35. Corvos e Falcões

35. Corvos e Falcões
Hanna den Darklands, mestiça de velga e ileana, líder dos Corvos.

(Antes: 34. A Colônia de Férias)

Com menos de duas semanas na Ilha de Fedo, metade dos cadetes já tinha pedido para voltar ao continente. O mês de Hagalaz mal tinha começado, mas a soma de frio, vento, chuva, nece, trabalho braçal ininterrupto do nascer ao pôr-do-sol, racionamento de água e comida, tratamento desumano dos inspetores, e o cheiro insuportável de carniça que dá nome à ilha já era demais para alguns dos flâmages alistados na Academia. Naquele dia, os que ainda estavam resistindo tiveram de limpar os intestinos de um diplo gigantesco, encarando uma mistura de merda e catarro ácido, ao mesmo tempo corrosiva e nauseante. Para uma dezena de aspirantes, era a gota d’água. 

Quando um jovem desmaia no meio da bosta, tendo de ser carregado pelos inspetores, Jules Flanagan e Hanna den Darklands se entreolham. Jules era o primogênito de uma família nobre e tradicional de guerreiros das Terras Altas, enquanto Hanna era filha do Duque Kadwan, general da Dokhe. Pela primeira vez, os líderes das duas principais gangues juvenis de Van Hal, autodenominados “Corvos” e “Falcões” (mas chamados pelos rivais, respectivamente, de “Urubus” e “Pardais”) cogitavam testar seriamente a hipótese aventada por Niuton McFerris quando chegaram àquele inferno: fugir da ilha. Naquele momento, a resposta de Vandu sugeria que se tratava de algo impossível; mas agora, faltando ainda mais de um mês para o fim da tortura, parecia questão de sobrevivência, e de honra. Pedir para sair, e aturar os tapinhas “carinhosos” no rosto desferidos por um satisfeito Big George, enquanto conduz o infeliz derrotado para a torre de saída da ilha, era simplesmente impensável, humilhante para os jovens cadetes. 

Naquele dia, Hanna e Jules propõem um desafio: uma competição entre as duas equipes para escapar dali, em igualdade de condições. Com a ajuda de Viktor, um aprendiz de mago, filho do folclórico Erik Van Vossen, conseguem material para fabricação de seis brumas de fuga, bem rudimentares, três para cada grupo. Eles também providenciam mapas das galerias, com base em rascunhos arranjados por Niuton McFerris. Tudo teria de ser rápido, pois ninguém ali estava mais disposto a quebrar pedras, cortar lenha, eviscerar animais, curtir couro, forjar metais e alimentar caldeiras, entre outras tarefas cotidianas na “Colônia de Férias”. O plano seria realizado naquela mesma noite.

De volta às celas individuais, na qual ficam trancafiados por toda a noite, os jovens cadetes avaliam os danos da atividade realizada durante o dia: Hanna apresentava queimaduras graves em todo o corpo, que levariam dias para cicatrizar. Em sua gangue de Corvos, o vilando Adjaian, filho de Vandu e da falecida citroyana Bretanique, tinha resistido bem, assim como Gunter Kron, um nobre agunar do reino de Rassan, e Felice Luna, a melhor amiga e confidente da herdeira de Darklands. Viktor Van Vossen também estava prejudicado, mas nada que uma boa noite de sono não curasse.

Já entre os Falcões, Jules Flanagan também precisaria de pelo menos uma noite para se recuperar. O tigunar Angelus, irmão de Adjaian, e Niuton McFerris estavam bem. Kathra, filho de Iuri Petersen, também não tinha sentido danos físicos, mas de vez em quando parecia sofrer com alucinações por conta de todo aquele fedor. Jon Tudur II, no entanto, filho do arauto de Hevelgar e mais jovem de todos ali, com apenas 15 anos, estava sofrendo tanto quanto a líder do outro grupo, com pedaços da pele em carne viva.

Na galeria subterrânea onde ficavam confinados durante a noite, os inspetores eram trocados diariamente, para evitar que criassem laços afetivos com os cadetes. A cela de cada grupo era dividida em cinco partes individuais, isoladas entre si e do corredor que levava ao exterior por pesadas grades de ferro. Para liberar a tranca mecânica que destravava as portas, era preciso rotacionar uma catraca na fechadura de cada cela, que apresentava todas as letras do alfabeto. Somente combinando as cinco letras corretas em cada cela, os inspetores conseguiam abrir as portas.

Como em todos os dias, logo após deixarem os cadetes nas celas, os guardas tinham se recolhido aos postos que se localizavam no fim do corredor, perto da saída para a área central da mina desativada. Esta era como um fundo de poço, um enorme buraco redondo com cerca de cem metros de diâmetro, com paredes verticais de vinte metros de altura. Durante o dia, os inspetores desciam grandes cestos, através de roldanas com cordas apoiadas em traves de madeira, para erguer cargas e pessoas para o topo da ilha. Mas, durante a noite, eles eram retirados. Fugir dali, com aquelas condições, era realmente uma missão bem complicada.

