80. Rumo a Dankel

80. Rumo a Dankel
Tiaun Agazar, chefe da barreira da vila de Sunnig, perto de Joy Divile.

[Antes: 79. Uma Notícia Bombástica]

Antes de seguir viagem para Dankel, Tiaun Agazar discute com seu grupo qual o caminho que iriam seguir. A situação política na céltika era complicada, mas o chefe da barreira parecia nervoso em chegar à Jubo Ket o mais rápido possível. O que era incrível, considerando que Tiaun era normalmente um sujeito calmo e ponderado. Kingsaiz e Atwalsu também estavam ansiosos. O vilando fumava um charuto de Dente de Leão atrás do outro. Cada um quis levar um cavalo de reserva, mas o chefe logo vetou:

– Cada um vai no seu cavalo. Nego já tá puto de ficar na barreira, e ainda vão ficar sem cavalos?

O que os malandros queriam, na verdade, era mais dinheiro. Cavalos eram uma das principais mercadorias trocadas. Um bom animal podia custar duas ou três moedas de ouro, que era a principal unidade de valor utilizada em Asgaehart, desde a época do padrão usado no antigo Império Rubro. Desde então, cada reino tinha cunhado suas próprias moedas, mantendo o tamanho e o peso do dobrão rubro. Moedas de prata eram menos comuns, e valiam um décimo das de ouro. Com exceção do líder Tiaun, que carregava meio kabutz (cerca de 25 moedas), o resto da tropa levava todo o soldo do mês como cavaleiros: dez moedas de ouro.

Apesar de certa experiência, a verdade é que Tiaun Agazar tinha feito toda a sua carreira militar em campos de resistência e invasão, como aquele próximo à vila de Sunnig. O herdeiro do clã guerreiro de Van Hal jamais tinha participado de missões como aquela.

– Por mim seguimos reto. Vamos atravessar Yaztrik, Danzig e Erikland, diretaço pra Jubo Ket. – Sugeriu o comandante, sem raciocinar muito.

– Perder tempo porra nenhuma. Quero chegar lá o mais rápido possível. – Concordou Lager Bier, completamente bêbado.

– Vocês que sabem. Mas vou logo avisando: é melhor contornar a céltika. Vamos subir pras Terras Altas, pra não passar por Viktoria. Melhor do que cruzar as terras dos alamanos. – Diz Kingsaiz.

De fato, apesar daquela ser uma terra historicamente velga, desde que Ighan Pendragon se autoproclamou como Rei de Viktoria, os bárbaros tinham trânsito livre na região.

– Melhor ir reto, cara. – Insiste Tiaun.

– Isso. Pegar as melhores. Beber as melhores. – Reforça Lager.

– Vamos subir o Rio Celtik, cara… Ideia de bêbado é foda. Depois paga com a vida. – Ressalta Kingsaiz: – Pra que passar pelos inimigos? Nego vai querer esculachar. Eu faria o mesmo. Sou louco mas não sou burro.

– Tem que ter desvio não… Essa porra é expresso direto Jubo Ket. – Rebate Lager, com a boca mole de rum.

– Vamos logo pra putaria! – Exclama Atwalsu, muito excitado, concordando com o bêbado e o chefe: – Merda é coisa que sempre acontece.

– Para com isso, pessoal. Melhor me seguir, porra. – Diz Kingsaiz.

Tiaun parecia começar a concordar com King, mas Atwalsu pede a palavra:

– King, tu é muito doido! Tá ligado que o Tiaun que decide, né? Tá querendo liderar?

– Porra… Não é melhor garantir indo direto? – Questiona Tião, antes de relembrar com certa nostalgia: – Meu avô só falava nessa Jubo Ket… Ele passou uma semana lá dentro antes do Hevelgar lá chegar e destruir a porra toda…

– Vamos reto, chefe! Não vou contra meus princípios por causa do maluco do King! – Bota pilha Atwalsu: – A missão é muito importante!

– King, tu pode contornar se quiser… A gente se encontra lá depois. – Decide Tiaun: – Quem vai, vai. Quem não vai, fica.

Satisfeito, Atwalsu já começa a galopar rumo a Yaztrik, e o chefe segue logo atrás. Lager também queria ir reto, mas já estava bêbado demais para tomar a decisão por si mesmo, sem condições de tocar o cavalo em um galope. Kingsaiz faz um aceno negativo com a cabeça, e afirma para os demais:

– Vamos contornar.

Assim, enquanto o resto do grupo subia o Rio Celtik na direção de Terras Altas, para um desvio estratégico, Tiaun e Atwalsu seguiam a galope para sudeste, rumo a Yaztrik.

Perto da cidadela velga, no entanto, os dois acabam sendo abordados por uma patrulha de três cavaleiros velgas, liderados por um antigo conhecido de Tiaun, Darius Lander:

– Não posso deixar ninguém de Joy Divile passar, Tiaun… Vai me prejudicar.

– Jubo Ket. – Responde Atwalsu. Percebendo os olhares incrédulos, ele repete as duas palavras ainda mais alto, olhando nos olhos de Lander:

– JUBO KET!

Os três cavaleiros de Yaztrik começam a cochichar e discutir entre si. Darius pergunta, parecendo aina incrédulo:

– Reabriu?

