84. Os Campos dos Carcajus

84. Os Campos dos Carcajus
Liv Van Aussflag, feiticeira necromante, filha de Bor.

[Antes: 83. A Invasão de Joy Divile]

Enquanto as forças velgas sofrem duras derrotas no campo de batalha perto de Sunnig, Krul Petersen e sua equipe já discutiam como fariam para chegar à cidadela de Eredra.

– E então, vamos como? – Perguntou Krul: – Vocês conhecem a região melhor do que nós.

– Não seria melhor pelo mar? – Sugeriu Mit.

– Vamos por terra. – Rebateu Lager Bier: – Mar é pra peixe.

Henzo e Vanther concordaram com Lager. Mit ressalta:

– Então vamos ter que passar pelo Bosque Morto…

O Bosque Morto, de fato, não era agradável. Com a vegetação quase sempre seca, ocupando campos com pequenos arbustos esparsos, colinas suaves e baixas, o lugar era conhecido por suas serpentes venenosas e outros animais perigosos. Aproveitando a confusão do conflito que ocorria em Sunnig, o grupo cavalga para o leste com a intenção de contornar as tropas de Ighan, mas logo percebem uma patrulha de quatro cavaleiros alamanos, observando a região.

Para evitar um confronto, seria preciso desviar ainda mais do caminho, seguindo para sudeste, na direção de Yaztrik. A cidadela velga era muito antiga, mas após ser devastada pela Aurora da Morte em 512 cl., estava tomada por alamanos.

– Vamos encarar. – Sugere Mit: – Melhor do que se aproximar de Yaztrik.

– Podemos atacá-los mais perto com a bruma de sono. – Diz Lager.

– Posso tentar acertar alguns de longe, quando for o momento. – Diz Mit.

– Vamos pra cima deles. Quando estivermos próximos, posso lançar uma de bruma de brilho para cegá-los. – Diz Henzo.

– Brilho pode chamar a atenção de mais cavaleiros. – Rebate Vanther.

– E se alguém de nós servir de isca? Assim podemos pagá-los de surpresa. – Avalia Mit.

– Não… Talvez seja melhor arremessarmos brumas de sono com flechas. – Muda de ideia o Cavaleiro da Bruma.

Enquanto isso, Vanther Hal já estava usando seus poderes para tentar entrar em contato com os animais da área. O mago elemental descobre que alguns Carcajus Carcaças entocados no local. Era um bicho muito feroz, do tamanho de um cachorro grande, mas que só atacava em bando, e se estivesse em perigo. Também era muito conhecido pela força folclórica da mordida, que podia ter mais pressão que a de lobos, hienas e até leões e quebrava até metais.

– Deixa eles, cara. – Diz Lager, quando Vanther informa sua descoberta: – Não arruma mais problema pra gente não.

– Vou tentar fazer os Carcajus distraí-los. – Insiste Hal: – Depois vocês atiram as flechas.

– Manda esses bichos atacarerm os alamanos, Vanther! Depois nós vamos pra cima…

– Depois o problema será nosso, porra… – Adverte Lager: – Deixa esses bichos pra lá.

– Vou tentar. – Ignora Vanther: – Concordam?

– Sim. – Diz Henzo.

– Concordo não. – Afirma Lager: – Acho que vocês vão complicar o simples.

Krul só observava os inimigos de longe, sem prestar muita atenção à discussão.

– Faz logo o contato então, Vanther. – Diz Mit, já preparando seu arco e duas flechas com brumas do sono e de brilho.

Vanther se concentra, e Lager reage:

– Vai dar ruim essa porra…

– Se der, damos um jeito. – Responde Mit.

– Isso se não morrermos. – Replica o necromante: – Depois que eles cansarem de morder os caras, quero ver quem eles vão atacar.

Para desespero de Vanther, a magia acaba despertando um bando com uma centena de Carcajus Carcaça escondidos na área. Eles saem de suas tocas rosnando agressivamente na direção de tudo que se move.

– Tu não sabe usar essa porra de magia não?! – Grita Mit, olhando feio para o elemental.

– Sabia que isso ia dar merda! – Exclama Lager.

– Calma, vamos ficar longe. – Diz Vanther, tentando manter o controle.

O bando se espalha rapidamente pela região, saindo de túneis cavados na terra, e destroem os bichos maiores que veem pelo caminho, como cervos e javalis, pela força do grupo. Cercados, os quatro alamanos e seus cavalos também são trucidados pelos Carcajus Carcaças

– Vanther, dá um jeito nesses bichos! – Implora Mit.

O mago elemental começa a se concentrar novamente para tentar algo, mas um pequeno bando já tinh aparecido bem próximo dali, e corria agressivamente na direção do grupo, provocando o relichar dos cavalos.

– Porraaaa! – Grita Mit, apavorado.

Em contato com os bichos, Vanther descobre que os Carcajus precisariam matar pelo menos um espécime de cada bando que encontrassem, para intimidar os demais, antes de se recolherem de volta à tocas. Não havia como controlar aquela massa de animais selvagens. O elemental então pula para o cavalo de Mit, e enxota sua montaria. O pobre mustangue velga tenta correr dali, mas logo é cercado e destroçado pelos carcajus, que finalmente recuam.

