até onde Jules a aguardava. Incapacitado por fraturas, o mais jovem herói dos velgas tinha sobrevivido por milagre. Quando os dois decolaram rumo ao poente, de volta para casa, puderam observar que os generais das duas cavalarias, Sin Kali e Kadwan den Darklands, tinham conduzido suas tropas até os arredores do desfiladeiro. Caso falhassem, eles estaria ali para a luta derradeira contra o dragão.

Olhando para a montanha tomada pelos guerreiros da Tetrarquia Velga, Jules Flanagan teve uma premonição. Unidas de fato, aquelas tropas seriam a força mais poderosa de toda Asgaehart. Um exército de todas as raças e religiões. Um exército imperial.

***

Em algum lugar desconhecido, Vitiferralis gargalhava como um louco após tomar conhecimento da morte de Calto. Seus antigos aliados velgas eram um povo realmente resiliente. Admirável até. Tão admirável que dava vontade de guardar alguns deles para si. Para sempre.

[Continua…]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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