– Sim! Estamos indo pra lá! Partiu Jubo Ket? – Sugere o mestiço.

– Se vocês passarem eu posso me foder no comando… – Darius coça a cabeça.

– Tão dizendo que tá melhor do que nunca! – Reforça Atwalsu: – Primeira rodada é por minha conta! As melhores mulheres e bebidas!

Darius olha para os dois companheiros e nem fala mais nada. Já começa a cavalgar na direção de Danzig. O poder das histórias da Jubo Ket era realmente fenomenal.

Enquanto isso, na barreira, um dos soldados revoltados por não ter sido escolhido não se aguenta e resolve desertar. Roubando um cavalo da guarnição, Juzep Malakias cavalga velozmente na direção de Yaztrik, sozinho:

– Tomar no cu. É ruim que eu não vou na Jubo Ket!

Já a muitos quilômetros dali, ao sul, King, Vanila e Lager cavalgavam até as proximidades da cabeceira do Rio Celtik, com muita tranquilidade.

Com a ajuda de Darius e seus dois comandados, Tiaun e Adwalsu atravessam Danzig com facilidade, seguindo o leito do Rio Hevan até Erikland. Pouco antes da cidadela, porém, eles são abordados por um grupo de cinco cavaleiros da Távola de Viktoria, o mais famoso e poderoso círculo de guerreiros daquele reino. À frente do grupo estava Panzer Reich, aliado dos alamanos e amigo pessoal do Rei de Saravessa e Viktoria:

– Cavaleiros de Yaztrik! Quem são esses dois estranhos? Estão indo para onde?

Darius empalidece. Panzer logo sente que algo estava errado, e insiste, gritando:

– O que houve, soldado?!

Um dos comandados de Lander acaba respondendo, no impulso:

– São prisioneiros de Joy Divile, senhor! Vamos levá-los para Erikland.

– Deixa com a gente então. Vamos levá-los para Viktoria. – Responde Panzer: – Guardas! Amarrem os forasteiros!

Obviamente aquilo daria merda. Tiaun já começava a se preparar para reagir. Darius engole em seco, mas ainda tenta argumentar:

– Senhor, peço que a gente permaneça com a missão! Após deixarmos os prisioneiros, como estamos com folga por bom serviço, iremos vistoriar a lendária Jubo Ket! Que reabriu!

Panzer arregala o olho:

– Muito boa notícia, cavaleiro! Então eu vou com vocês, e os meus guardas levam os prisioneiros pra Viktoria!

– Está bem, senhor! – Responde Darius, se adiantando.

Tiaun se enfurece com a resposta de quem considerava um amigo, e reage assim que tentam amarrá-lo. Era um Agazar. Só deixaria que amarrassem-no se estivesse morto. Os guardas de Panzer então se dividem para atacá-los, dois contra um, e logo conseguem derrubar Atwalsu do cavalo, e matam-no pisoteado logo em seguida. Tiaun luta bravamente, mas acaba cercado. Um deles aproveita o flanco para decepar a cabeça de Agazar, que quica pelo chão. Sem mais prisioneiros para conduzir, eles fazem a limpa nos dois cadáveres e seguem para Dankel com mais dois cavalos, deixando os dois cadáveres por ali mesmo.

Algumas horas depois, Juzep Malakias passa galopando pelos corpos, sem perceber que se tratavam de dois de seus companheiros, incluindo o chefe da barreira. Infelizmente, Tiaun Agazar tinha morrido sem realizar seu sonho de conhecer a Jubo Ket.

A dezenas de quilômetros dali, a oeste, Kingsaiz, Vanila e Lager atravessam o Planalto Velga. Quando começavam a contornar as montanhas de Viktoria, eles encontram uma dupla de cavaleiros da Dokhe, que se identificam como Owen Petersen, filho do falecido Kal, e o mago necromante Ulek Van Vossen, irmão de Viktor e filho de Erik, também já falecidos.

– Estão indo para onde, companheiros? – Questiona Owen.

– Para a Ju. – Responde King, com um sorriso.

– Que Ju? – Estranha o filho de Kal.

– Jubo Ket. Tá cheio de alamano lá. Vamos ver qual é. – Diz Kingsaiz.

Ulek se volta para Owen e exclama:

– Eu não te falei que reabriu, seu cuzão?

– Vai se fuder, seu merda. – Rebate Owen.

Após a troca de gentilezas, os dois cavaleiros da Dokhe resolvem acompanhar o grupo na viagem. O caminho pelo planalto era mais demorado, mas eles conseguem atravessar a Floresta de Agnix à tarde e chegam no início da noite à praia onde se localizava a lendária Jubo Ket, apenas uma milha a oeste da cidadela fortificada de Dankel.

O Templo da Perdição estava mesmo lá, em toda a sua glória, brilhando novamente com suas colunas de mármore polido. Muita gente chegando, por terra e pelo mar. O lugar vibrava em uma tensão diferente. De dentro do templo, já era possível ouvir os tambores de uma música pulsante, rítmica, em altíssimo volume.

– Uhu! – Gritou Kingsaiz: – É festa, porra!

[Continua: 81. O Templo da Perdição]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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