99. Um Novo Plano

99. Um Novo Plano
Arley Vanila, tigunar da Hokhe de Joy Divile.

[Antes: 98. Em Busca do Caolho]

Quando Eril se viu cercada pelos gauleses aliados dos bárbaros, Eris sentiu que a irmã estava em perigo. Enquanto isso, Suva já estava impaciente com a demora da morena:

– Aí Merlin, temos que fazer alguma coisa.

No galpão do abatedouro, Eril viu o cadáver enforcado de um sujeito que usava um tapa-olho. Tinham descoberto o espião. O líder dos soldados continuava a gritar, em gaulês*:

– Você vai colaborar, sua puta?!*

– Colaborar com o quê, meu senhor! Vim aqui comprar porcos e me mandaram procurar um senhor chamado caolho.*

– Pode entregar tudo o que sabe, sua traidora!*

– Não sei do que está falando, meu senhor…*

– Tira a roupa e deita no chão, bruxa!*

Naquele momento, Merlin também teve o pressentimento de que as coisas tinham saído do controle. Suva resolve que não é mais tempo de esperar, e parte galopando para a fazenda:

– Foda-se!

Merlin, Arley e Haia decidem segui-lo. No galpão, encurralada, Eril resolve provocar o líder:

– Você se acha muito homem, né? Quero ver se faz com a mesma energia com que grita!*

Os soldados começam a rir do líder, que se enfurece com a resposta. Um dos alamanos no local fala para deixarem que ele mostrasse à traidora como se faz, já se adiantando e abaixando as calças.

– Vai deixar um vassalo fazer o que não consegue, liderança?* – Ironiza Eril, enquanto pega discretamente uma bruma de ilusão: – Parece que essas insígnias só servem para enfeite*.

Quando o alamano avança e se prepara para agarrá-la, Eril lança a esfera de vidro no chão, liberando a substância alucinógena. A sacerdotisa usa um dos totens para mentalizar que seu corpo entrou em combustão, provocando o espanto dos guerreiros no local.

– Líder fraco, grupo fraco. – Diz Eril, já preparando outras brumas, de sono e de fuga.

Alguns soldados tombam ao chão, incluindo o líder e o bárbaro que a atacava. O resto deles resolve correr para fora do abatedouro, apavorados com a magia de Eril. Do lado de fora, enquanto avançava na direção da fazenda, Suva é atingido por uma flecha na barriga e cai do cavalo violentamente. O tigunar sofre uma fratura na coluna, perdendo temporariamente os movimentos. Merlin lança uma bruma de fuga na área e Haia fica para trás para ajudar o companheiro ferido. Seguindo num rastro de bruma escura, Arley e o mago continuam galopando na direção do abatedouro.

Quando chegam ao local, ainda tomado pela escuridão da bruma, eles percebem que Eril está se vingando do alamano que tinha tentado estuprá-la: a filha de Erik degolou o bárbaro, decepou seu órgão sexual e colocou na boca do sujeito, exclamando:

– Precisava estuprar? Era só pedir com jeito! Babaca!

Arley mata os soldados que tinham adormecido no local, enquanto Merlin percebe o cadáver do caolho pendurado. Sem perder tempo, o mago mastiga uma raiz de Cidália e começa o ritual necromante, descobrindo que o sujeito tinha arrumado um esquema para fornecer carne de porco para um banquete no castelo. Se não tivesse sido descoberto, ele iria mandar alguém do grupo junto com o carregamento. Mas agora o plano estava arruinado, e até mesmo o fazendeiro Van Lon tinha sido morto.

Enquanto saem do abatedouro, Eril recebe uma mensagem de sua irmã: ela e Ferro estavam escondidos em uma caverna próxima, colina acima. A orientação do líder da missão era para que todos se reunissem lá para decidir o que fazer. Eril dá as coordenadas seguindo no cavalo de Arley, e Haia leva Suva, imobilizado.

Chegando à caverna, o grupo percebe que Ferro está fumando seu charuto e preparando um chá para a tarde.

– Tô preocupado, campeão… – Diz o líder, sem aparentar preocupação alguma, no entanto.

– Nossa! Percebe-se. – Ironiza Haia, enquanto desce Suva do cavalo, estirando o tigunar no chão para que Eris pudesse prestar os socorros com a Poção de Virgo.

