83. A Invasão de Joy Divile

83. A Invasão de Joy Divile
Krul Petersen. vulkânico de Aussflag, Gargo Gigantrix da Dokhe.

[Antes: 82. Fim de Festa]

536 cl. Verão. O clima é quente e muito tenso nas barreiras que os velgas ergueram nos arredores do condado de Joy Divile, onde aguardam a movimentação do grande exército que os inimigos reuniram para invadir a cidadela. Desde que o mestiço Ighan Pendragon assumiu os tronos de Saravessa e Viktoria, sucessivamente, com as mortes dos reis Teodor II e Vortimer De Gris, e o estranho desaparecimento da rainha Anni, mãe de Ighan, o clima de discórdia reinava na região céltika, como era conhecida a área entre os rios Celtik e Hevan. Afinal, pela regra dinástica dos velgas, se estivesse viva, Anni seria a rainha, e não seu filho, Ighan, que teria de se contentar com o trono de Saravessa.

Cada vez mais confiantes após a morte de Calto, os reis da Tetrarquia Velga não aceitavam negociar com o bárbaro. Com a economia aquecida pelas sucessivas migrações, e os cofres cheios de ouro após o saque do covil de Calto, que tinha passado pelo menos um ano devastando povoados e saqueando os tesouros da Terra Vélgica, Hagen Van Holland e seus aliados, os líderes das casa dinásticas de Terras Altas, Aquitan e Darklands, não aceitavam que o Reino de Viktoria, que no passado tinha integrado a aliança velga – na época chamada de Pentarquia – caísse em mãos dos nobres alamanos.

Com a mesma agressividade característica de seu pai e de seu avô, Ighan avançava nas articulações políticas. Naquele momento, o jovem rei de Viktoria e Saravessa, de apenas 23 anos, era um aliado do Visconde Angus, herdeiro do condado, asilado em Saravessa após ser acusado de traição em Joy Divile por seus irmãos mais novos, entre eles o atual detentor do título, Nargus. Após a morte do velho Conde de Joy Divile, pai de Angus e Nargus, o Rei Ighan requisitou que Angus fosse reconhecido como o novo líder da cidadela, o que foi prontamente recusado por Terras Altas, suseranos reconhecidos na região, com o apoio dos demais reis da Tetrarquia Velga. 

Com a desculpa de conduzir ao castelo o verdadeiro Conde, Ighan marchou com cerca de vinte mil homens, entre os quais cinco mil cavaleiros da elite alamana, e até mesmo uns três mil velgas de Shyne e Yaztrik, considerados como traidores pelos conterrâneos. Nos últimos meses, os velgas também conseguiram reunir um contingente significativo em Joy Divile, com o reforço de cinco mil cavaleiros da Dokhe e da Hokhe, dos quatro reinos aliados, que se juntaram às forças de defesa da cidade, totalizando dez mil homens. À frente das tropas velgas, estava o próprio general da Hokhe, Sin Kali, que também tinha parentes no condado.

– Avisem Ighan que o visconde traidor só entra na cidadela se eu estiver morto. – Decretou Sin Kali.

O Rei de Saravessa já tinha enviado ultimatos afirmando que não haveria sítio, e tudo indicava que aconteceria uma carnificina. Quando Ighan recebeu a mensagem de Kali, mandou que respondessem ao General velga:

– Então ele vai morrer.

Em meio à tensão da cidadela, o veterano Krul Petersen, Gargo Gigantrix da Dokhe e emissário do Duque de Darklands, chegou à Joy Divile acompanhado da feiticeira necromante Liv Aussflag, sua companheira e amante ocasional, e uma outra dupla de cavaleiros, composta pelo mago elemental Vanther Hal, parente da casa dinástica do maior reino velga, e um agente da Bruma, Henzo Hagen, irmão mais novo do falecido Jon, arauto de Milenor, integrante do grupo que tinha caçado Zama, a fêmea dos Dragões de Fogo. Krul estava incumbido de uma missão secreta: investigar os rumores de que a rainha Anni estava viva e confinada em um mosteiro de Hiniar na cidadela de Eredra, antigo reino na costa Siméria, dominado há séculos pelos bárbaros alamanos.

