78. De Volta ao Posto

78.  De Volta ao Posto
Ale Bier, velga, mago necromante de Joy Divile.

[Antes: 77. Zekinwas e seu Pai]

Quando o pombo de Zekinwas retornou a Joy Divile, os necromantes mataram o bicho para saber o que ele tinha visto, uma vez que não havia qualquer mensagem enviada. Após o ritual, o comando foi informado de que os dois tigunares tinham sido mortos por flechas disparadas de um posto de observação, e a informação foi repassada a Tiaun Agazar, chefe da barreira mais avançada, de onde as vítimas partiram para a missão de reconhecimento.

Enfurecido com a confirmação, o Destinado Tiaun resolveu enviar outro grupo, mais forte, com o objetivo de derrubar a árvore onde o posto estava instalado. Assim, pelo menos dois lenhadores teriam que participar da missão, levando machados pesados. Um deles era o galante cavaleiro vilando Sidji Neimagaiver, de Darklands, que estava prestando serviços para a Hocke em Joy Divile. O outro, chamado Kingsaiz, também era vilando e se dizia “o filho mais novo”, sem especificar de quem. O sujeito tinha se instalado na cidadela para lutar contra a máfia de alamanos que estuprou a mãe da filha dele, fazendo disso um motivo de zoação constante em sua vida.

O comandante da barreira também pediu à Dokhe de Joy Divile um necromante para reforçar o grupo, algum dos que tivessem visto as memórias do pombo de Zekinwas, para facilitar a chegada ao posto dos alamanos. Ale Bier, um aprendiz de mago, foi enviado para a missão. A “família” Bier era famosa na região, por criar pombos e abrigar migrantes de todas as raças e origens, que se instalavam na taberna do velho Just, de quem acabavam herdando o sobrenome. O velga Ale tinha tatuado no braço várias inscrições de uma linguagem que na verdade não existia, ao lado da imagem de um corpo estraçalhado, com a cabeça tatuada na palma da mão. Bizarro. Por fim, completava o grupo Mit Maikon, um jovem arqueiro gaulês.

De acordo com as imagens visualizadas pelo pombo, e capturadas por Ale Bier, as flechas que mataram Zekinwas e Dinwo vieram de uma área no canto sudoeste do bosque, numa elevação do terreno, a cerca de cem metros do local onde foram mortos. Não era possível ver a árvore exata, nem quantos alamanos estavam no posto. Mas, pelo ritmo e quantidade de flechas lançadas, podia-se estimar pelo menos dois arqueiros no local.

De forma a evitar o enfrentamento direto, talvez fosse melhor tentar contornar a colina, ao sul, ao largo de Yaztrik, ou ao norte, seguindo o litoral.

– Vamos dar a volta e pegar esses caras por trás. – Diz Sidji.

– Acho uma boa. – Concorda Ale, antes de sugerir uma alternativa: – Ou podemos nos dividir. Uma dupla ataca pela frente, e outra contorna.

– Seja como for, agora vamos na crocodilagem. Mas eles vão se fuder comigo. – Afirma Kingsaiz.

– A gente podia ir uma dupla por cada lado. Quem for pela frente deve chegar primeiro, fica no entoque e espera o resto pra gente atacar ao mesmo tempo. Que tal? – Diz Bier.

– Mas só você tem as imagens do local. – Diz Tiaun, que acompanhava a discussão do grupo.

– Posso fazer um mapa. – Sugere Bier, já retirando um pergaminho do alforje: – Quando a gente chegar alguém corre e se esconde só para eles se manifestarem, e meus pombos poderão ver exatamente onde esses caras estão.

– Partiu.- Diz Kingsaiz, já montando no cavalo.

Partindo no fim da madrugada, o grupo cavalaga até os limites da colina, à beira do mato seco. Averiguando os arredores, encontram o cavalo usado por Zekinwas e Dinwo, ainda amarrados.

– Sidji e Kingsaiz, vão pela frente ou por trás? – Questiona Bier.

