82. Fim de Festa

82. Fim de Festa
Ulek Van Vossen, mago necromante, filho de Erik.

[Antes: 81. O Templo da Perdição]

Após se esbaldar com as prostitutas alamanas, Arley sobe de volta ao salão principal, muito cansado, mas em êxtase. Também já começava a sentir alguns inchaços e dores pelo corpo. Podia ser o esforço, mas também podia ter contraído alguma doença sinistra no desafio que tinha superado. Quando ele conta sua experiência aos amigos, o resto do grupo fica maluco.

– Cara, alguém tem que ir nessa galeria de 50 moedas! – Exclama Ulek.

Kingsaiz separa as cinco moedas de ouro e também paga para descer a escadaria com a luz amarela. Na hora de encarar as prostitutas doentes, no entanto, Kingsaiz não consegue funcionar. Ele ainda olha para os guardas da sala, mas lutar nu e desarmado ali certamente não era uma boa. Infelizmente, aquele episódio seria mais um motivo de zoação constante em sua vida. Chateado, ele sai da Jubo Ket sozinho e compra o seu cavalo de volta.

– Iaí patron? Si deu bien? – Pergunta o sujeito, cheio de cáries nos dentes.

Kingsaiz nem responde. Agora ele estava com apenas três moedas de ouro no bolso, e resolveu esperar os amigos fora do Templo.

Enquanto isso, no salão do primeiro piso, um homem tinha acabado de ser estripado vivo, porque perdeu uma aposta tentando arranjar dinheiro para descer à terceira galeria, e não tinha moedas para pagar. Os demais frequentadores e as prostitutas, alterados pelo álcool, pareciam se divertir puxando para fora os intestinos do sujeito, que ainda respirava. Uma cena realmente macabra.

Do lado de fora, Kingsaiz passava pelo mesmo desespero. Na disputa de tapas na cara, a mesa com mais moedas tinha como vencedor um tigunar gigantesco, obeso, com uma barba enorme e muito suja. Acompanhado de pelo menos quatro amigos, o sujeito estava casando dez moedas pra ver se alguém resistia a uma de suas pranchadas.

Nervoso, o vilando resolve vender o cavalo novamente, e entra mais uma vez na Jubo Ket, dessa vez disposto a tentar a sorte apostando em seu queixo duro. Ele volta no salão da taberna e já chega desafiando um gigante agunar, que estava ganhando em uma das mesas.

No primeiro tapa, o sujeito desfere uma porrada consistente que arranca sangue da boca e faz Kingsaiz se tremer todo, mas o vilando resiste.

– Boa, porra! – Comemora Owen, que já estava faturando um dinheiro emprestando moedas para os apostadores e cobrando juros. O cavaleiro Dokhe já contava 26 moedas de ouro.

Na sua vez, Kingsaiz acerta uma bolacha forte que faz o agunar rodopiar e cair no chão. Mas o sujeito era resistente e se levanta, meio desnorteado. O próximo tapa também faz Kingsaiz desabar, mas ele se levanta logo em seguida, com as pernas trêmulas. Mas o segundo tapa do vilando é uma porrada tão sinistra que faz o agunar desmaiar em pé. Como tinha apostado suas três moedas, King leva as seis da mesa.

– Uhu! – Grita Kingsaiz, comemorando, enquanto os amigos do sujeito arrastam seu pesado corpo para fora do salão.

– Vou dar uma circulada pra pesquisar o recinto e ver se posso lucrar mais em algum ambiente. – Diz Owen.

– Calma aí, cara. Fica por aqui. Vai acabar morrendo. – Responde King, guardando as moedas.

Kingsaiz resolve continuar na mesa, e aposta cinco moedas. Um alamano baixo e gordo já estava na fila para o desafio. O vilando dá uma coçada no cu, escarra no chão e se prepara para dar o primeiro tapa. Outra porrada violenta, que faz desabar o rival no chão, sem sentidos. Com o resultado da rodada, Kingsaiz tinha recuperado suas onze moedas.

Como não havia mais ninguém na fila, o vilando se viu obrigado a desafiar o tigunar com quase dois metros e meio de altura, que estava vencendo na mesa com apostas mais altas. Kingsaiz pediu um tempo para fumar um cigarro de Dente de Leão, e se apresentou na fila.

