77. Zekinwas e seu Pai

77. Zekinwas e seu Pai
Zekinwas, tigunar de Joy Divile, Vélite da Cavalaria.

[Antes: 76. Uma Nova Era]

536 cl.

Seis anos após a morte de Calto, a região conhecida como Terra Vélgica tinha atraído a migração de muitos humanos, fugitivos de locais ameaçados pelos três Dragões Cardeais que restaram. No caso de Malboro, a ameaça era mais remota, pois o dragão concentrava sua atenção no Império Vrúngio, onde era venerado como um deus, chegando no máximo a aterrorizar as regiões a oeste do Fiorde Ocidental, exigindo sacrifícios de Klinwater e travando batalhas terríveis contra os Rubros. Gorgon tinha devastado a Ilha de Nibel, agora chamada de Ilha da Morte, e vez ou outra exigia o pagamento de pesados tributos a Cibel, Gaules, Citroya e toda a costa norte de Asgaehart, de Horion a Havilan.

Mas ao sul as coisas estavam bem piores. Inferon não fazia acordos, não queria escravos nem tributos. Deixava uma marca horrível de destruição por onde passava, o que praticamente extinguiu os povoados do Oriente, cada vez mais Esquecido. A maioria dos habitantes dos povoados locais preferiu migrar para o norte. Somente os reinos de Gri Bavar, Rassan e Runa tinham alguma chance de defesa contra o violentíssimo Dragão do Sul, que também demonstrava grande prazer em caçar gigantes para saciar sua fome imortal.

A chegada de novos colonizadores representou um grande desenvolvimento para a região compreendida entre a Muralha de Azrael, os mares do norte e o Mar de Hill, especialmente nos vales do Rio Celtik e Hevan. Como não poderia deixar de ser, isso atraiu a cobiça dos governantes, que lutavam pelo direito de cobrar impostos de cada pedaço de terra. O Reino de Viktoria, enfraquecido após as invasões bárbaras de duas décadas atrás, e enfrentando uma séria questão dinástica, não conseguia manter sua histórica hegemonia sobre a região. O Rei Vortimer De Gris tinha morrido há oito anos, e parte da nobreza não aceitava o jovem alamano Ighan Pendragon, filho da Princesa Anni com o Príncipe de Saravessa, como novo rei, o que significaria uma mudança da casa dinástica no poder.

Com isso, sucederam-se conflitos nas áreas fronteiriças entre os reinos da Tetrarquia (Van Hal, Terras Altas, Darklands e Aquitan) e o poder bárbaro em Saravessa. Especialmente o triângulo entre Joy Divile, Shyne e Yaztrik tinha se tornado um grande vespeiro, após a instalação de postos conjuntos da Dokhe e da Hokhe na região. Foi naquela região, aliás, que pobres guerreiros de baixíssima patente começaram a arrumar as confusões que dariam origem a uma grande guerra, provando que Asgaehart não era palco apenas para grandes heróis, mas também para toda a sorte de vagabundos e reles soldados que não tinham onde cair mortos.

Um desses soldados era o mal criado Zekinwas, que assim como Vandu tinha sido um mercenário tigunar contratado pelos velgas para lutar nas defesas de alguma cidadela ameaçada. Neste caso, em Joy Divile. Zekinwas também era conhecido nas tabernas por beber e arrumar confusão, lutando sempre com o gargalo de garrafas quebradas, sendo conhecido por conta disso como “O Garrafeiro”. Após alguns anos de serviço, o tigunar tinha sido promovido a Vélite e trazido toda a sua família de um povoado ao norte de Runa para a Terra Vélgica. O que terminou por resultar em uma situação inusitada: o pai de Zekinwas, Dinwo, também tinha se alistado na cavalaria mas tinha uma patente inferior a do filho, sendo um reles Aprendiz. Assim, no posto de observação onde davam serviço, Dinwo recebia ordens do filho, muito mais conceituado.