 – Vou pela frente. Foda-se. – Afirma Kingsaiz, já separando algumas doses de Poeira Cristal, e oferecendo ao companheiro: – Cheira essa porra aí, Sidji.

– Tudo bem. Eu e Mit vamos dar a volta pelo sul. – Diz o necromante.

– É guerra. Vamos nos arrastando pra subir esse matagal. – Informa Kingsaiz, completando: – Mas vamos esperar a noite pra subir. Calma.

– Na noite os instintos dos cães se sobrepõem aos nossos. – Contesta Bier.

– Mas eu também sou bicho. Nem tomo banho. – Contraargumenta Kingsaiz.

– Vamos com claridade. Vai ser melhor pra gente ver onde estão. – Insiste Bier: – E aqueles sabujos dormem de dia e saem para caçar  à noite.

– Tudo bem. Vamos de dia então. – Diz o vilando: – Mas quero vingar Zekinwas e Dinwo!

O vento no local provoca aquele assobio sombrio no matagal que toma a encosta da colina. Mit e Bier seguem a cavalo para contornar ao sul. Pouco depois, os quatro cavaleiros já estavam posicionados nos locais combinados.

Assim que amanhece, Ale Bier solta um de seus pombos amestrados para sobrevoar o local. O bicho voa durante cerca de duas horas, e retorna para receber seu habitual suprimento de milho. Mas, dessa vez, os planos do necromante eram outros: ele mata o pombo e inicia o ritual com a raiz de Cidália, recitando as palavras mágicas para obter as visões do pássaro. Com clareza, o mago consegue visualizar exatamente onde estava a árvore com o posto de observação, uma plataforma de tábuas a 25 metros do chão. Três alamanos montavam guarda no local.

Usando sons de animais para comunicar a localização do posto, as duas duplas se preparam para subir, se arrastando pelo mato. Do lado sul, não demora muito até que Mit começa a escutar o arfar de dois sabujos, enquanto Kingsaiz e Sidji tem caminho livre até a árvore. Para ajudar o companheiro, Bier arremessa brumas de sono, mas os dois cães resistem ao passar pela área com a névoa tóxica. Mit tenta uma flecha, mas acerta apenas de raspão. Os sabujos atacam com suas bocas enormes e cheias de dentes afiados.

O cachorro já chega mordendo o antebraço do gaulês, e Bier também leva uma dentada. Mit consegue se desvencilhar do animal, mas o necromante acaba sendo derrubado e arrastado. Em poucos segundos, mordidas sucessivas fazem Ale Bier desmaiar, o que é fatal. O sabujo começa a devorá-lo. Mit consegue acertar o sabujo com a ponta do arco, ferindo o bicho, e logo depois o nocauteia com outro golpe preciso na cabeça.

O cachorro já começava a roer os ossos de Bier, quando percebe que Mit estava fugindo. O animal corre atrás do arqueiro, mas dessa vez o gaulês acerta uma flecha certeira no ventre do sabujo, que mesmo assim avança. Mit aproveita o prejuízo do cão para golpeá-lo com força, derrubando o bicho, que cai desacordado. Mas a movimentação no mato atrai a atenção dos arqueiros no posto, que começam a atirar de longe. O gaulês então se joga no chão do matagal e se arrasta para o lado, tentando se esconder.

Enquanto isso, Kingsaiz e Sidji chegam sorrateiramente aos pés da árvore onde estavam os arqueiros inimigos. Eles fazem uma fogueira, mas logo percebem que aquela não era uma estratégia adequada para derrubar a árvore. Pior, a fumaça estava subindo e chamando a atenção dos alamanos, que param de atirar na direção de Mit e começam a mandar flechas pra baixo. Os dois lenhadores tentam se proteger com os escudos, que acabam sendo rachados com as flechas.

