85. Guerra no Torreão

85. Guerra no Torreão
Tropas protegendo o Torreão de Joy Divile.

[Antes: 84. Os Campos dos Carcajus]

Enquanto a equipe de Krul passava perrengue nos arredores de Shyne, a situação para os velgas não era muito diferente na batalha que acontecia em Joy Divile. Após atropelar a primeira barreira posicionada em Sunnig, as forças de Ighan Pendragon já se dirigiam para para o torreão na margem leste do Rio Celtik, onde seriam recebidas pelas tropas de Sin Kali.

No segundo pelotão, destacavam-se o tigunar Punwetas Nuseku, irmão de Lingwisas, que tinha acabado de morrer na linha de frente, o experiente anão velga Situ Panwas, e o vilando Sifuderus. Mas este último não teve muita chance de demonstrar suas habilidades, se fodendo ao levar uma flechada no coração assim que partiu para o combate. No primeiro ataque dos alamanos, metade da barreira tinha sucumbido. O General da Hokhe grita com seus comandados, mas a superioridade dos inimigos era marcante.

No campo de guerra, Punwetas derruba um bárbaro com seu montante pesado, mas logo recebe uma flechada no pescoço, que o faz sufocar com o próprio sangue. Lutando contra três inimigos, Sin Kali acaba sendo derrubado de seu cavalo e também é trucidado pelos alamanos, que comemoram a morte do líder das forças velgas, que recuam, ao comando de Jules Flanagan, que já estava ferido. Animados, os bárbaros avançam na direção da muralha que protegia o torreão da cavalaria, onde o anão Situ já descarregava suas flechas, entocado em uma torre de menagem.

Os arqueiros velgas tinham pela frente um desafio monstruoso. Mais de 15 mil alamanos se aproximavam de Joy Divile, sendo que pelo menos dois mil cavaleiros já avançavam na vanguarda, cercando o torreão, localizado no topo de uma colina. O resto das tropas da segunda barreira, dizimada na ação, tinha voltado para se abrigar atrás das muralhas. Naquele momento, eram apenas três mil velgas contra um exército cinco vezes maior. Do outro lado do rio, cerca de cinco mil cavaleiros da Dokhe e da Hokhe aguardavam para defender a cidadela do que parecia ser uma invasão inevitável.

Situ Panwas cheira três doses de Poeira Cristal e sente imediatamente o aumento de seus sentidos. No dia seguinte, se houvesse um, ele se preocuparia com o vício e o rebote. Enquanto isso, o tigunar Pedipanus se posicionava à espreita, no pátio atrás do portão principal do torreão, esperando os primeiros alamanos que invadissem o local, para golpeá-los de surpresa. Quem também aguardava aflito na contenção era o velho mago Ajiudus Geherus, preparando óleo fervente para despejar sobre os invasores. Aos 50 anos, Ajiudus não tinha qualquer experiência de guerra, tendo passado quase toda a sua vida servindo a corte em Joy Divile como bufão de festa, especialmente de crianças. Era apenas um mago elemental especialista em malabarismo com tochas. Mas naquele momento todos os esforços eram necessários, e ele tentava tudo o que podia para evitar o pior.

Os cavaleiros inimigos começam a escalar a colina e jogam cordas com ganchos sobre a muralha do torreão. Eram mil deles apenas no primeiro ataque. Ajiudus tenta derramar o óleo em cima de alguns deles, mas se atrapalha, erra o alvo e quase se queima. Guerrear era bem mais difícil do que arrancar risadas da nobreza. Para piorar tudo, as tropas da retaguarda estavam montando uma enorme catapulta, capaz de arremessar blocos de pedra gigantescos na direção do torreão. Jules Flanagan tenta conduzir uma patrulha ligeira para atacá-los, mas são logo rechaçados pela forte cavalaria alamana. Atingido por uma flecha no ombro, o jovem oficial velga se vê obrigado a bater em retirada, rumo a Joy Divile.

Sem comando na segunda barreira, as forças de resistência se desorganizam. Turbinado pela Poeira Cristal, Situ mata vários cavaleiros com suas primeiras flechadas, impedindo que os alamanos escalassem pelo lado da torre de menagem. Ainda assim, cerca de duzentos bárbaros já tinham conseguido alcançar o topo da muralha, e já saltavam para o pátio. De tocaia, Pedipanus matou dois deles, mas eram muitos invadindo o torreão.