Saravessa, assim como Hogan, tinha sido tomada pelos alamanos no Século III. Como ainda estavam sofrendo o achaque de Gorgon, o Dragão do Norte, os nobres do lugar logo entenderam que o reino só poderia se expandir para o sul, em direção à Terra Vélgica, livre da influência dos dragões. Com a ajuda de tropas de Eredra, Treva e Darva, além dos velgas de Viktoria e outros reinos da céltica que tinham se aliado aos alamanos – e por isso eram considerados traidores por aqueles que continuavam leais a Anni De Gris – o jovem rei Ighan tinha planos de conquista bem definidos: depois de garantir o poder em Shyne, o próximo passo seria a tomada de Joy Divile.

Após as mortes de Kal, Ian e Iuri, Krul era considerado o Petersen mais preparado. Diziam que tinha as qualidades dos irmãos, mas não os defeitos. Habilidoso como Kal, não era ranzinza como o primogênito da família, o que lhe abriu muitas portas entre a nobreza, tendo se casado com a herdeira de um condado na Terra das Sombras. Também era forte como Ian, mas não grosseiro como o irmão mais velho, pois tinha aprendido várias línguas e também sabia dançar e cantar. Por fim, Krul era resistente como Iuri, mas não perturbado como o caçula.

Cavalgando por entre as barreiras, Krul procurava por seu velho amigo Tiaun Agazar, filho do Gargo Gigantrix Dankan, seu companheiro de Clave. Com tristeza, o oficial ficou sabendo que Tiaun, escalado para comandar a primeira barreira, acabou não retornando com vida de uma missão “secreta”. Conversando com Lager Bier, um dos companheiros de Agazar que retornou com vida da incursão fatal, Krul questionou se alguém na cidadela poderia providenciar um pequeno barco para que eles chegassem até Eredra, o que parece impossível, por conta dos galeões alamanos que bloqueavam o Mar do Norte. No mínimo, o oficial procurava por um batedor que os orientasse pelas trilhas rumo a Shyne, e dali para Eredra, por terra, escapando ao máximo das tropas inimigas, o que também parecia uma tarefa dificílima.

De olho grande em Liv, que era filha de Bor Aussflag, um dos heróis da caçada a Calto, Lager topou rapidamente o desafio de conduzi-los entre as linhas inimigas. Galanteando a amante do Gargo Gigantrix sem parar, o necromante de Joy Divile acabou despertando a desconfiança do oficial, para lisonja da feiticeira, que pareceu gostar de toda aquela corte. Para acompanhá-los na missão, Lager também sugeriu que o arqueiro Mit Maikon fosse chamado, ideia prontamente aceita por Krul Petersen, que já tinha boas referências do gaulês.

O vilando Kingsaiz, por sua vez, estava enfrentando uma ressaca sinistra devido ao consumo exagerado de poeira cristal, e tinha sido liberado do primeiro pelotão da barreira de Sunnig, para que pudesse se recuperar. O mesmo valia para Arley Vanila, cavaleiro que tinha ficado em Terras Altas após a missão em Dankel, sob cuidados dos sacerdotes, para que pudesse se curar de uma terrível doença.

Entre as forças de defesa, o jovem Jules Flanagan, que já tinha sido promovido a Gargo há dois anos, experimentava uma inovação nas linhas de combate: a implantação dos DKs, duplas da Krieg, força de cavalaria ligeira organizada em pequenas patrulhas, quase sempre formadas por um mago e um guerreiro. Com isso, as forças da Dokhe e da Hokhe estavam levando ampla vantagem nos confrontos, usando táticas de guerrilha.