– Não poderemos cruzar esse campo hoje. Pra seguir adiante por aqui, teremos de aguardar até a noite. – Explica Vanther, que ainda estava em contato com os bichos.

– E se fizermos um brilho forte ao redor de nós? – Sugere Lager: – Os bichos não vão conseguir nos ver.

– Aí seremos vistos de muito longe, igual a um farol. – Rebate Henzo.

– Foda-se. Melhor brilhar e passar pelos carcajus. – Replica Lager: Cada problema de uma vez, amigo.

– Contornar as colinas na direção de Yaztrik é roubada. – Afirma Krul. : – Temos de dar um jeito de seguir adiante. Mas passar brilhando vai atrair a atenção das tropas. Não rola.

– Então vamos seguir cavalgando, na maior velocidade. – Sugere Liv, que até então tinha se mantido calada.

– Só seria seguro pela manhã. – Reforça Vanther.

– Não podemos esperar mais, se quisermos resgatar a Rainha. – Diz Krul.

Sem outras opções, o grupo se adianta rápido pelo campo dos carcajus, mas depois de algum tempo acaba sendo atacado mais uma vez por cerca de dez animais selvagens, que saem de suas tocas e tentam saltar para morder os cavalos.

– Vou brilhar! – Grita Henzo.

– Faz isso não! – Responde Lager.

– Bruma do sono então?! – Devolve o Cavaleiro da Bruma.

– Isso! – Concorda Lager.

Henzo tenta lançar as brumas, mas não obtém sucesso, pois a névoa se dissipa rápido com o vento que soprava forte na área. Com habilidade, Mit consegue saltar com o cavalo e escapar do ataque, mesmo com Vanter na garupa. Hagen e Lager também passam, mas os cavalos de Krul e Liv acabam sendo agarrados pelos bichos. Mit e Lager retornam para ajudar o oficial, e o arqueiro gaulês consegue livrar o cavalo de Krul acertando uma flecha num carcaju. Hagen tenta ajudar Liv, que já estava quase sendo derrubada, mas seu cavalo também acaba sendo mordido. Enquanto perdem tempo ali, mais carcajus saem das tocas e se juntam no ataque.

Enquanto Lager se afasta cavalgando, Mit e Krul ainda tentam ajudar, mas logo se veem cercados. Henzo lança outra bruma do sono, que faz dormir um carcaju, mas o outro consegue derrubar seu cavalo, agarrado fortemente ao pescoço do animal com sua mordida. Liv tenta ajudar o Cavaleiro da Bruma, mas acaba caindo do cavalo também. Os dois acabam sendo mordidos e trucidados pelos Carcajus Carcaças.

Aproveitando que os animais se reuniram para destroçar a feiticeira e o Cavaleiro da Bruma, Mit Maikon e Krul Petersen também conseguem se desvencilhar do cerco e cavalgar para longe dali, alcançando Lager Bier um pouco depois.

– Cara, cuidado com esses contatos com bichos daqui pra frente… – Alerta Mit para Vanther, que estava em sua garupa.

No fim da tarde, o grupo já tinha alcançado os limites do Bosque Morto, e podiam avistar, a oeste, a cidadela de Shyne, de onde tinham partido as tropas alamanas que estavam invadindo Joy Divile.

– Eu prefiro ir de barco… As cobras daqui são pica. – Insiste Mit, olhando para a cidadela: – E aí, Lager? Barco ou Bosque?

– Bosque. – Afirma Lager, reforçando sua aversão ao mar.

– Não enfrentaremos só cobras no Bosque Morto. Os alamanos também devem ter patrulhas por aqui… – Diz Krul, claramente triste com a perda de Liv Aussflag.

– Piorou. – Reforça Mit.

– Em Shyne o clima deve estar tenso. – Ressalta o oficial: – Mas a cidadela deve estar deserta, pois quase todos foram recrutados para a invasão.

– Lembra do velho Luc Kontagon, Lager? – Ilumina-se Mit.

– Sim, ele tem uma fazenda por aqui… – Recorda-se o necromante.

Krul gosta da ideia, e eles se dirigem para a propriedade do velho fazendeiro, que ficava a poucas milhas dali, na direção de Shyne. Chegando ao local, eles percebem que as coisas pareciam abandonadas. Somente algumas vacas pastando, nenhum cavalo. Com cuidado, eles desmontam dos cavalos e seguem para o casarão, que tinha pelo menos uma lareira acesa, pois havia fumaça na chaminé.

O velho Luc aparece na porta e logo reconhece Mit e Lager:

– Podem entrar, meus amigos. O que houve?

Muita coisa tinha acontecido naquele dia, mas agora eles só precisavam descansar um pouco e obter algumas informações.

Hagen e Liv estavam mortos. Se não fossem mais cuidadosos a partir dali, aquela missão seria um fracasso.

[Continua: 85. Guerra no Torreão]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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