Desesperados, os três alamanos começam a descer da árvore rapidamente pelos degraus improvisados com estacas afixadas no tronco. Kingsaiz resolve subir por um dos lados, e acaba encontrando o inimigo no meio do caminho, a uma altura de 12 metros. O vilando acerta o pé do alamano com o machado, fazendo o rival se recolher. Ele então guarda a arma e tenta agarrar a perna do sujeito, sem sucesso. Os dois outros arqueiros conseguem descer pelo outro lado da árvore. Kingsaiz acerta um soco no pé do alamano, enquanto os outros alcançam o chão e atacam Sidji.

Neimagaiver se encontrava cercado por dois inimigos, e sofre para conseguir se defender. Enquanto isso, na árvore, Kingsaiz cata novamente o machado e ataca as pernas do alamano, arrancando um naco da panturrilha. Logo em seguida, ele aproveita a agonia do sujeito para acertar mais um golpe de machado, matando-o cravado no tronco.

Kingsaiz volta a descer para ajudar o companheiro. Quando ele salta para a luta, Sidji aproveita o momento e mata um dos alamanos com uma machadada no pescoço. Mit também aparece para ajudá-los, e eles cercam o bárbaro. O gaulês prepara o arco, mas Kingsaiz alerta:

– Não flecha ele não. Quero esse vivo.

O vilando aproveita para se aproximar e agarrar o inimigo, logo encaixando um forte mata-leão que o deixa inconsciente.

– E aí, vamos derrubar essa árvore agora? – Questiona Sidji

– Melhor tomar o posto. Agora é nosso, porra. – Responde Kingsaiz: – Vou levar esse cara e mandar um negão currá-lo em praça pública, pra ficar o alerta.

Depois de arrastarem os cadáveres para o matagal, eles carregam o alamano como prisioneiro, e levam a cabeça dos dois cadáveres para os necromantes. Os três então descem a encosta e alcançam o local onde deixaram os cavalos. Quando retornam à barreira, levando o inimigo capturado, Tiaun Agazar pergunta:

– E o posto?

– Agora é nosso, chefe. – Responde Mit.

– E quem tá lá, porra?

Silêncio. Kingsaiz, Sidji e Mit logo percebem que mandaram mal.

– Porra! A missão era derrubar, caralho! Aquela merda de posto não serve pra gente! – Irrita-se o chefe da barreira.

Neimagaiver não fala nada e monta novamente em seu cavalo, disposto a retornar logo para derrubar aquela merda. Enquanto isso, o perturbado Kingsaiz continuava mais preocupado em punir o alamano capturado, tentando arrumar um tigunar disposto a praticar aquele ato horrível e obsceno:

– Cadê o caboclo?

Nesse momento, um tigunar esguio chamado Lingwisas Nuseku, irmão mais novo do Pedreiro-Chefe das Terras Altas, se candidata para ser o carrasco da punição. Quando o alamano acordou amarrado e imobilizado, e percebe o que estava prestes a acontecer, deu um grito de verdadeiro horror:

– No! Fuck you all bastards!

– Exemplo para os inimigos. – Afirma Kingsaiz.

– Que inimigos, cara? Aqui na barreira só tem a gente. – Argumenta um dos soldados.

– A notícia corre. – Insiste Kingsaiz: – E advogado de pobre é intrujão.

E assim o pessoal da barreira testemunha um espetáculo horrível em praça pública, iniciativa pessoal de Kingsaiz e seus amigos tigunares, como vingança pelas mortes de Dinwo e Zekinwas. Apesar de não impedir aquela merda, Tiaun Agazar estava torcendo para que não aparecesse algum oficial graduado por ali naquele momento. Três de seus homens já tinham morrido por causa daquela bosta de posto. Era um custo alto demais pelo benefício, e Tiaun sabia disso. Se algum Gargo Gigantrix soubesse o que tinha acontecido, ele estaria fodido. Se fosse um de seus tios, ele estaria em perigo físico. Para ele, as supostas costas quentes do clã Agazar eram na verdade uma carga pesada.

– Caralho, King! Tu vai preso se a gente não resolver essa merda. – Pensa alto Sidji, quando já estava montado: – Nem vai pra guerra. Vai ficar no estábulo lavando bunda de cavalo.

[Continua: 79. Uma Notícia Bombástica]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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