Um dos guerreiros alamanos escala a muralha e alcança o setor bem à frente de Ajiudus, que se vê obrigado a lutar pela primeira vez na vida. Sem saber o que fazer, o mago arremessa a tocha que estava usando para ferver o óleo na direção do inimigo. Para espanto até mesmo do próprio Ajiudus, a peça de madeira acerta em cheio a testa do cavaleiro alamano, que cai nocauteado no pátio.

– Vai tomar no cu, seu vermes! – Exclama Ajiudus.

Aproveitando a deixa, o mago derrama todo o óleo e coloca fogo no local. Logo depois, ele corre pelo topo da muralha e escala algumas torres para chegar a um ponto mais alto, gritando:

– Queima, porra!

No pátio, Pedipanus continuava promovendo uma carnificina, matando todos os alamanos que pulavam a muralha e davam o azar de cair próximos a ele. No alto de uma torre, Ajiudus desce as escadarias para se proteger nas galerias internas do torreão. Quando escuta os passos de alguém que tentava persegui-lo, o mago para por um momento e aguarda o momento certo para usar seus poderes elementais e projetar uma labareda da tocha que estava segurando, na direção do inimigo. Lambendo de fogo, o bárbaro corre gritando até morrer carbonizado. Feliz com a estratégia que tinha dado certo, Ajiudus resolve ficar por ali na escada em formato de caracol, aguardando o próximo infeliz que resolvesse aparecer ali.

A catapulta dos alamanos arremessa um pedregulho enorme diretamente na torre norte, de onde Situ Panwas estava alvejando os inimigos. O anão morre desgraçadamente soterrado pelos escombros de pedra. No pátio central, Pedipanus já não conseguia mais escamar os bárbaros, tendo que lutar com diversos deles ao mesmo tempo. Com muita bravura, o tigunar consegue matar diversos oponentes, lutando de forma magistral com seu montante de guerra. Mas o segundo projétil lançado pelas catapultas abre um rombo imenso na muralha, possibilitando a invasão de uma centena de cavaleiros.

Sentindo que não haveria mais como dar combate no local, Pedipanus recua para uma torre lateral, onde poderia continuar lutando no mano a mano nas escadas. A maioria dos desfensores foge para a torre central, onde havia o acesso à ponte que atravessava o rio, para o outro lado da cidadela. Assim que os sobreviventes entraram, as tropas velgas baixaram o pesado portão de madeira. O pátio já estava tomado pelos bárbaros.

No interior da torre central, o velho Kingsaiz tentava organizar a resistência. Nos últimos dias, o vilando ainda estava na enfermaria, se recuperando dos excessos de Poeira Cristal utilizada na última “missão”, na Jubo Ket. Encurralado, o pai de Kezia percebe que não sairia vivo dali, resolve mandar o tratamento às favas e aspira uma carga que ele sabia que seria fatal:

– Foda-se.

Era o sacrifício final. No meio da tarde, menos de mil guerreiros velgas ainda estavam vivos, abrigados nas estreitas torres laterais e principalmente na torre central, sendo que muitos feridos. Nesta última, restavam duas opções de combate: subir as escadaria internas, para ajudar a conter os bárbaros que invadiam por cima, como estava fazendo Ajiudus, que continuava incendiando os inimigos que tentavam descer por ali, ou aguardar no salão da torre pelo momento em que o portão fosse derrubado, quando se daria um confronto sanguinário. A terceira opção era a fuga, seguindo pelas passagens internas que davam acesso à ponte para o outro lado de Joy Divile.

– Fugir nunca! – Gritou Pedipanus, tomado pelo pó, atiçando os companheiros que ameaçavam fugir.

No alto da torre lateral, outro anão arqueiro, de nome Tokinwos, ainda se ocupava de alvejar os alamanos que estavam no pátio, usando uma pequena seteira. No interior da torre central, os mais fortes como Kingsaiz ainda ajudavam na contenção dos aríetes que os bárbaros usavam para tentar derrubar a porta.

