93. A Invasão de Yaztrik

93. A Invasão de Yaztrik
Castelo de Yaztrik, na Céltika.

[Antes: 92. A Ilha do Templo]

Enquanto Krul e seus companheiros enfrentavam o maior perrengue de suas vidas em algum lugar do Mar Exterior, o jovem General Jules Flanagan e o Gargo-Gigantrix Martin McFerris conduziam cerca de sete mil cavaleiros pela planície, de Joy Divile a Yaztrik. No meio do caminho, as tropas se juntaram a mais de três mil cavaleiros da Dokhe, liderados pelo General Kadwan den Darklands, que tinham saído da Terra das Sombras no dia anterior, atravessaram o planalto velga e desceram a margem leste do Rio Celtik para se encontrar com os aliados da Cavalaria Sagrada.

Yaztrik era uma cidadela muito antiga, construída há séculos nas margens do enorme lago de mesmo nome, com cerca de duas milhas de comprimento no sentido norte-sul. O condado teve seu tempo de glória quando Viktoria ainda era um dos principais reinos velgas, mas foi praticamente dizimada por uma Aurora da Morte na década de 10. Desde então, tinha se tornado um dos principais redutos dos alamanos na Terra Vélgica, quando os bárbaros tomaram o castelo fortificado à beira do lago.

As muralhas do castelo eram guardadas por arqueiros, que logo deram o alerta quando os dez mil cavaleiros velgas apareceram de surpresa, à noite, de surpresa. Na linha de frente, entre outros, seguiam Fabiwus, da Hokhe, e Jon Kyron, da Dokhe. Cavalgando à frente dos demais, irrompendo com muita coragem por entre as flechas inimigas, Fabiwus gritava como um louco uma exclamação que ninguém compreendia exatamente o sentido:

– Chama o Gargo! Gargoo! Gargooo!

Enquanto alguns de seus companheiros eram alvejados, Fabiwus e Kyron conseguem chegar com seus cavalos numa das bases da muralha, desguarnecida de arqueiros, onde arremessaram rapidamente uma corda para a escalada. Já no alto da amurada, o Cavaleiro Hokhe se vê obrigado a lutar contra um dos guardas, e logo arranca sangue de seu inimigo, sem parar de gritar:

– Chama o Gargo! Gargooo! Gargoooooo!

Fabiwus logo nocauteia o guarda, e desce rapidamente ao pátio para tentar abrir um dos portões da fortaleza. Kyron tenta seguir o companheiro, mas acaba morto por um guarda quando alcança o topo da muralha. No pátio, o Cavaleiro Dokhe se viu cercado por dois inimigos logo após ter destravado a tranca que fechava um dos portais. Encurralado, Fabiwus acaba recebendo um golpe pelas costas que o derruba, sendo posteriormente trucidado pelos guardas, que no entanto não conseguem evitar a invasão

Aproveitando o fator surpresa, o segundo pelotão da cavalaria velga já tinha alcançado a base da muralha e aproveitava o flanco aberto por Fabiwus para entrar na fortaleza. O Hokhe Goley Rubrunus seguia confiante quando teve de enfrentar o primeiro guarda, que não teve chances de defesa contra a agressividade do oponente. Com muita rapidez, Goley cavalga até o pavilhão principal do castelo, mas recebe uma flechada certeira no braço direito. Acossado pelas tropas de defesa, o Cavaleiro Hokhe luta com bravura durante um bom tempo até ser derrubado do cavalo e morto.

Àquela altura, o Rei Ighan Pendragon já tinha conhecimento do ataque, e ordenou que seus cinco mil guerreiros marchassem de Sunnig para socorrer Yaztrik. As tropas velgas já tinham perdido cerca de três mil cavaleiros, mas ainda não tinham tomado o castelo. Aquela seria uma corrida contra o tempo. Menos de mil homens ainda resistiam.

Entre os velgas, o Maverik Vand Derley seguia à frente da invasão, derrubando inimigos em série com golpes de sua pesada espada. Após descer do cavalo, Derley se junta a mais uma dezena de companheiros para usar um poste de madeira derrubado no local como aríete. O caos já se instalava no interior da fortaleza, com diversos alamanos batendo em retirada do castelo, desesperados com a invasão iminente. Com poucos golpes, a tranca de madeira rachou, o que provocou a reação animada dos velgas:

– Abriu! Abriu!

