91. O Cantão de Divile

91. O Cantão de Divile
O Professor, líder do bando de mendigos no Cantão de Divile.

[Antes: 90. A Viagem da Mátria]

Logo após a vitória na batalha contra os alamanos em Joy Divile, a cidadela estava devastada. Se, no lado oeste do Rio Celtik, onde a nobreza tinha a maioria de suas propriedades, aos poucos a normalidade ia sendo restaurada, a área na margem leste do rio, outrora controladas pelo torreão da cavalaria, que estava em ruínas, tinham virado uma terra de ninguém.

Logo no dia seguinte ao fim da batalha, uma multidão de desabrigados tomou os escombros do torreão e instalou ali um tipo de cortiço horrível, com toda o tipo de escória: aleijados de guerra, traficantes de Poeira Cristal, viciados e doentes sem família, ladrões procurados e fugitivos de toda espécie. Pouco tempo depois, o lugar já era chamado de Cantão de Divile, ou CDD. Entre os líderes do movimento, estavam um dos filhos do velho Just, chamado Maron Bier, que logo viu uma ótima oportunidade de faturamento, e um certo “Professor”, uma figura sinistra de mendigo velho e sem um dos braços, que ninguém sabia de onde tinha saído, e seus ajudantes Hiu Hep, Nayki, Ridok e Karadibu Seta.

Quando o Conde Nargus tomou conhecimento do que estava acontecendo, mais de duzentas pessoas já moravam na área, o que complicava bastante para que fossem retirados de lá. Alguns guerreiros velgas, como Kontreraz e Stut Bier, davam cobertura para que o cortiço crescesse, em troca de algumas moedas de ouro obtidas com o tráfico. O problema, no entanto, é que grupos da região começaram a praticar crimes nas redondezas, e alguns deles chegavam a se arriscar roubando e estuprando no outro lado do rio. Entre eles, um sujeito chamado Maka Haun, que roubava pobres camponeses com a advertência:

– Não é nossa intenção esculachar trabalhador não, entende? Tô pedindo na moral pra me entregar os pertences.

O bando de Maka também contava com outros integrantes da mesma laia: Timaya, um gordo fétido, Zeda Kuyka, um tigunar esquálido, Alegaun e Vaskaun, dois menores de idade recrutados entre os desabrigados de guerra. Mas outros bandos também se formavam naquela terra sem lei, como aquele liderado pelo vilando Abso Lutengov, que contava com Bahigaz, da família Zoila, o ileano Brasin e os tigunares Fofus e Suva Kudikobra.

Para tentar aliviar a situação, o Professor deu a ordem de que seu comandados se juntassem ao esforço de guerra, pois haviam rumores de que os velgas juntariam uma nova força em Joy Divile. Como contrapartida, o chefe da CDD queria obter algum tipo de salvo-conduto, para garantir que sua comunidade continuasse a salvo. O que se tratava obviamente de uma grande ilusão, pois os oficiais da cavalaria simplesmente ignoravam aquele movimento. Pelo menos por enquanto.

– O professor é inteligente. Dá aula. – Concordava Maka Haun, tão iludido quanto o chefe.

Não passavam de um bando de mortos de fome, ocupando as ruínas de um torreão destruído. Por algum motivo, no entanto, sentiam-se protegidos. Como se Asgaehart não fosse um local extremamente perigoso e violento para pobres, que não teriam a proteção de absolutamente ninguém se não se curvassem a algum poder instituído. Em outras palavras, valia a lei do mais forte. E aqueles pobres coitados eram mais fracos do que um simples regimento de cavalaria.

Jules Flanagan, definitivamente, não estava preocupado com nenhum mendigo. Seus planos eram bem maiores, voltados contra inimigos reais. Após a batalha de Joy Divile, onde os velgas conseguiram resistir bravamente às tropas comandadas por Ighan Pendragon, jovem rei de Saravessa, Jules sabia que “O Mestiço” estava planejando um contraataque. Com astúcia, Ighan tinha se retirado para a vila de Sunnig com pouco mais de cinco mil guerreiros alamanos que sobreviveram à batalha, erguendo ali uma fortaleza para suas tropas.