Irritada, Eril lança uma bruma de sono na direção de Ferro. Com a liberação da substância narcótica, Eris e Merlin apagam, mas o líder continua acordado, e ri da situação.

– Qual é, morena?! Tá com ciúme? Depois a gente brinca de novo… Aliás, deixa eu pegar a caixinha com o Mago Merlin. – Diz Ferro, já revistando o necromante caído no chão.

– Pra que tu quer a Aurora, Ferro? – Questiona Eril, ainda com raiva.

– Vamos ter que repensar a estratégia. – Responde o Gargo.

– Pra quê, Ferro?! – Insiste Haia.

– Fica tranquilo, campeão. Acho que agora eu mesmo vou ter que completar essa missão. – Afirma Ferro, assim que encontra a pequena caixa de chumbo.

Arley começa a rir, debochando do líder, e Haia o acompanha, antes de perguntar:

– Qual o seu plano, Ferro?

Para horror dos companheiros, o Gargo abre a caixinha e aciona o dispositivo. Todos ali se encolhem, já esperando o pior, mas nada acontece.

– O que é isso?! – Exclama Haia.

– Quer fazer pó da gente, caralho?! – Grita Eril.

– Essa caixinha aí é falsa. – Explica Ferro: – Eu troquei. A verdadeira tá comigo. Mas a gente precisava que o Mago Merlin acreditasse que levava a verdadeira.

– Que se foda! – Irrita-se a gaulesa.

– Deixa o cara, galera. Ele vai ajudar. – Murmura Suva, ainda imobilizado.

Arley começa a gargalhar.

– Tá rindo de que, negão?! – Questiona Eril, de mau humor: – Se a gente fizesse o que o Ferro queria íamos continuar andando com uma caixinha de porra nenhuma por aí!

– Mas agora esse plano babou. – Lamenta o líder: – Vamos ter que entrar de outro jeito.

– Beleza, Ferro. E aí? – Pergunta a filha de Erik, impaciente.

– Eu conheço um cara que pode ajudar a gente. O cara é dono de uma teberna no cais de Galen. Mas não vai dar pra descer todo mundo. Só pode ir uma das gaulesas e o campeão.

Arley volta a gargalhar.

– Você também vai, Ferro. Se não, minha missão termina aqui. – Decreta Eril.

– Eu sou velga, morena… Não posso aparecer no cais. – Responde o líder.

– Foda-se! – Exclama a gaulesa: – Vou embora! Terminem vocês a missão pra esse babaca!

– Que isso, morena?! Hahahaha! – Rebate Ferro, rindo: – Pra que essa agressividade? Volta aqui…

– Para de fazer cu doce, Eril… – Diz Haia: – Aguenta essa xereca aí.

– Vai chupar o pau do Suva, baba ovo do Ferro! – Exclama Eril.

– Tá todo mundo muito estressado, pessoal… Sem motivo. – Diz o líder.

– Vamos ouvir o plano. Se você não concordar a gente busca um melhor. Qual o problema nisso, nervosinha? – Argumenta Haia.

– O plano é a gente continuar de bucha pra ele. Não vou mais. Nem fodendo. – Replica a filha de Erik: – Esse papo de que é velga não cola. O Merlin também é velga e ficou andando por aí com um alvo nas costas, com uma caixa maldita enquanto ele fuma charuto. E no fim da missão ainda vai terminar como o líder pica grossa. Vai se foder. Tô indo. Abraço pra quem fica.

– Calma aí, morena… Na próxima você fica comigo e a ruiva vai com o grupo, pô! – Provoca Ferro.

– Vamos ouvir o plano. – Insiste Haia.

– O plano é encontrar Jean Pier “Papatudo” no bordel da taberna. O cara manda por aqui. Digam que eu quero negociar com ele… – Explica Ferro.

– Diz você. – Fala Arley.

– Ferro: por que tem de ir o Merlin e não você que está aí cheio de saúde? – Questiona Haia: – Tá na hora de acabar essa sua viagem de férias.

– Merlin? Tem que ir você e uma das gaulesas, campeão… Tu é o único vulkânico do grupo. – Esclarece o líder: – São duas raças que serão bem recebidas lá.

Naquele momento, Eris e Merlin já estavam acordados e ouviram as palavras de Ferro. Com exceção de Eril, que já se afastava, o resto do grupo se entreolha, pois o plano realmente fazia sentido.

[Continua: 100. Na Taberna de Galen]

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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