88. Rumo ao Desconhecido

88. Rumo ao Desconhecido
Lager Bier, velga de Joy Divile, mago necromante da Dokhe.

[Antes: 87. A Batalha no Castelo]

Quando a guerra já chegava ao fim em Joy Divile, Krul Petersen, Lager Bier e Mit Maikon, que estavam no litoral de Eredra caminhando pelas pedras na direção de um mosteiro de Hiniar localizado num penhasco à beira-mar, perceberam que o galeão tinha fundeado a cerca de meia milha da costa. Num píer do convento, um bote grande, com capacidade para umas vinte pessoas, estava sendo preparado para zarpar. Com certeza, aquela era a movimentação que levaria a Rainha para a embarcação.

– Pensem bem. Se tentarmos salvar a Rainha agora, podemos acabar mortos, e ninguém nunca mais vai saber que mandaram ela nesse galeão. – Apontou Lager: – Acho que devemos seguir o mesmo caminho. Pode ser importante.

– Vamos tentar chegar no bote, sem alarde. – Sugeriu Mit.

– Sim, ninguém vai perceber se der merda no bote… – Ironiza o necromante: – Vamos juntos, galera. Vai ser maneiro.

– Podemos tentar seguir esse bote e se entocar no galeão. – Concorda Mit.

– É arriscado demais. Seríamos pegos no dia seguinte. – Diz Krul.

– Eu me garanto lá dentro. – Insiste Lager.

– Então vai só você. Eu e Mit tentamos tomar o bote. – Rebate Krul.

– Dá não, cara. – Responde o gaulês: – Por mim vamos nós três no entoque.

– Vou fazer o quê sozinho no desconhecido? Comprar um lote de terra pra plantar? – Debocha o necromante: – Viaja não. Vamos todos nos esconder nesse galeão.

– Entrar nesse barco é rumar pro berço dos alamanos. – Diz Krul.

– Chefe, agora é praticamente impossível salvar a rainha. – Diz Mit: – E mesmo que a gente consiga, você mesmo disse: como vamos levá-la de volta?

– Krul tem medo do desconhecido. – Provoca Lager.

– Então vamos. Você fala muito, necromante. – Afirma Krul.

– Vamos pegar algum barco e tentar ir pelo outro lado. – Diz Lager, ignorando a crítica: – Todos estarão de olho no bote. A gente se aproxima pelo lado oposto.

Krul e Mit concordam. Eles então voltam para o cais e a primeira embarcação que avistam disponível é uma canoa rubra para seis pessoas. Sem mais alternativas, o grupo aproveita a escuridão para furtá-la, e partem remando na direção do galeão, usando uma leve bruma de fuga para não serem vistos. Quando já estavam no meio do caminho, percebem que o bote oriundo do mosteiro também tinha zarpado.

– Vamos chegar mais perto e ir nadando até o galeão. – Diz Lager.

Ainda de longe, já era possível ver que o galeão era equipado com escotilhas laterais, a três metros do nível do mar. O convés estava iluminado com lamparinas. Na proa e na popa, também podiam avistar as amarras lançadas ao mar, roçando o casco do navio.

– Vamos subir pela corda da âncora. – Sugeriu Mit, recebendo o sinal de anuência dos companheiros.

Quando já estavam bem próximos, no entanto, um dos marinheiros nota algo de estranho naquela massa de fumaça negra se aproximando do galeão e dá o alerta. Várias flechas são disparadas na direção do grupo, que decide mergulhar e submergir, nadando para perto do casco, do outro lado do galeão. Os marujos continuavam mirando a canoa, e se espantam quando a névoa dissipa revelando a pequena embarcação vazia.

Enquanto isso, ainda sob o efeito da poeira cristal, Lager consegue escalar a corda da âncora até entrar por uma das escotilhas. Mit tenta fazer o mesmo, mas acaba se desequilibrando e cai na água, chamando a atenção de alguns marujos que correm para averiguar aquele lado do casco. O arqueiro e Krul mergulham mais uma vez e aguardam um tempo submersos.

No porão do navio, Lager Bier se vê em um ambiente absolutamente escuro, úmido, insalubre e fedorento, tomado por tonéis e jaulas de madeira, com porcos e ovelhas. Não havia mais ninguém por ali. Olhando pela escotilha, que eram os únicos pontos de luz no local, ele vê quando Mit e Krul emergiram para respirar.

Mit escala a corda novamente, e dessa vez dá um salto e obtém a ajuda de Lager para entrar na escotilha, apenas um segundo antes de ser visto. O barulho da movimentação na água novamente tinha chamado a atenção dos marujos no convés, que dessa vez avistam Krul e começam a atirar flechas. O oficial mergulha para tentar se safar, e Lager lança na água uma bruma de fuga que escurece tudo por ali.