Na galeria dos Corvos, Hanna den Darklands estava calada, pensando na combinação de letras para abrir a tranca. Ela sabia que Jules devia estar fazendo o mesmo àquela hora, e não podia cogitar a hipótese de que aqueles pardais burros iriam descobrir a senha antes dela. Adjaian, que como seu irmão era conhecido como “Gigan”, por conta do tamanho avantajado, lança uma sugestão:

– A senha é VANDU. – E começa a rir debochado.

Felice Luna não reage bem ao gracejo:

– Só se seu pai fosse um idiota.

Adjaian responde grosseiro:

– Não fode, piranha. – E continua, voltando-se para a líder do grupo: – Ei Hanna, se quiser vir aqui na minha cela pra gente pensar juntinho, tem jogo.

Hanna nem dá atenção à provocação. Cinco letras. Mas quais?

Enquanto isso, Jules discute com seu grupo de Falcões. Niuton estava convencido de que a senha era “HOKHE”, a cavalaria onde queriam entrar. Angelus só observa, fumando um charuto de “Dente de Leão”, substância narcótica, no fundo de sua cela. Mas o vulkânico Kathra não gosta da ideia:

– Aqui é tudo aspira, filho… Ninguém é de porra nenhuma ainda.

– Muito na cara… – Diz Jon sorrindo, mesmo sofrendo com as queimaduras.

Niuton, que ocupava a cela central entre eles, rebate:

– Foda-se. Vou posicionar a tranca da minha cela na letra K.

– Se ninguém tem outra ideia melhor, acho que devemos testar a ideia de Niuton.

Meio a contragosto, Kathra aceita.

– Mas em qual ordem?

– Vamos ter que tentar duas vezes para garantir… – Responde Jules.

Eles se acertam para a tentativa. Jules, que está mais perto da saída, posiciona a tranca na letra H, e os demais seguem a ordem. O líder então aciona a tranca devagar, para que o inspetor não ouça qualquer barulho. Nada. E o pior: eles percebem que o mecanismo agora está travado…

De volta aos Corvos, Kron sugere a Hanna posicionem a catraca na letra inicial do nome de cada um. Adjaian concorda com a ideia, e Luna também acha a tentativa válida. Óbvio demais, pensava Hanna, mas não conseguia ter outra ideia.

– O que acha, Viktor? – Pergunta Hanna.

O filho de Erik Van Vossen aceita a sugestão, mas parecia meio desligado. Era conhecido por ser o cérebro da equipe, e tinha o apelido de “Fuscão” por conta das experiências com as brumas ofuscantes, mas sua intuição não estava funcionando ali. Ao sinal da líder, eles acionam a tranca com a combinação “HKFAV”. Nada feito. E também descobrem, decepcionados, a trava ocasionada pela tentativa errada.

Para alívio dos cadetes, a catraca destrava após algum tempo. Kathra estava bem insatisfeito em tentar a senha “HOKHE” novamente, agora na ordem inversa, mas não conseguia ter qualquer ideia alternativa. Dito e feito, quando eles realizam a tentativa, novo erro, nova trava. Mas dessa vez o barulho tinha chamado a atenção do inspetor, que resolve averiguar.

– Que merda, hein Niuton? – Kathra resmunga, enquanto o vigia da galeria se dirige para perto deles.

– Porra de barulho é esse? Assim vocês estão querendo me prejudicar, molecada… Algum problema? – Fala o guarda, com forte sotaque de Aquitan.

Ninguém fala nada. Após um tempo avaliando a área, o inspetor retorna ao posto, mas antes manda um último recado:

– Se eu falar pro Big George que vocês tão tocando o zaralho nessa porra, vai dar ruim pra mim e pra vocês…

Na cela dos corvos, Adjaian arrisca outra ideia:

– Pode ser BRUMA.

Ninguém se empolga com a opção. Pressionado, Viktor sugere:

– Se é pra tentar alguma coisa, então vamos de ABRIR.

Parece uma solução bem mais ou menos. Ainda assim, Hanna entende que o momento era pra arriscar. Com cuidado, eles alteram as catracas e tentam mais uma vez, sem sucesso.

Na outra galeria, Jules finalmente tem um estalo. Todos os dias, um guarda diferente destranca a cela, olhando fixamente para cada um deles antes de mexer na catraca.

– A resposta está em nós…

Jon Tudur capta a ideia, e complementa:

– Nossas raças!

Os Falcões rapidamente testam a nova combinação: “VVVVT”. Todos ali eram velgas, com exceção de Kathra, vulkânico, e de Angelus, tigunar como o pai. Na mosca. A catraca gira, destravando as portas de ferro das celas. Jules se anima com a vantagem, e Kathra exclama:

– Urubu! Vai tomar no cu!

(Continua: 36. Louca Escapada)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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