97. Os Mendigos da Muralha

97. Os Mendigos da Muralha
Suva Kaun Dikristus, Cavaleiro Hokhe de Joy Divile.

[Antes: 96. A Saída de Echen]

– E aí, ruiva? Eles ultrapassam a barreira? – Perguntou Toni Ferro, no fim da madrugada.

Com o sinal negativo de Eris, que tinha acabado de se comunicar mentalmente com sua irmão Eril, o líder da missão começa a gargalhar, no momento em que dá o trago final em uma ponta de charuto. No fim da madrugada, o grupo que tinha partido para a planície retorna a Echen, desapontado.

– Ué? Voltaram, molecada? – Pergunta Ferro, rindo sem parar.

– Você já sabia, né? – Devolve Suva, preparando um cigarro de Dente de Leão: – Doidão.

– Vamos pela Muralha. – Avisa Stut, irritado.

– E agora, Ferro… Tá esperando o quê? – Pergunta Haia.

– Campeão, tu é muito ansioso. Vai com os caras então. – Responde Ferro, já acendendo outro charuto.

– Sou ansioso não, tiozão… Só perguntei o que vc acha. – Explica Haia: – Afinal, pela hierarquia, você tá no comando.

– E eu acho que você tinha que se tranquilizar. – Rebate o líder.

– Nós estamos indo. – Informa Stut: – Se Ferro tem algo a dizer, diz agora. Se não, estou indo. Tenho uma missão e vou cumpri-la. E a missão não é ser capacho do líder.

– Se eu tenho algo dizer? – Responde Ferro: – Tenho sim: tchau, negão!

– O Ferro tá zoando, cara. Não acha melhor ir todo mundo junto? – Questiona Haia, debochando de Stut: – Vai lá então, fodão.

– Não estou querendo ser o fodão. Só não vou ficar esperando alguém que não compartilha as informações. – Rebate Stut.

– Ei, galera! Parem de brigar, porra! Vamos geral juntos. – Diz Suva: – Vamos, galera?

– Ferro, o que estamos esperando? Qual o seu plano? – Pergunta o Cavaleiro Dokhe.

– Caralho, galera! É só uma escolha que cada um tem q fazer. Simples. – Diz Arley.

– Eu vou pela Muralha. – Afirma Stut: – Já estou indo, aliás. Partiu.

Ferro tira o sorriso da boca por um instante, e explica suas intenções:

– Vou compartilhar novamente as informações, mas vocês são burros demais para guardar, ou então esqueceram. Eu vou depois, com Eris. Ela e a irmã tem um elo mental. Ou seja, Eril vai sempre na frente e dá a boa pra gente seguir com a caixinha. Eu já tinha falado tudo isso, MAS PARECE QUE VOCÊS SÃO BURROS DEMAIS PARA ENTENDER.

O líder então completa suas palavras:

– É uma tática oportunista? Sim. Mas vocês não estavam falando aí que o importante era completar a missão? Então eu pergunto mais uma vez, dessa vez à prova de burro: Quem vai na frente pra chamar a atenção do inimigo e dar a planta para que eu e a ruiva possamos entrar na boa?

– Partiu então. – Afirma Suva, compreendendo o recado.

– Boa, negão. – Diz Ferro: – E você, campeão? Vai com os caras?

– Eu e Merlin vamos com vocês. – Diz Haia, irritado com a decisão, ignorando o líder.

– Merlin, não esquece de levar a caixinha. – Diz Ferro, repassando ao mago o pequeno objeto com a poderosa Aurora da Morte.

Assim, Stut, Eril, Arley, Suva, Haia e Merlin seguem pela trilha no topo da muralha. Pouco antes da “Volta Noroeste”, uma curva em declive que a Muralha de Azrael faz cerca de 15 Km antes de Luke, o grupo avista, a cerca de 200 metros, o que parece ser um grupo de 50 mendigos em péssimo estado, com a pele podre e purulenta, se arrastando pela estrada em sentido contrário, como zumbis. Todos parecem terrivelmente doentes, e murmuram de dor na direção dos guerreiros.

