89. Porrada em Fetifaustus

89. Porrada em Fetifaustus
Rio Celtik, em Joy Divile.

[Antes: 88. Rumo ao Desconhecido]

O Conde Nargus Divile parecia preocupado, apesar da vitória. Afinal, tinham acabado de enterrar ou cremar milhares de pessoas, e as forças de defesa tinham sido arrasadas, reduzidas a pouco mais de dois mil homens, metade deles reforços vindos de outros reinos da Tetrarquia. Além disso, Ighan Pendragon não tinha gostado da derrota, mas estava tranquilo demais e aquilo era um mau sinal. O Mestiço certamente não estava brincando quando disse que criaria um título de nobreza para seu irmão Angus, elevando o status de Sunnig. Um condado que já nascia mais forte que a vizinha Joy Divile, destroçada na guerra.

A Batalha de Joy Divile tinha sido uma das mais sangrentas dos últimos tempos. Mais de vinte mortos, um resultado mais letal que a Aurora da Morte que tinha dizimado Yaztrik há pouco mais de duas décadas. Com a morte de Sin Kali, a Hokhe tinha aclamado Jules Flanagan como seu novo General, o mais jovem da história, com apenas 27 anos, devido à bem sucedida estratégia com os DKs que tinham minado as forças de Ighan Pendragon em Joy Divile, garantindo uma vitória improvável.

A verdade é que, tendo ele próprio estado à frente da resistência e quase morrido em combate, Jules Flanagan era o primeiro líder em muito tempo que tinha grande moral com os soldados das duas cavalarias. Não bastasse o jovem ser reconhecido como um dos integrantes do grupo lendário que matou Calto, o novo general demonstrava grande senso de liderança.

O tigunar Suva Kaun Dikristus, responsável pela vitória final, também tinha sido promovido a Gargo, recebendo o convite de Jules para se tornar um dos instrutores da ACAFAM, em Van Hal. Dali pra frente, a fama do antigo chefe da guarda pessoal de Joy Divile ganharia terreno, chegando mesmo a ser convidado pela Clave para contar sua façanha contra Panzer Reich. Pelo código dos Cavaleiros de Helgar, a armadura sagrada deveria ter sido entregue a Suva, que tinha matado o antigo dono, mas os alamanos levaram o corpo sem tocar no assunto, e novamente iriam entregá-la para um arauto ilegítimo. Na Clave, os oficiais mais experientes não estavam preocupados com isso:

– Eles não aprendem. Os Cavaleiros de Helgar que não tomam suas armas pelo sangue, morrem cedo pelo sangue. – Afirmou Darius Agazar, ele mesmo filho de um lendário arauto do deus da Carnificina: – Só os legítimos se tornam heróis.

Em Joy Divile, apesar de certa tristeza pela morte de milhares de guerreiros, também havia muita comemoração. A cidadela tinha resistido heroicamente à ameaça do Rei Mestiço, e havia muitas viúvas para confortar. As tabernas estavam cheias, e várias festas foram realizadas para celebrar a vitória. E, no meio de tanta bebedeira, é lógico que não poderia faltar muita confusão.

Com a morte de Zekinwas, Fetifaustus Zoila, o vilando gordo suarento que vivia xingando o tigunar na primeira barreira passou a agredir a família do falecido, sempre que podia. Todos os homens adultos tinham morrido na guerra, restando apenas idosos, crianças e mulheres. No meio de toda aquela festa, o sujeito repugnante vivia com uma garrafa de rum e um osso de galinha gorduroso nas mãos, gritando que o Garrafeiro era um merda, e que na família dele agora só tinha um bando de bunda mole.

Emputecido com aquilo, o tigunar Kontreraz, um dos sobreviventes da batalha, resolveu tomar as dores do falecido amigo. Armado com seu arco, o guerreiro se dirigiu à fazenda de criação de porcos da família Zoila, e gritou para que Feitifaustis escutasse:

– Aí cuzão! Vai ficar falando do Zekinwas é o caralho!

Kontreraz não estava sozinho. Com ele também chegaram Ebikamargus, irmão do falecido Desigon Salvis, e Stut, outro tigunar, um dos filhos de criação do velho Just Bier, criador de pombos e dono de uma taberna conhecida na cidadela. Ebikamagus estava convicto de que Fetifaustus só tinha sobrevivido à batalha porque foi covarde, deixando de ajudar os feridos. Já Stut Bier andava sempre com um Papadarlo, tipo de papagaio exótico da Costa Leste, um bicho irritante que não parava de falar apenas uma única frase:

– Não vai não! Ele não vai não!

Assim como seu pai e seus irmãos, Stut tinha se especializado na criação de animais, e os Papadarlos eram sua mais nova obsessão. Como o bicho era muito chato, não eram poucas as vezes em que pessoas irritadas com aquela frase repetida ad nausean matavam os pobres papagaios, mas os animais procriavam rápido, e Stut sempre tinha uns três ou quatro à mão para vender ou dar de presente aos viajantes de locais distantes que visitavam a cidadela.