– Bota a cara, que eu vou pranchar sem piedade! – Exclamou o negão da barba suja.

– Tenta aí, arrombado. – Rebateu Kingsaiz.

Após mais uma cafungada na Poeira Cristal, que certamente cobraria um preço no dia seguinte, se houvesse um, o vilando tomou uma pancada no queixo tão forte que desmaiou em pé.

– Eu sou… o Mão de Pilão! – Comemorou o tigunar, já recolhendo as vinte moedas sobre a mesa.

Owen, Ulek, Arley e Lager arrastam o corpo de Kingsaiz dali, para que ele pudesse se recuperar. Alguns minutos depois, o vilando acorda, bem mais calmo. Mas agora tinha apenas uma moeda de ouro, e já teria dificuldade para recuperar seu cavalo.

 Já era madrugada na Jubo Ket. O Templo da Perdição continuava lotado, e as pessoas lá dentro estavam cada vez mais bêbadas e agressivas. A quantidade de brigas e mortes no salão principal tinha saído de controle. Uma prostituta tinha acabado de ser empalada com uma lança de ferro, porque teria roubado um cliente bêbado. Se aquele local já era perigoso, agora era um verdadeiro inferno.

– Sei lá, hein… Melhor a gente sair fora. – Reconheceu Kingsaiz.

– Falei isso desde o início. Mas o bêbado nunca tem razão. – Disse Lager, já ficando sóbrio.

– Bora então. – Concordou Arley.

– Não. Agora é a minha vez. – Afirma Ulek Van Vossen.

O filho de Erik paga dez moedas de ouro para descer a escadaria de luz verde. Na sala de baixo, ele é recebido por quatro prostitutas morbidamente obesas, que podiam esmagar um homem somente com o peso do corpo. Mas Ulek tira de letra o desafio. Após satisfazê-las, ele estava pronto para experimentar a segunda galeria. O gaulês nem pensa duas vezes e corre para o mesmo ginásio onde Arley tinha estado. Oito alamanas gigantescas vêm recebê-lo, e Ulek passa naquele local as melhores horas de sua vida. Fazendo milhares de estripulias sexuais, o gaulês também se acaba na orgia.

Um tempo depois, o necromante volta ao salão principal, completamente enlouquecido. Tinham que dar um jeito de chegar à terceira galeria.

– Vamos embora, galera. Já deu a hora. Está tarde. – Sugeriu Kingsaiz.

– Tarde pra quê? Estamos na Jubo Ket, caralho! A lendária Jubo Ket! Temos que fazer história! Vamos meter nessa porra! Vai ficar só no boquete de puta feia?! – Argumentou Ulek.

– Cara, temos que voltar com mais ouro. – Replica o vilando.

– Não se ilude! Assim que a gente sair da Jubo Ket vai vir um arauto de alguma porra pra destruir com tudo! A chance é essa!

– Esqueci disso. Foi mal. Vamos ficar então, porra. – Aceita Kingsaiz.

– Caralho. Todo mundo fala que a Jubo Ket tem fama de não deixar ninguém sair… Hahahaha! – Comenta Owen, rindo da situação.

– Essa porra dessa casa não vai durar, Arley! – Insiste Ulek: – Temos que ver agora o que tem na terceira galeria.

Ulek, Owen, Arley, Lager e Kingsaiz começam a contar moedas. Tinham 67 ao todo.

– Só temos ouro pra descer um. – Diz Vanila.

– Não posso te dar minha moeda, cara. Tenho que comprar de volta meu cavalo. – Explica Kingsaiz.

– Porra, cara! Tu veio pra cá pra ser guardador de cavalo! Porra de bicho empata foda! – Exclama o filho de Erik.

– Se a gente ficar com duas moedas cada um pra recomprar os cavalos, dá pra mandar alguém lá em baixo com 58. – Faz as contas Owen.

– Eu posso ir, mas se alguém quiser eu abro passagem… – Afirma Ulek, torcendo pra ninguém se candidatar.

– Tu vai morrer aí, hein cara. Tô avisando… – Diz Kingsaiz.

– Por mim, damos esse ouro pro Ulek. – Diz Arley, que àquela altura já estava se sentindo muito mal, doente mesmo. Alguns furúnculos já rompiam sua pele.