– Doença é foda… – Preocupa-se Haia.

– Sai fora… – Assusta-se Suva.

– Já comi pior pagando e sobrevivi… Hahahaha! – Ironiza Arley, referindo-se à sua experiência na Jubo Ket.

– Será que não conseguimos passar por eles a cavalo? – Sugere Haia.

– Podemos tentar. – Diz Arley: – Só vamos saber se testarmos a ideia.

– Isso eu sei, porra. Pedi uma sugestão. – Rebate o Cavaleiro Dokhe.

Suva e Arley seguem à frente. Quando chegam a uns cem metros de distância dos mendigos, este começam a correr de forma grotesca na direção dos tigunares. Naquele local, a trilha sobre a Muralha tinha apenas uns doze metros de largura, de forma que seria muito improvável tentar passar pelos doentes sem ser agarrado.

– Quem vier vai morrer! – Gritou Arley, sendo ignorado pelos mendigos, que continuavam seguindo o mais rápido que podiam para encontrá-los.

– Vamos fazer uma bruma de brilho pra cegar esses filhos da puta. – Sugeriu Stut: – Zumbis odeiam a luz.

– Acho que cegá-los não vai adiantar nada… – Responde Suva: – Não quero ver ninguém ferido… Ou vamos nos contaminar.

– Eles não são zumbis. São doentes de Haxi, rejeitados por todos em Asgaehart. Foram tomados por um fungo parasita, que não tem cura conhecida. – Informa Eril.

– E se você fizer alguma ilusão, bruxa? – Sugere Stut: – Para que eles se assustem e se joguem da muralha.

– Isso. Faça com que imaginem que a trilha está em chamas!

– Ou um dragão. – Diz Stut.

– Para funcionar, alguém tem que jogar a minha fumaça tóxica entre eles. – Diz Eril: – E levar um totem ilusório até lá.

– Me dá o totem então que eu vou jogar a bruma de ilusão. – Diz Haia, se adiantando a cavalo na direção dos doentes, que já estavam a menos de 50 metros dali.

O Cavaleiro Dokhe chega bem perto dos mendigos com o totem e lança a esfera de vidro que ao se chocar contra o chão produz uma fumaça tóxica. Eril Van Vossen começa a soprar um pequeno berrante que imita o rugido de gargos. Aterrorizados, vários deles se jogam da Muralha de Azrael, acreditando que os felinos gigantes estão ali. Somente três deles conseguem resistir à ilusão e partem para cima de Haia. Suva e Arley se adiantam para ajudar o companheiro, e destroem rapidamente os doentes, que ficam com seus corpos decepados por ali, jorrando sangue contaminado para todo o lado. Stut avança logo depois, e se reúne com os demais guerreiros.

Merlin e Eril olham para a situação, preocupados em passar pelas poças de sangue.

– Minha irmã poderia conjurar uma ventania para limpar a área, mas ela e Ferro ainda estão bem atrás… – Diz a sacerdotisa de Travel.

Enquanto os dois magos esperam ali, Haia e os três tigunares aguardam mais à frente. Mas logo eles começam a escutar os ruídos de alguns mendigos que tinham resistido à queda e já estavam subindo até lá novamente, pelas galerias internas da muralha. Quando os doentes chegam, Eril faz mais uma ilusão com gargos, se livrando novamente da situação. Tomando coragem para não ter de aguardar sozinhos ali, os dois avançam galopando por sobre os destroços dos mendigos mortos por Haia, Suva e Arley.

Bem atrás na trilha, Ferro fica sabendo dos acontecimentos através de Eris. Eles então se abrigam num dos acessos às escadarias estreitas que levam às galerias subterrâneas da Muralha. Cortês, ele abre uma pequeno cantil de vinho e acende uma fogueira para preparar um coelho que tinha caçado mais cedo. Seria o seu almoço com Eris, pra aliviar a tensão.

– Agora é hora de aliviar um pouco a tensão, ruiva. Vamos olhar sempre pelo lado positivo. Pelo menos a galera conseguiu abrir caminho pra gente.

[Continua: 98. Em Busca do Caolho]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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