O filho da Rainha Anni também proclamou seu aliado Angus Divile como Conde de Sunnig. No ano anterior, Angus tinha sido expulso de Joy Divile pelas tropas leais ao seu irmão Nargus, atual Conde de Joy Divile. Segundo informações da Bruma de Darklands, que enviou agentes para espionar a movimentação na vila, o Mestiço estava preparando um retorno arrasador contra a cidadela, que agora contava apenas com cerca de 2 mil guerreiros.

Para isso, Ighan tinha o reforço de mais cinco mil guerreiros recrutados na Costa Siméria, vindos de Eredra, Treva, Darva e Saravessa. Também havia rumores de que a violenta tribo bárbara dos Karakalas, alamanos brutos e semi-selvagens que habitavam a Floresta Escarlate, na Gerânia, liderados pelo temível Kreont, o Sujo, tinham desembarcado em galeões de seus aliados para apavorar o balneário de Joy Divile. Os Karakalas eram conhecidos pela extrema coragem, agressividade e crueldade, e muitos diziam que eram imunes à dor. Segundo a Bruma, Kreont poderia conduzir cerca de três mil guerreiros para o ataque.

Na Clave, o General Jules Flanagan apresentou seu plano arrojado: invadir a cidadela de Yaztrik, que há quase vinte anos tinha sido arrasada pela primeira energia infernal liberada em Asgaehart, e desde então era mais um território tomado pelos alamanos. Para isso, ele estava disposto a levar sua própria cavalaria pessoal: quatro mil cavaleiros da Hokhe de Van Hal, rumo a um ataque surpresa contra a cidadela céltika. Jules pedia reforços aos companheiros de Clave, deixando claro que não levaria infantaria, pois o ataque teria de ser fulminante.

Kadwan den Darklands, General da Dokhe, decretou seu apoio ao jovem líder da cavalaria irmã, e se comprometeu a liderar pessoalmente três mil cavaleiros para o ataque. Martin McFerris, de Terras Altas, também estava disposto a reforçar o plano com mais três mil cavaleiros da Hokhe, o que completaria o contingente de dez mil homens que Jules acreditava ser necessário para um ataque avassalador contra Yaztrik, antes que as tropas de Ighan pudessem reagir. Seria um golpe rápido contra cerca de dois mil guerreiros alamanos que defendiam a antiga cidadela velga.

Antes de autorizar o reforço, porém, o Gargo Gigantrix de Terras Altas fez uma exigência:

– A Hokhe de Terras Altas jura lealdade ao seu General, o jovem e bravo Jules. Antes disso, porém, devemos nos reunir para uma missão de limpeza rápida em Joy Divile!

Limpeza? Do que Martin estava falando? Para todos os oficiais, Joy Divile tinha vencido a batalha contra os inimigos. Mas Martin aumentou o tom de indignação:

– Algo simplesmente inaceitável está acontecendo por lá! Um bando de duzentos vagabundos tomou as ruínas do torreão leste da cidadela, que foi destruído na guerra, e está apavorando os viajantes desavisados na região! O Conde Nargus está tendo dificuldades na reconstrução, porque aquela escória não quer sair de lá!

Começa um falatório na Clave, pois os demais Gargos Gigantrixes não sabiam da situação. Martin continuou, irritadíssimo:

– Eu pergunto a vocês, senhores: somos a Clave ou essa porra virou bagunça?

– Temos que varrer essa mendigada. – Afirma Darius Agazar.

Não há muito o que dizer após aquilo. Quando a informação da iminente invasão circula em Joy Divile, Kontreraz leva o recado para o Professor:

– Martin McFerris exigiu, e vão invadir o torreão, galera.

Naquele momento, Maron Bier já não era mais visto por ali. Ao primeiro sinal de que as coisas sairiam do trilho, um dos líderes da CDD já tinha fugido para paradeiro desconhecido.

– McFerris é viadinho. Quero que ele tente invadir. – Avisa Hiu Hep.

– Vamos fugir. Dá pra bater de frente não. – Diz Maka Haun: – Mas quem manda é tu, professor.

– Vamos fugir pra Hogan. – Ironiza Abso.

– Por que Hogan? – Questiona Maka, ignorante como só ele.

– Reino inimigo. – Responde Lutengov, começando a rir.

– A parada aqui é séria, vacilão. – Rebate Haun, preocupado.

– Abso escolheu o lado dele. Somos duzentos contra cinco mil. Qual será o lado de Abso? – Debocha Hiu Hep: – Abso é inimigo.