O conceito de Zekinwas, aliás, tinha sido adquido muito por conta de sua atuação paralela como traficante de Poeira Cristal, que ele trazia de conhecidos no Oriente Esquecido, numa época em que diversas rotas tinham se fechado. Além disso, também era um bom olheiro trabalhando, junto com o pai, em pontos estratégicos da fronteira de Joy Divile, onde tinha participado com sucesso de algumas batalhas sangrentas, sempre na linha de frente.

Ao contrário do filho, Dinwo era bem mais preguiçoso, apesar de viciado em Poeira Cristal. Com sua aparência estranha, que misturava elementos joviais com as marcas típicas da meia idade, era conhecido no exército de Joy Divile como “O Velho Moleque”. Também costumava trabalhar de olheiro, em posições ainda mais adiantadas que o filho, e se notabilizou por conseguir várias fugas espetaculares para dar avisos sobre as forças inimigas.

Quando não tinham nada para fazer, Zekinwas cheirava o pó junto com o pai e passava o dia insistindo para que os companheiros de posto o acompanhassem em incursões pelo território ocupado pelos rivais. Mas ninguém dava muita atenção para aquilo, especialmente Dinwo, que sempre pedia para que o filho se tranquilizasse. Muito por conta desses arroubos, havia um dos guardas que não gostava nada de Zekinwas. Era um vilando obeso, com quase 200kg, de apecto repugnante, com diversas verrugas na pele e linhas pretas de sebo marcando o corpo.

– Essas garrafas que tu anda carregando é pra enfiar no cu! – Gritava o gordo, para quem quisesse ouvir.

Sempre que Zekinwas partia para a briga, no entanto, os demais guardas entravam na frente para impedir o confronto, deixando o vilando obeso gargalhando com seus dentes esverdeados e apodrecidos, cobertos por algum tipo de limo:

– Vou te botar no chão e te matar por asfixia, seu cuzão! – Repetia o guarda.

– Depois que eu pegar tuas costas vou te humilhar, seu merda! Encher essa tua cara podre aí de garrafada! – Devolvia Zekinwas: – Tô sozinho não, hein? Tá eu e meu pai!

– Tem que ser muito covarde pra chamar o papai pra resolver seus rolos! – Rebatia o gordo nojento, se exibindo de peito aberto, cheio de marra: – E teu pai é um moleque! Não brigo com moleque! Tu é um merda!

– Vai dar o cu na esquina, seu fedorento! – Finalizava o tigunar: – Perda de tempo…

Na maioria dos dias, Zekinwas e seu pai costumavam ficar entocados no posto de observação, quando consumiam grandes quantidades de Dente de Leão e Poeira Cristal. À noite, andavam pelos arredores para mapear a área, e Dinwo gostava de subir em árvores para obter uma visão panorâmica da região. Como alimento, levavam sempre duas galinhas vivas, e um pombo treinado com o objetivo de retornar a Joy Divile com mensagens, caso algo desse errado.

Certo dia, num fim de tarde, tudo parecia tranquilo na primeira barreira montada pelos velgas na fronteira oriental. Mas o Destinado que comandava a tropa, Tiaun Agazar, avistou algo brilhando no alto das copas dos eucaliptos mais altos nas colinas de Shyne, a nordeste.

– Quero voluntários para investigar aquela porra lá. Podem ser arqueiros alamanos. – Pediu Tiaun.

Zekinwas estava dormindo, e Dinwo preferiu ficar calado na primeira chamada.

– E aí, quem vai lá ver essa porra?! – Gritou Tiaun, já irritado, acordando Zekinwas, que imediatamente se candidata para a missão, dando um toque no pai.

– Estamos aí, chefia… – Responde Dinwo.

– Acho que os caras estão de escama ali naquelas árvores. – Aponta o chefe do posto.