No porão, Mit e Lager se escondem atrás das jaulas dos porcos, tendo que suportar um cheiro horrível. Observando as flechas passarem raspando ao seu lado na água, Krul desiste de tentar embarcar e nada por um bom tempo submerso, na direção do litoral. A bruma de fuga lançada por Lager Bier tinha salvado sua vida. Nervosos com a fumaça, os marujos descem um bote para averiguar a área ao redor do navio e a canoa à deriva.

De longe, Krul avista quando a embarcação que tinha zarpado do mosteiro chega ao galeão, e os alamanos descem uma escada de cordas para içar algumas pessoas. A Rainha Anni estava entre elas. Mas agora ele não tinha outra opção: devia retornar o mais rapidamente possível para as terras velgas e organizar outra expedição para tentar seguir aquele navio alamano. Pelo menos ele tinha dois espiões a bordo, a quem os magos poderiam tentar rastrear.

Enquanto isso, no porão inferior do galeão, Mit e Lager decidiam o que fazer:

– Nego deve vir aqui de vez em quando. – Alertou Mit, falando baixo.

– Vamos continuar entocados por um tempo. – Concorda Lager.

Os dois aguardam algumas horas escondidos, e veem quando um sujeito careca gigantesco, usando um tapa-olho, desce com uma lamparina para pegar um dos animais, que é morto e estripado ali mesmo. Após alguns instantes, o alamano sobre de volta a escada para o porão superior, e fecha o alçapão que separava os dois ambientes. Pelo menos naquele momento, eles sentem que teriam algum tempo para investigar o local e procurar um abrigo melhor naquele recinto nauseante.

Usando uma bruma de brilho, Lager logo descobre, pelo cheiro, que alguns daqueles tonéis transportavam rum. Bêbado contumaz, o necromante fica muito satisfeito com aquilo:

– Ei, Mit! Bebida não vai faltar na viagem…

Nos demais tonéis, também havia água e alguns cereais, além dos animais enjaulados, o que já era suficiente para que se mantivessem alimentados durante toda a viagem.

Cerca de uma hora depois, completamente exausto, Krul Petersen já tinha alcançado o cais de Eredra, de onde saiu sorrateiramente, aproveitando a escuridão da madrugada, para voltar ao Bosque Morto, onde tinham deixado um cavalo. De lá, o oficial partiu para a fazenda de Luc Kontagon, com o objetivo de resgatar Vanther Hal.

Quando o velho Luc dá a notícia do que tinha acontecido na guerra, Krul comemora como se tivesse ele mesmo participado da batalha. A notícia era ótima, pois assim eles poderiam retornar para Joy Divile, que ficava a poucos quilômetros dali, contornando a vila de Sunnig, para onde as tropas de Ighan tinham recuado. Era uma viagem mais tranquila para que Vanther pudesse receber um atendimento adequado. O mago elemental tinha sido bem cuidado pelo fazendeiro, mas naquele momento continuava sem poder movimentar as pernas.

Por incrível que fosse, da patrulha de elite que tinha deixado Darklands para tentar resgatar a Rainha, ninguém tinha conseguido seguir adiante. Além de Krul, dois estavam mortos e um ferido. Mas os dois reles batedores recrutados em Joy Divile para guiá-los até Eredra sim, tinham conseguido embarcar no galeão que levava a Rainha Anni. A notícia ruim é que nem Mit nem Lager jamais tinham visto a soberana do Reino de Viktoria.

Enquanto cavalgava de volta a Joy Divile, Krul Petersen não conseguia parar de pensar naqueles jovens aventureiros. Pelos desígnios de Hagalaz, as esperanças dos velgas estavam agora depositadas no destino de dois verdadeiros desconhecidos. Especialmente aquele mago vagabundo e atrevido, que tinha questionado suas ordens, era um bêbado impertinente, mas tinha lhe salvado a vida em um momento crucial da missão.

No porão inóspito, Mit pensava em seus companheiros de barreira que tinham perdido a vida naquela guerra: Dinwo, Zekinwas, Sidji, Ale, Tiaun… Quantos outros mais já não estariam mortos àquela altura? Será que tinham conseguido resistir às tropas do Mestiço? Mas todas essas perguntas pareciam agora secundárias. De uma hora para outra, ele estava em um galeão atravessando o Mar Exterior, rumo a algum continente desconhecido. Ele, um simples arqueiro, que nunca tinha deixado Joy Divile em sua vida.

Já Lager Bier olhava pela escotilha o continente de Asgaehart se afastando e não podia deixar de sentir uma enorme empolgação. E uma certeza: estava rumando para o desconhecido. Naquele momento, podia jurar que algum dia voltaria com um mapa de um mundo novo para compartilhar com seus conterrâneos. Em menos de uma semana, tinha vivido uma experiência louca na Jubo Ket e agora estava ali, no porão de um galeão imenso, cercado de porcos, ovelhas, fezes, urina e muito rum.

Nada mal para um criador de pombos.

[Continua: 89. Porrada em Fetifaustus]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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