Logo uma centena de cavaleiros velgas já tinha se infiltrado no castelo de Yaztrik, promovendo uma verdadeira carnificina entre os bárbaros. O castelo tinha sido tomado pelos invasores, mas as últimas tropas se trancaram numa torre com a família de nobres alamanos de Yaztrik. Nem todas as notícias eram boas para os velgas. Durante a invasão, Kadwan den Darklands tinha sido morto por uma flecha. O General da Dokhe nem podia imaginar que, naquele momento, sua amada Anni De Gris estava a salvo, mas ainda lutando pela vida.

Jules Flanagan queria negociar com o conde alamano, mas Martin McFerris pensava diferente. Para o oficial de Terras Altas, era a hora de varrer toda a resistência e entregar as moças para a diversão das tropas, exatamente à moda dos bárbaros.  

– Vamos invadir essa porra! – Gritou Vand, apoiando McFerris: – Negociar é o caralho!

– Cinco mil alamanos estão vindo pra cá. – Avisa Jules: Se negociarmos a entrega deles, ganhamos Yaztrik!

– Hmmm… Melhor desenrolar isso então. – Diz um dos guerreiros.

– Porra nenhuma! – Insiste Vand: – Vamos mandar as cabeças desses nobres por cima do muro pra eles!

Mc Ferris continuava pensativo. Se o General da Hokhe estivesse certo, a missão estava cumprida. Yaztrik voltava a ser um domínio velga, e Ighan teria de se contentar com o resgate de seus parentes. Jules tentava abrir seus olhos:

– Após quase vinte anos, nós velgas retomamos a velha cidadela de Yaztrik! Podemos enfrentá-los, mas a vantagem na negociação agora é nossa.

Já havia um rumor entre os guerreiros pela negociação, mas McFerris continuava indeciso. Pressionado pelo tempo, Jules resolve fazer uso, pela primeira vez, da sua prerrogativa de patente:

– Lord McFerris, tens o dobro da minha idade, mas eu sou o General da Hokhe. Vamos entregar a família do conde, e garantir a retomada. Depois de décadas, os velgas de Yaztrik estarão livres do domínio e da escravidão.

A maioria dos guerreiros velgas aclama a decisão, e McFerris se dá por vencido, com uma ressalva:

– Vamos entregar a nobreza. Mas as plebeias alamanas agora são da tropa!

Os cavaleiros mais uma vez gritam entusiasmados. Não havia mesmo muito o que fazer para impedir o estupro coletivo que se daria na cidade.

Quando as tropas dos Rei Ighan Pendragon chegam à cidadela, os cavaleiros de Dokhe e Hokhe já estavam posicionados na  muralha. O próprio Jules Flanagan seguiu com uma pequena comitiva para a negociação.

O Rei Mestiço tinha noção de que estava em desvantagem ali. Espumando de raiva, acaba aceitando os termos do General da Hokhe. Ele sabia que perderia apoio se não salvasse seus primos e tios da cidadela. Após  o acordo, a maioria dos nobres seria libertada para seguir com as tropas de Ighan, mas o atual Conde de Yaztrik e seus filhos somente seriam entregues em Viktoria, um dia depois, quando os velgas tivessem a certeza de que Ighan cumprira o acordo.

Quando as tropas alamanas bateram em retirada, a Dokhe e Hokhe comemoraram a maior vitória contra os alamanos, em duas décadas. Yaztrik retornava ao domínio velga, como sempre foi.

Mas este não seria o único revés que Ighan enfrentaria naquela noite.

Em Sunnig, que tinha sido deixada desprotegida quando as tropas bárbaras marcharam para Yaztrik, a tribo dos Karakalas tinha aproveitado o momento para espalhar o pânico e o terror na vila, recentemente alçada à posição de condado. O horrível Kreont tinha assassinado o Conde Angus Divile e se autoproclamado como Rei, oferecendo uma aliança para Ighan Pendragon.

Para evitar uma luta que somente reduziria ainda mais suas forças, o Rei Mestiço teve de aceitar mais um acordo, e dispersou suas tropas para reforçar Shyne, Danzig e Erikland. Ighan agora temia que a cavalaria velga que tomou Yaztrik rumasse para outro de seus territórios na Céltika. Uma nova invasão de Joy Divile teria de esperar.

Seus temores tinham fundamento. Enquanto os velgas festejavam no condado reconquistado, Jules Flanagan já planejava seus próximos movimentos. Toda aquela região histórica voltaria ao comando dos velgas. Pelo bem ou pelo mal.

[Continua: 94. O Arauto de Hoguz]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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