Zekinwas e Dinwo dão uma cafungada em mais uma dose de Poeira Cristal, antes de pegarem os cavalos disponíveis no posto. A ideia era se aproximar em passo lento, mas aguardar a noite, com as montarias escondidas, para chegar até o ponto indicado. Dinwo na frente.

Quando a escuridão já tomava o céu, os dois alcançaram os arredores do bosque de eucaliptos. Deixaram os cavalos amarrados em uma árvore e aguardaram até a madrugada para partir a pé. Como o bosque ocupava o alto de uma colina, a caminhada seria uma leve subida por um matagal amarelado, de folhas secas que alcançavam até a cintura. O vento frio da madrugada fazia o mato assobiar um apito sinistro.

– Vamos subir na tocaia, filho. – Sugeriu Dinwo, já se arrastando pelo matagal.

Zekinwas segue o pai, também se arrastando. Um pouco mais à frente, Dinwo resolve enrolar algumas folhas do mato e acender como se fosse um cigarro:

– Um mato que fala deve dar uma onda sinistra. – Diz o velho moleque, engasgando com a primeira baforada.

Mas o gosto era horrível. Dinwo desiste e continua subindo, camuflado pelas folhagens. Naquele ritmo, demorariam um bom tempo para alcançar o bosque, pois a encosta era bem larga. Olhando para as árvores mais acima, nenhum sinal do posto.

– Vamos subir, filho. Acho melhor a gente ir lá perto pra ter uma ideia do que estamos enfrentando. – Sugere Dinwo, sendo acompanhado pelo pai.

No meio do caminho, entretanto, os dois escutaram o barulho inconfundível das arfadas dos enormes Sabujos de Saravessa, cães de cabeça gigantesca e dentes muito afiados, que costumavam ser utilizados pelos inimigos. Os animais tinham sido alertados pelo cheiro de fumaça queimada, e seguiam retor na direção de Dinwo e Zekinwas.

– Eita porra! – Exclama o velho moleque, avistando apenas a enorme cabeça do bicho para fora do mato.

Eram três sabujos. A raça era conhecida por não latir. Apenas emitiam um ronco estranho, mas assustador. Pelo menos não haviam guardas por ali com os animais.

– Vamos esperar. – Sugere Zekiwas.

– Não, filho! Eles vão atacar! – Responde Dinwo, com olhos esbugalhados: – Vamos pra porrada, filho!

– Bora, pai!

Quando os animais já estavam perto, Zekinwas arremessa uma carga de bruma de sono que tinha arranjado com um Cavaleiro da Bruma, em troca de Poeira Cristal. Um dos bichos cai desmaiado, mas dois deles resistem e avançam.

Inicialmente, Zekinwas e seu pai conseguem evitar as mordidas dos cães, mas Dinwo acaba sendo derrubado por um dos bichos. O velho moleque tenta segurar o sabujo pelo pescoço, e luta pela vida de costas para o chão. Com um movimento ágil, movido pelo pó e pelo desespero, o pai de Zekinwas consegue se desvencilhar do animal e se levanta para continura lutando, no mesmo momento em que vê o filho acertar o focinho do cachorro com um forte golpe. Tomado pela raiva, Dinwo crava sua espada no pescoço do sabujo, e corre para ajudar Zekinwas.

Os dois se juntam para lutar contra o último cachorro, mas percebem que do céu estão caindo flechas bem na direção da luta. Zekinwas toma uma flechada fatal na barriga, e ainda tem tempo de ver seu pai sendo atingido no olho e cair morto. Como última ação, antes de ver o cão arrancando seus pedaços a mordidas, o tigunar consegue liberar o pombo que carregava numa gaiola do alforje, sem sinal algum. O que tinha o pior dos significados.

Depois que as flechas pararam de cair, os corpos dos dois pobres guerreiros foram estraçalhados por outros sabujos que chegaram ao local para conferir o que tinha acontecido.

Triste de fim de Zekinwas e seu pai.

[Continua…]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: