96. A Saída de Echen

96. A Saída de Echen
Haia Kahn, vulkânico de Darklands, Cavaleiro da Bruma.

[Antes: 95. O Espião em Galen]

– E então, galera? Qual vai ser a rota para Galen? Vamos a pé ou de cavalo? Seguimos pela estrada nova da Muralha até Luke, onde podemos tentar arrumar um barco ou subir uma trilha pelas montanhas? Ou vamos de peito aberto pela planície, atravessando o Vale dos Reis até a Alta Gaules?

Toni Ferro tinha praticamente resumido as opções do grupo. Como sempre, o Gargo da Hokhe tinha acabado de acender mais um charuto de Dente de Leão, que ele fumava sem parar. Aos 45 anos, o velga de Van Hal era conhecido pela tranquilidade absurda com que liderava seus grupos, o que paradoxalmente quase sempre deixava os comandados muito nervosos.

– Vamos a pé, pela estrada da Muralha. – Sugeriu Haia Kahn: – Somos um grupo de infiltração.

De Echen a Luke, eram pouco mais de 50 Km de estrada de pedra até Luke.

– Prefiro ir a cavalo. – Ressaltou Suva Kaun, recentemente promovido a Destinado, logo após ter vencido o duelo contra Panzer Reich: – E pela Muralha, vocês sabem, vai ser sinistro… Maior escarradeira. Mas vou com a maioria.

– Vamos pela planície, galera. Acho melhor irmos montados, à noite. – Afirmou Stut Bier.

– Isso que pensei. Podemos estar sendo espionados também… – Alertou Suva.

– Então sou voto vencido. Tranquilo. Vamos pela planície. – Aceitou Haia.

– Acho melhor um DK ir pela Muralha, e os outros vão pela planície. – Disse Ferro.

– Boa. Haia e Merlin vão pela Muralha, e o resto vem comigo. – Concordou Stut: – Assim todo mundo fica satisfeito.

– Não se trata de ficar “satisfeito”. – Incomodou-se Haia: – Só estava dando minha opinião. Mas se quiserem eu vou pela Muralha.

– Haia vai com a gente. – Afirmou Suva: – Vamos precisar de todos. Quero união na missão.

– Ir os oito cavalgando na planície vai chamar muita atenção, negão. – Explica Ferro: – Se for seis, já acho que teremos que dividir em dois grupos…

– Então vamos nos dividir para nos encontrar mais à frente: – Sugeriu Haia.

– Calma, Haia. Somos um grupo. – Pediu Suva.

– Estou sempre calmo, irmão. – Rebate o Cavaleiro Dokhe.

– Temos que lembrar que só um grupo vai levar a caixinha com a Aurora da Morte. – Ressalta Eris Van Vossen, tendo as palavras complementadas por sua irmão gêmea, Eril:

– Se o outro grupo chegar lá sem ela, a missão perde o sentido.

– Então vai eu e a ruiva com a caixinha, pela Muralha. – Provoca Ferro, referindo-se a Eris: – E vocês seis vão de bonde pela planície. A gente se encontra depois nas montanhas, antes de Galen. A ruiva e a morena podem se comunicar à distância.

– Por que não vamos todos pela Muralha? – Insiste Haia: – Acho bem mais discreto. Vamos votar.

– Não. – Interrompe Ferro, fazendo troça: – Primeiro eu decido se vamos votar ou eu decido essa porra sozinho. E eu voto que vou decidir sozinho.

– Vai ser perigoso. Quero que todos cheguem inteiros para a hora decisiva. – Diz Suva.

Haia também não gosta das palavras do líder da missão, e rebate:

– Então fala aí como você quer, chefia.

– Chefia é a minha pica. – Irrita-se Stut: – Já tá pagando pau.

– Pagando pau é o meu ovo, Stut. – Rebate Haia.

– Só tem maluco… Calma aí, gente. – Pede Suva.

– Votar é o caralho, molecada. Isso aqui não é a Clave não, porra. Vamos decidir na moral, caralho. Quem tem o melhor argumento? – Replica Ferro.

– Eu não confio na Muralha. – Reforça Stut.

– Nem eu. – Concorda Suva.

– Na Muralha estaremos menos expostos do que em campo aberto. – Argumenta Haia.

– Se continuar nesse nível a discussão, vai eu e a ruiva pela Muralha, e vocês vão de galera pra chamar a atenção dos inimigos na planície. – Diz Ferro, dando mais uma tragada e começando a rir.

– Vai com o teu chefinho na Muralha, Haia. – Provoca Stut: – Do jeito que você quer.

– Já disse que vou por onde a maioria decidir. – Responde o Cavaleiro Dokhe: – Vamos dividir o grupo?! Prefiro ir todo mundo junto.

– Então vai com eles, campeão. Se vocês puderem chamar bastante atenção na planície, melhor ainda… – Diz Ferro, rindo, para Haia, que responde rispidamente:

– Fui o primeiro a sugerir ir pela Muralha. Quer fazer graça?

– Porra, Haia! Decide aí! – Exclama Stut.

– Vem com a gente então, campeão. Hahahaha!  – Sugere Ferro, gargalhando com a discussão: – Alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo!

– Essa fantasia não cabe em mim, chefia. – Responde o Cavaleiro Dokhe, devolvendo a ironia.

– Eu e Eril, Suva e Arley vamos pela planície. – Decreta Stut.

– Toma conta da morena aí pra mim, negão… – Diz Ferro, provocando o tigunar da família Bier.

– Toma conta você da ruiva, porque senão eu dou conta das duas… Se tu bobear vai ficar chupando calango na muralha. – Rebate Stut.

Ferro continua rindo, e completa:

– Então vai o bonde de Joy Divile pela planície, com a morena, e o bonde da Bruma parte pela Muralha. Fechou?

– Já falei que quero união. – Insistiu Suva.

– Acho errado dividir o grupo nesse momento, sem necessidade. – Concorda Haia.

– Eu acho que Ferro está errado. Temos que misturar. – Sugeriu Stut: – Vai uns Brumas com a gente pela planície, e uns guerreiros pela Muralha. E eu gosto da caixinha perto de mim.

– Oito cocadas pela planície eu não vou nem fudendo, molecada. – Decretou Ferro, com uma forte baforada.

– Vou pela Muralha com meu DK. – Afirmou Haia Khan.

– Vai com os caras, campeão… Eles precisam da Bruma! – Zomba Ferro, antes de continuar provocando: – Ou então faz o seguinte: vai tu e o mago Merlin com a caixinha pela Muralha, e eu vou com a ruiva com o bonde da planície. Fechou?

– Dá a ordem e eu vou seguir, chefia… – Responde Haia, já cansado da discussão.

– Vai com ele, Haia. – Devolve Stut.

– Chega, porra! Vou pela muralha. Quem vai comigo? – Define Haia.

– Cada bonde para um lado, então. A não ser que a negada esteja com medo de ir sem nenhum Bruma na planície. Aí eu e Eris vamos com vocês. – Cutuca o líder da missão.

– Vai com eles, Ferro. Ele tem medo do escuro. Segura a mão dele. – Provoca Haia.

– Quero que se foda o que tu vai fazer, cara. – Rebate Stut.

– Qual é, negão? Tá puto? Hahaha! – Diz Ferro, rindo.

– Eu sou puto. – Responde Stut.

– Puta que o pariu, Ferro… – Lamenta Suva.

– Então eu e Eris vamos com o negão, porque ele ficou puto. – Ironiza Ferro: – Vai o mago Merlin e o campeão pela muralha, com a caixinha.

Arley Vanila, que até então estava calado, simulando movimentos de luta como se treinasse sozinho, se manifesta:

– Vou pela planície. Quando o bonde da planície sair, me avisem.

Melvis Merlin também resolve finalmente dar sua opinião:

– Vamos todos juntos, por um caminho. Se o Ferro quiser ir por outro, ele que vá.

– Acho que se dividirmos o grupo aumentamos as chances de completar a missão. E já disse que pela Muralha eu não vou. – Replica Stut.

– Amarelão! – Exclama Merlin.

– Amarelão? Pela planície eu vou até sozinho, porra… – Rebate Stut.

– Amarelão da Muralha. – Insiste Merlin.

– Eu e a ruiva vamos com o negão ou com o campeão. Decidam aí quem gosta mais do Tio Ferro! – Debocha o líder da missão, dando uma forte tragada no charuto que já estava no fim: – Diz aí, campeão? Vai comigo?

– Eu e Merlin vamos pela Muralha. Vai com a gente? – Devolve Haia: – Partiu, patrão?

– Campeão, tu vai pela muralha com o Mago Merlin. Tranquilo? – Questionou Ferro.

– Tranquilo. Tio Ferro amarelou pra muralha. Deve tá encantado com o negão. – Provoca Haia.

– Tô só vendo quem precisa mais do tiozão aqui. – Rebate Ferro: – Negão não tá falando nada, e o campeão fala pra caralho, mas não age.

– E você tá igual ao campeão, Ferro… – Diz Merlin.

– Ô mago Merlin, tu não vai com o campeão? Ou tá esperando o tio também? – Devolve Ferro.

– Ia não, vou. – Afirma o mago necromante.

– Toma cuidado hein, ruiva… – Diz Haia, voltando-se para Eris.

– Ô campeão, tô sentindo que você não quer largar a gente. Tem certeza que tá tranquilinho? – Provoca Ferro.

– É que que gosto da ruiva, tio… – Zomba Haia.

– Então a gente vai com você, campeão. Aí tu pode ver a ruiva e ficar mais tranquilo. Tá muito tenso… – Debocha Ferro.

– Ele vai servir o cafezinho, ajudar na mijação e chamar de chefia… – Ironiza Stut.

– Pô, negão… Se tu quiser, o ajudante pode ser você. – Diz Ferro, zombeteiro.

– Tá com ciúmes, Stut? – Questiona Haia.

– A verdade é que vocês já falaram cem vezes que iam partir e continuam aqui olhando pro tio, porra… É falta de tchau? – Questiona Toni Ferro, antes de se explicar: – Vou abrir o jogo com vocês, molecada. Quem sair na frente vai atrair a atenção dos alamanos. Negão e campeão já disseram que iam sair daqui mil vezes. Mas já vi que vão esperar o tio.

Irritado, Stut Bier resolve partir com Eril, Suva e Arley. Já estava de madrugada. Ferro, Eris, Merlin e Haia ficam em Echen, e o líder não dava nenhum sinal de que estava com pressa. Ao contrário, já estava preparando outro cigarro enorme de Dente de Leão.

– Que horas vamos sair, Ferro? – Perguntou Haia.

– Fica suave, campeão… Mas se quiser pode meter o pé. – Responde Ferro, acendendo o charuto.

No fim da madrugada, o grupo que saiu cavalgando pela Planície dos Reis já conseguia ver as muitas tochas dos acampamentos alamanos que fechavam o vale. Eram pelo menos uns 15 postos de controle, a uma distância de menos de uma milha entre eles. Não havia como saber quantos bárbaros guardavam cada acampamento, mas era fácil perceber o quão arriscado seria tentar atravessar aquela barreira.

– O babaca do Ferro já sabia dessa porra. Ele só não falou. – Lamentou-se Stut: – Vamos ter que voltar e ir pela Muralha…

[Continua: 97. Os Mendigos da Muralha]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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