95. O Espião em Galen

95. O Espião em Galen
Toni Ferro, de Van Hal, Gargo da Hokhe.

[Antes: 94. O Arauto de Hoguz]

537 cl. Mês de Hagalaz. Há menos de um ano, no campo de batalha contra os bárbaros, os velgas consolidaram suas posições após a retomada do Condado de Yaztrik, contando mais uma vez com a aliança entre Dokhe e Hokhe. No combate, o general Kadwan den Darklands encontrou o deus do Destino, enquanto o jovem Jules Flanagan liderou os demais cavaleiros em uma vitória rápida e avassaladora. 

No ano anterior, quando os oficiais da Dokhe já discutiam qual deles seria consagrado como o novo General da cavalaria negra, o que parecia impossível aconteceu. Krul Petersen retornou de uma longínqua viagem pelo Mar Exterior, trazendo de volta a Rainha Anni, de Viktoria! De sua equipe, somente o necromante Melvis Merlin tinha sobrevivido. Todos tinham morrido pelo caminho, exceto o “mito” Mit Maikon, um arqueiro de Joy Divile que tinha se tornado arauto de Hoguz.

Após seu retorno triunfal, Krul foi aclamado como General por seus pares, cargo que, no velho clã Petersen, somente seus tataravôs Hank e Huni tinham ocupado. Também era a segunda vez que um Petersen resgatara Anni. Há cerca de vinte anos, Ian Petersen, junto com Erik Van Vossen e a citroyana Bretanique, todos já mortos, conseguiram salvá-la das garras dos bárbaros, o que acabou não servindo de muita coisa, pois a princesa já estava grávida.

Recebida em glória pela nobreza e pelo povo de Viktoria, que tiveram o pretexto perfeito para se livrar da tirania de seu filho Ighan, a Rainha Anni assumiu a coroa do maior reino velga do Oriente, e prontamente reivindicou a lealdade dos condados na Céltika. Yaztrik, recém-tomada pela aliança de Dokhe e Hokhe, e Eriklands, atenderam prontamente ao chamado, mas os condes alamanos de Shyne e Danzig se recusam a reconhecer a soberana, jurando vassalagem a seu filho, rei de Saravessa. Sunnig tinha caído nas mãos de Kreont, líder da tribo semi-selvagem dos Karakalas, que agora se autoproclamava “Rei de Sunnig”, virando as costas para Ighan, o Mestiço, que também enfrentava algumas resistências internas com seus aliados nos reinos de Eredra, Treva e Darva.

Apesar dos esforços da Rainha para o chamado de paz, a Clave promoveu assaltos constantes com a nova força conhecida como Krieg, uma criação de Jules Flanagan. Eram pequenas patrulhas que realizavam ações de terrorismo contra os inimigos, missões improváveis de infiltração e espionagem, contando com os melhores guerreiros das mais diversas ordens e academias da Terra Vélgica, da Dokhe e da Hokhe: agentes da Bruma, flâmages em formação, necromantes, elementais, sacerdotes e feiticeiros, organizados em duplas (Duplas da Krieg, os DKs), sempre liderados por um cavaleiro experiente, com a patente de Destinado ou superior.

A tática tinha garantido o domínio do Planalto Velga. A Krieg avançava pela planície do Hevan, bloqueando a rota entre Shyne e Danzig, que já se encontrava isolada e ameaçada, inclusive com focos internos de resistência. Entre os 27 da Clave, era consenso de que a situação no Oriente, por enquanto, era satisfatória, e as tropas precisavam se fortalecer para um ataque final de retomada de Danzig e Shyne, se fosse preciso, além de exterminar os maltrapilhos Karakalas que se instalaram em Sunnig. Viktoria, no momento, já era apenas um reino vassalo da forte Tetrarquia Velga: Van Hal, Terras Altas, Darklands e Aquitan.

Na primeira reunião de Krul Petersen como General, dividindo a liderança com Jules Flanagan, já havia um consenso de que os olhares precisariam ser voltados para oeste. Nos últimos meses, o incansável general da Hokhe patrocinou pessoalmente a reconstrução de Echen, cidadela em ruínas no meio da Muralha de Azrael, capital do antigo reino de mesmo nome, integrante do extinto Império Rubro. Foi o povo de Azrael que construiu a muralha, para defesa contra os povos ileanos nativos, as feras e os gigantes que ainda habitavam a região que ainda não era chamada de Terra Vélgica no primeiro e segundo século do atual Ciclo Lunar.

A queda do Império deixou a Muralha em ruínas, especialmente em suas intermináveis galerias subterrâneas, que se tornaram um abrigo de feras, foras-da-lei, eremitas, mendigos e psicopatas de todo o tipo. Com o sucesso do povoado de Echen, que já despontava como entreposto comercial e de guerra, foi possível reabrir novamente, depois de séculos, a estrada de Flame a Luke, no topo da Muralha. Pelo feito, o Rei de Van Hal tinha concedido a Jules Flanagan mais um título, como Arquiduque de Echen.

Pelo lado da cavalaria negra, o finado Kadwan tinha estreitado os velhos laços de sangue do ducado das sombras com seus aliados de Gaules, plantando alguns espiões na cidadela de Galen, tomada pelos alamanos há mais de duas décadas. Era interesse de ambos que os bárbaros perdessem seu principal ponto de apoio para o domínio, que já durava muito tempo, do Vale dos Reis, local do Velho Ocidente que ganhou esse nome por conta de uma profecia antiga de que os maiores líderes guerreiros de Asgaehart sempre tiveram de morrer ou marchar vitoriosos por ali. 

Krul então anuncia que uma equipe da Bruma, liderada pelo gargo Toni Ferro, de Van Hal, partirá para uma missão da Krieg em Galen: encontrar um espião infiltrado no condado gaulês, que poderá guiá-los secretamente para o interior do castelo do penhasco, onde vivia a elite da nobreza alamana da região. Lá, alguém teria de detonar uma Aurora da Morte preparada especialmente por Imperatrix, cuja posse inicial é confiada ao seu discípulo Melvis Merlin, da Bruma. A ideia é provocar o caos no controle das forças inimigas, desestabilizando o comando para facilitar a luta contra as tropas bárbaras instaladas no Vale dos Reis e na cidadela de Galen.

Além de Ferro e Melvis Merlin, também seguirá no grupo o jovem cavaleiro da Bruma Haia Kahn, e uma dupla de gêmeas gaulesas, a elemental Eris e a sacerdotisa Eril, filhas do folclórico Erik Van Vossen, um dos fundadores da Bruma. Em Echen, Melvis espera recrutar alguns guerreiros da Hokhe para completar o grupo que partirá para Galen. O próprio general Krul recomendava alguns soldados de Joy Divile que já estavam reunidos no povoado para a batalha no Vale dos Reis: os tigunares Suva Kaun Dikristus, grande responsável pela vitória final na última batalha, derrotando Panzer Reich num duelo, Stut Bier e Arley Vanila, que poderiam garantir a força bruta para a missão, junto com Kahn.

Fumando um charuto de Dente de Leão atrás do outro, o tranquilo Toni Ferro já dava o tom da missão:

– Aí, moçada. Não tem APR, nem Vélite, nem Flâmage aqui. Só vai nego experiente. Espero que vocês não me decepcionem…

[Continua: 96. A Saída de Echen]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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