– Inimigo é você, bundão. – Devolve Abso, já se preparando para sair do torreão com sua gangue: – Vamos sair pra emboscar alguns alamanos.

– Um monte de viciado maluco a beira da morte contra cinco mil guerreiros de elite. – Declara o Professor: – Lógico que vamos resistir, porra.

– Se alguém ficar pra resistir, eu tô junto. – Afirma Hiu Hep.

– Vai peidar? – Pergunta o Professor, com sua voz fininha e seu braço amputado: – Tenho certeza de que tu tá comigo!

– Aí Professor… Abso tá zoando? – Pergunta Maka Haun, assim que Abso deixa o recinto.

– Deixa ele… Se aparecer de novo na CDD vai virar comida de porco. – Responde o Professor: – A vagabundagem que tá comigo tem que continuar na pista metendo os assaltos e fortalecendo a firma.

– Qual vai ser? – Questiona Maka.

– Vamos resistir. – Banca Hiu Hep.

– Pode vir Franagan, Hogi, Dogi e os caralho. Aqui nininguém entra e ninguém sai.

– Mas Professor, qual será a nossa estratégia? – Perguntou um dos vagabundos, no fundo.

– Estratégia? Estratégia de cu é rola! Aqui é disposição e Poeira Cristal na mente! – Decretou o líder da CDD.

Ao comando do Professor, Maka Haun também deixa o torreão com uma parte do bando, com o objetivo de conseguir uns ganhos. Enquanto isso, Lutengov já deixava o lugar com sua gangue, mas avisa a um dos integrantes:

– Você não vai com a gente, porra! Já avisei!

– Tranquilo. – Responde Fofus, com sua voz extremamente anasalada.

Quando os dois grupos de vagabundos se encontraram nos arredores da cidadela, as tropas da Hokhe já tinham chegado para cercar o torreão. Para a maioria dos cavaleiros, aquela missão era inglória: olhavam aquele cortiço como se fosse um ninho de baratas.

– A CDD vai deixar de existir. – Dispara Abso, olhando a movimentação de cima de uma árvore.

– O quê? Tu tá maluco?! – Revolta-se Maka Haun: – Tá falando besteira.

– Maluco? Eu? – Responde Lutengov.

– Tu vai ser detido no torreão até segunda ordem. – Afirma Maka.

– Detido é meu ovo. – Responde Abso, já descendo da árvore: – Nós vamos ficar aqui pra emboscar uns inimigos.

– Não. Tu tá detido. Tá dada a ordem. – Insiste Haun.

– Tu quer é fazer graça, né? – Replica Abso.

Enquanto discutiam, Jules Flanagan manda o Destinado Jan Fleissig no torreão, com um ultimato: se não saíssem de lá imediatamente, seriam todos mortos. Os vagabundos que ainda tinham algum nível de consciência resolvem fugir dali, mas uma boa parte dos viciados continuava com o Professor, que insistia:

– Ninguém entra e ninguém sai. Mac Ferri seu filho de uma puta! Bota a cara aí, cuzão! Quer invadir? Tenta a sorte que o azar é certo! Arrombado do caralho!

De fato, não saíram. Mas milhares entraram. Quando Martin McFerris chegou ao local com três mil cavaleiros da Hokhe, sem perguntar nada ao General, a carnificina foi rápida. O Professor, Hiu Hep, Nayki, Ridok e Karadibu Seta foram esmagados como insetos.

Nos bosques fora dali, Abso e Maka testemunharam a destruição da CDD. Agora só restavam eles de vagabundos em Joy Divile.

– Com a morte do Professor precisamos definir o novo líder. – Disse Lutengov, complementando: – E no meu grupo não vai ter viciado.

– Tu é cuzão. A CDD não morreu porra nenhuma! O Professor vive! – Rebate Maka, em estado de negação, revoltado com o destino.

– Cuzão é tu, Maka Haun. Nosso bando vai dominar o leste. – Afirma Abso.

Dali pra frente, só restariam aqueles dois bandos de vagabundos mendicantes, perambulando pelos bosques nos arredores de Joy Divile. O que era comum na cidadela antes da efêmera CDD, da qual só restaram cadáveres empalados ao redor do torreão, como exemplo para que os ladrões não aparecessem nunca mais por ali.

[Continua: 92. A Ilha do Templo]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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