O necromante nem espera a opinião dos demais. Passa a mão nas moedas e corre para o bar, louco para chegar no terceiro nível. Dessa vez, com avareza, ele escolhe a escada de luz vermelha, e paga apenas uma moeda de ouro. Quando Ulek desce para a sala, é recebido por um grupo de horríveis travestis, de várias raças, criaturas pervertidas já excitadas com a sua presença. Horrorizado, ele sobe correndo de volta ao bar. Aí já era demais.

Restavam ainda 58 moedas. O filho de Erik então paga cinco para descer a escadaria de luz azul, onde Arley tinha enfrentado as prostitutas doentes. Com muita gana, ele supera o desafio com louvor, e passa rápido pela segunda galeria, onde já tinha passado tempo bastante. Quando chegou ao portal que descia para o terceiro nível, Ulek deixa um kabutz de moedas para os guardas. Agora só restavam três em seu poder.

Os guardas abrem a passagem, revelando uma nova escadaria iluminada por uma luz violeta. Os degraus levam a um grande salão, com outros dois mascarados guardando uma outra porta nos fundos. À frente, bufando, uma égua trota em círculos e relincha no local. Um dos encapuzados avisa Ulek que, se ele quisesse passar ao terceiro nível, seria preciso “cobrir” a égua, que não parecia nada disposta a cooperar.

– Caralho! Zoofilia é foda! – Exclama o necromante, incrédulo.

Mesmo assim, ele parte pra cima do animal, pedindo aos guardas:

– Segura ela aí!

Ninguém ia segurar. Ulek teria que dar seu jeito.

– Caralho! Como que faz essa porra?!

O filho de Erik tenta cercar a égua, buscando um jeito de montá-la por trás. Na primeira tentativa, ele leva um coice de raspão na perna, que arranca um pedaço de carne. Com gana, Ulek continua o cerco, mas acaba levando outro golpe, dessa fez fortíssimo, no abdômen, que o leva ao chão. A égua então pisoteia o gaulês até matá-lo, completamente desfigurado, com uma pasta de sangue pelo corpo.

Enquanto isso, no salão principal, toda hora uma garrafa era quebrada no ambiente. Montes de cacos de vidro já tomavam o chão. Vários cadáveres espalhados. Um cheiro horrível impregnava o ar. Madrugada alta, o Templo começava a esvaziar. Alguns grupos começavam a rondar o local, observando se havia alguma vítima potencial andando sozinha. Mas a música nos salões não parava, e muitas prostitutas bêbadas já começavam a atender de graça.

– Fui. Vai dar merda. – Diz Kingsaiz, convocando os demais, que aceitam a sugestão.

Quando saíram da Jubo Ket, já era quase de manhã. Kingsaiz fica muito puto ao perceber que o sujeito que lhe comprara o cavalo já tinha ido embora:

– Não! Vou matar esse cara!

– Vamos embora, King… – Pede Arley, sentindo que o clima no local não era bom.

Cada um do grupo adquire um animal, e saem dali sem nenhuma moeda no bolso. Quando estavam cavalgando de volta para o Planalto Velga, eles percebem que, logo nos primeiros raios de sol, um grupo de quatro Cavaleiros de Hevelgar estava voando na direção contrária, montado em Ravens Cinzentos. Fazia muito tempo que ninguém via tantos arautos juntos.

O Templo da Perdição era algo que o deus da Honra não podia permitir. Dessa vez, os Hevelgares iriam caçar todos os responsáveis, destruir tudo aquilo e salgar o terreno, realizando um feitiço de contramaldição para que nunca mais aquele lugar de vício e podridão surgisse novamente.

Apenas Owen Petersen, Kingsaiz, Lager Bier e Arley Vanila tinham conseguido sair dali. O primeiro tinha ficado em Darklands, onde servia. Ainda em Terras Altas, o tigunar precisaria de cuidados imediatos para se curar da doença maldita que tinha lhe acometido após superar o desafio da escadaria de luz amarela.

A Jubo Ket passaria pra história. Talvez tivesse sido a última vez em que foi reaberta. Se dependesse dos arautos de Hevelgar, quem comeu, comeu. E quem não comeu, agora só na imaginação.

[Continua: 83. A Invasão de Joy Divile]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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