– Até o último guerreiro! – Exclamou Kingsaiz, fazendo força para segurar o portão.

Apesar da grande desvantagem numérica, Pedipanus aproveitava bem a arquitetura estreita da torre lateral para matar e derrubar vários alamanos. Tokinwos também consegue eliminar mais de uma dezena de bárbaros, acertando flechadas fatais nos inimigos que já se amontovam no pátio. Mas a quantidade de gente empurrando o aríete tinha se tornado indefensável, e o portão acabou cedendo.

Quando ouviu o estrondo no primeiro andar da torre, Ajiudus percebeu que era hora de correr para a ponte. Se ficasse ali, logo estaria encurralado. Rapidamente, o mago desce as escadarias da torre central e começa a seguir pelas galerias internas até a ponte que cruzava o Rio Celtik. Tokinwos, ao contrário, resolve ficar no posto da seteira, e logo se vê obrigado a enfrentar um bárbaro. Enquanto lutava, o anão escutou outro barulho alto: a catapulta dos alamanos tinha derrubado a outra torre lateral, abrindo mais um rombo na muralha. A próxima poderia ser aquela.

Quando Ajiudus já se encontrava no acesso à ponte, escutou os gritos dos companheiros mortos no desabamento da ponte, e resolveu voltar:

– Agora vou lutar até morrer! Que se foda!

Tomado por um ânimo que nunca teve em sua carreira de animador de salões, o mago corre pelos corredores, com a tocha acesa nas mãos, projetando labaredas nos inimigos que já conseguiam chegar até as galeria internas. A cada morte que provocava, Ajiudus cuspia, xingava e ria como um louco dos sujeitos que corriam pegando fogo. Com uma única flecha de fogo, o mago conseguiu a proeza de matar dois inimigos. Parecia mesmo que o deus da Guerra estava a seu lado naquele momento.

No salão da torre central, Kingsaiz luta contra dois, três inimigos ao mesmo tempo, que tentavam cercá-lo. Com toda a fúria, o vilando resiste miraculosamente às investidas, com aquela confiança que só a Poeira Cristal era capaz de dar. O mesmo valia para Pedipanus, que continuava eliminando um a um os inimigos que tentavam subir pela torre lateral. Mas a catapulta continuava varando pedregulhos sem parar, sem se importar que os projéteis matassem indiscriminadamente as próprias tropas. Agora era a torre sul que tinha desabado. Com isso, só restavam a torre central e a leste, onde Tokinwos lutava agora contra dois inimigos.

A quantidade de alamanos no salão interno da torre central era assombrosa. Cercado por cinco bárbaros, Kingsaiz acaba sendo nocauteado por um violento golpe pelas costas e cai no chão, onde termina sendo estripado pelos inimigos. Uma verdadeira multidão também empurrava Pedipanus escadaria acima, fazendo-o tropeçar, encurralado. Na torre lateral, Tokinwos ainda resistia, matando os dois alamanos que tinham chegado até lá. Mas toda aquela valentia não tinha como fazer diferença, dada a desigualdade numérica.

Pedipanus ainda tenta se defender, mas acaba empalado na escadaria por uma das muitas lanças que projetavam em sua direção. Cercado por dois alamanos, Ajiudus é presa fácil, e termina seus dias tendo a cabeça decepada por um machado. Os bárbaros tinham tomado completamente a torre central. Com a exceção de Tokinwos, que continuava em seu posto na seteira da torre lateral, matando todos os inimigos que apareciam por lá, os poucos guerreiros da resistência já tinham fugido pela ponte. Aproveitando a “calmaria”, o anão volta a usar o arco para vitimar mais alguns alamanos no pátio.

Mas agora os bárbaros tinham todo o tempo do mundo para preparar a mira da catapulta. A última coisa que Tokinwos viu foi uma pedra do tamanho de uma carroça sendo atirada em sua direção, matando-o instantaneamente e derrubando a torre onde estava.

A resistência no torreão tinha sido heroica, matando o dobro dos soldados que tinha perdido.

Ainda assim, os invasores conseguiram o que queriam, e agora estavam apenas a uma ponte de distância da cidadela de Joy Divile.

Aquela seria uma longa noite.

[Continua: 86. Na Taberna em Eredra]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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