Joy Divile, uma cidadela no litoral do Mar do Norte, conhecida pelo clima quente no verão e pelas belas praias, foi construída na foz do Rio Celtik. Na margem ocidental do rio se localizava o Castelo do Conde e o Moinho, e as terras eram propriedade da nobreza. A margem leste, no entanto, era muito conhecida pela violência de seus arredores, infestados de ladrões e comerciantes de mercadorias de origem duvidosa. Quem tomava conta da área era o comando da cavalaria situado no alto de uma colina, em um torreão fortificado por muralhas. Perto da entrada da cidadela, uma pequena ponte unia os dois lados do rio, que também era muito usado por pastores e pescadores.

Os velgas tinham preparado duas barreiras de contenção contra os invasores. A primeira se localizava perto da Vila de Sunnig, recentemente fundada por migrantes velgas oriundos de Nibel, a quase 3 milhas a nordeste da segunda, situada na margem leste do Celtik, junto à colina. Para tomar a cidadela por terra, os alamanos teriam de passar pelas duas barreiras e tomar o torreão, antes de atravessar o rio. O próprio general General Sin Kali estava comandando as tropas da segunda barreira, enquanto Jules Flanagan tinha sido mandado para liderar o primeiro pelotão.

Com a morte de Tiaun Agazar, o comando local tinha passado para Lingwisas Nuseku. Entre seus companheiros de frente, estavam os vilandos Kaxasas e Tadjisakas, e o vulkânico Maskables Varandrix. Muitos ali já tinham inclusive se despedido de seus familiares, considerando a alta mortalidade da posição. Lingwisas já tinha cheirado uma dose máxima de Poeira Cristal, e encontrava-se em estado deplorável, fungando sangue.

Enquanto Krul preparava sua equipe para a missão suicida, os soldados na frente de defesa de Joy Divile fumavam os últimos cigarros antes do ataque. Do outro lado, após longo silêncio, Ighan ordenou que suas vanguardas de cavalaria avançassem sem piedade contra a primeira barreira velga, enquanto seus arqueiros de retaguarda já lançavam a primeira salva de boas-vindas contra as linhas de defesa. A guerra tinha começado.

– Por Hefestus! – Gritou Lingwisas, correndo na direção dos alamanos.

Uma flecha acerta o escudo do tigunar, que racha. Kaxasas não tem a mesma sorte, e leva uma flechada fatal que fura seu rosto, atravessando do nariz ao pescoço. Maskables também rompe pelo campo e consegue escapar das setas, chegando ao local de confronto com a infantaria leve dos inimigos.

Lingwisas acerta uma porrada num alamano, e Tadjisakas derruba um bárbaro com um golpe violento de seu machado. Montado, Jules Flanagan aproveita a primeira escaramuça para conduzir sua patrulha pelo flanco, e mata alguns arqueiros da vanguarda. Após decapitar o inimigo, Tadjisakas usa o corpo do sujeito como escudo, e consegue evitar ser atingido pela nova salva de flechas.

Maskables recebe uma flechada certeira na barriga, cai, e acaba morrendo pisoteado pela cavalaria alamana, que tinha acabado de chegar à frente de combate. Lingwisas acerta outra porrada, e Tadjisakas nocauteia um inimigo usando a perna do cadáver como arma. A cada morte, o vilando arrancava a orelha de sua vítima, visando fazer um colar de guerra. A batalha parecia equilibrada quando Lingwisas foi morto por uma flechada na têmpora, e Tadjisakas foi surpreendido por uma estocada firme nas costas, que atravessou seu coração, no momento em que cortava outro pingente macabro.

Percebendo a desvantagem de suas forças, Jules ordena que os velgas batessem em retirada, na direção da segunda barreira em Joy Divile.

Aquilo era um verdadeiro massacre.

[Continua: 84. Os Campos dos Carcajus]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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