Naquele dia, a fazendo dos Zoila parecia vazia, com os porcos recolhidos nos chiqueiros. Mas Kontreraz, Ebikamargus e Stut observaram que a porta da Casa Grande estava aberta, e havia fumaça na chaminé. Provavelmente estavam almoçando.

– Zoila seu filho da puta! Sai pra fora que tua hora chegou! – Gritou Ebikamargus, seguindo Kontreraz, que já invadia a propriedade.

Com aquela gritaria, não demorou muito para que algumas crianças vilandas aparecessem na porta, e outras com a cabeça de fora, nas janelas do casarão.

– Tô querendo falar com o pai de vocês. – Explicou Kontreraz, antes que o próprio Fetifaustus desse as caras por ali, sem camisa.

– Viado! – Gritou Kontreraz, partindo para a briga.

– Fetifaustis, seu viado filho da puta! Tu vai morrer viado! – Exclamou Salvis.

– Vai ser um contra três, três contra três, ou três contra quinze?! – Pergunta o gordo, ironizando, já chamando seus irmãos Xupi e Xubi Zoila.

– É mano a mano, seu pudim de banha! – Afirmou o irmão de Desigon: – Vai se fuder, seu gordo! Falador do caralho! Tu vai morrer, fedorento!

Kontreraz parte pra cima de Fetifaustus, enquanto Ebikamargus luta com Xubi e Stout com Xupi. De primeira, o gordo acerta uma bolacha no tigunar, que absorve bem, enquanto a trocação franca segue equilibrada nos demais confrontos. Kontreraz devolve a porrada no oponente, e Xupi também acerta um bom chute em Stout.

– Xubi, seu fedorento do caralho! Tua mãe trepou com um gambá e nasceu essa família?! – Provoca Ebikamargus, gritando, antes de levar uma porrada do oponente, que se enfurece com o xingamento.

– Fedorento! – Diz o irmão de Desigon: – Tu vai pagar por essa porrada…

Após mais um bom tempo de pancadaria servida, Kontreraz acerta um soco forte na cara de Fetifaustus, que sente as pernas e cai no chão. Sem perder tempo, o tigunar avança e apaga o vilando obeso com um chute na têmpora. Mas ao lado era Stut que levava um prejuízo, recebendo uma porrada na nuca que o faz perder as pernas. O filho de Just tenta se levantar, mas recebe outro soco que o mantém no chão.

– Caralho, Stut! Veio brigar bêbado de novo! – Gritou Salvis, que tinha acabado de acertar mais um golpe na barriga mole de Xubi.

Stut Bier consegue se levantar, evitando o esmagamento que seu oponente já tentava realizar no chão. Enquanto isso, o irmão de Desigon acertava várias porradas seguidas em Xubi, que já não demonstrava mais sinais de resistência. Os irmãos de Fetifaustus tentam reagir, mas também acabam sendo derrotados.

– Vocês zuaram a galera errada. – Diz Kontreraz, já amarrando seu oponente.

Os demais irmão da família Zoila ameaçam sair da casa para intervir, mas Salvis exclama, com uma pedra na mão:

– Foi mano a mano. Se vocês vierem a cabeça do Xubi vai virar purê!

– Podem levar Fetifaustus, que é chato pra caralho mesmo, e mereceu a surra. Mas deixem Xupi e Xubi, que não têm nada a ver com isso. – Pediu Bahigaz, outro dos irmãos Zoila: – E peço que deixem-no vivo, para aprender a respeitar os outros.

– Tá fechado. – Afirma Ebikamargus.

Kontreraz tira as roupas de Fetifautus, que estava começando a despertar da surra, e o leva amarrado, ainda grogue, para a praça central de Joy Divile. Logo atrás, Salvis e Stut seguiam chicoteando o gordo com galhos, incitando o povo nas ruas a fazer o mesmo. Logo um bando de crianças seguia o cortejo, rindo e arremessando detritos no vilando obeso.

– Molecada de Joy Divile! Hoje é dia de diversão! – Exclamava Salvis, enquanto rodavam com o prisioneiro nu pela cidadela.

Amarrado num tronco, Fetifaustus tem a testa marcada em ferro em brasa por Stut com a inscrição: “EU SOU CUZÃO”. A criançada parecia se divertir bastante com a sucessão de barbaridades a que o prisioneiro era submetido.

– Acho que a gente podia fazer ess e festival todo ano, hein? – Sugeriu Stut, para horror de Fetifaustus, que não tinha ninguém ali para o defender.

Era algo a se pensar. Todo ano, alguém de Joy Divile poderia desafiar o gordo. Se ele perdesse, tronco. Em pouco tempo aquilo poderia virar uma tradição da cidadela.

Uma tradição pra lá de bizarra.

[Continua: 90. A Viagem da Mátria]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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