36. Louca Escapada

36. Louca Escapada
Jules Flanagan, velga de Van Hal e líder dos Falcões.

(Antes: 35. Corvos e Falcões)

Jules pede silêncio ao grupo, pois ainda teriam de passar pelo inspetor no fim do corredor. Angelus sugere que eles enfrentem o guarda na grosseria, mas o resto do grupo o convence de que é melhor se organizarem para passar um de cada vez, sorrateiramente.

– Se alguém não conseguir a gente lança a bruma de fuga… – Diz Kathra.  E continua o plano:

– E se ainda assim der ruim, a gente junta. Quem não quiser espancar esse cara é pederasta.

É um túnel escuro, iluminado por archotes distantes um do outro, então não deve ser difícil enganar o vigia, geralmente um sujeito já entediado e cansado do turno. Angelus, o maior do grupo, é escalado para ser o primeiro. Ele tenta ser silencioso, mas seus passos fazem um barulho que chama a atenção do guarda. O filho de Vandu finge correr para fugir, mas muda de direção para encarar o inspetor, que está armado com uma lança.

– Fuck it! Poor Aquitano! – Grita Angelus, usando a língua dos alamanos. Tinha aprendido a falar como os inimigos do Império ainda criança, quando deixou Citroya para ser criado por uma família gaulesa na fronteira da Barreira Norte.

O vigia se surpreende com a provocação do jovem tigunar. Kathra e Jules também partem para a briga.

– Vamos envergar esse cara na porrada! – Grita Kathra.

– Cinco minutinhos de alegria com esse porteiro… This motherfucker is mine! – Exclama Angelus, já gingando para dentro do guarda.

Após uns segundos de estudo, o inspetor tenta acertar uma estocada em Angelus, mas erra. O tigunar se esquiva e consegue afastá-lo arriscando um pisão no joelho. Quando o aquitano se prepara para atacar novamente, Jules e Kathra aparecem para brigar, o que intimida o homem. Jon e Niuton também deixam as sombras do corredor para se juntar à briga desleal. Eles sabiam que, se aquela porradaria durasse, logo haveria mais guardas por ali. Com habilidade, Jules acerta o sujeito, que já está cercado.

Na outra galeria, Hanna e os Corvos escutam os ruídos abafados da briga, e a filha do Duque se enfurece ao perceber que seus rivais estavam em vantagem:

– Viktor! Precisamos das suas mandingas agora!

Desde muito cedo, o filho de Erik já demonstrava interesse pelas artes mágicas, e sempre que podia importunava os mestres para aprender alguma coisa. E agora era a hora de exercitar suas habilidades cognitivas. Com esforço, ele se concentra nos acontecimentos ao lado, e consegue ter a mesma visão de Jules: os inspetores olhando atentamente para os cadetes na cela antes de acionar a catraca, cada dia um sujeito diferente.

– Eles sempre olham para nossa aparência, Hanna! A raça é o código!

Rapidamente, os Corvos conseguem abrir a porta com a combinação certa.

– Hoje pardal vira galinha… – Diz Adjaian sorrindo, assim que sai da cela, já correndo para encarar o inspetor.

Hanna nem tenta impedi-lo, pois sabe que a confusão na outra galeria já deve ter deixado o vigia em alerta. Ela segue o filho de Vandu, junto com os demais.

Como esperado, o guarda do corredor está a postos, de lança em punho. Adjaian parte para cima do sujeito e consegue agarrar sua arma. Enquanto eles medem força, Hanna o acerta com um chute alto, e Kron também o ataca com um soco, fazendo o sujeito largar a arma para se defender. Para surpresa de todos ali, o magríssimo Viktor aparece por trás e nocauteia o inspetor com um soco na têmpora.

No outro corredor, o vigia está acuado pelos falcões. Após conseguir se defender de alguns golpes, o aquitano leva uma porrada forte na cabeça, desferida por Angelus, e cai desacordado.

– My bad… Sorry, bro. – Lamenta Angelus, com ironia.

Os dois grupos chegam ao fundo do poço central da mina quase ao mesmo tempo, com ligeira vantagem para os Corvos, que se livraram mais rápido do vigia no corredor. Quando os cadetes se avistam, Niuton questiona para os demais:

– Tá na hora de espancar urubu?

Jules nem responde. Era hora de sair dali o mais rápido possível, antes que os demais guardas pudessem notar a fuga. Àquela altura da Colônia de Férias, ainda havia cerca de vinte cadetes, além deles, presos em outras celas em quatro ou cinco corredores daquela mina. Ele vê que Hanna já está tentando subir usando a corda que se prende a uma das traves no alto, e se adianta para fazer o mesmo.

A herdeira do Ducado de Darklands faz muita força para escalar, mas encontra dificuldades com a tarefa, assim como Luna, que também corre para outra corda. Do resto dos corvos, Adjaian e Kron conseguem subir alguns metros, mas Viktor deixa escapar a corda, cai e acaba torcendo o tornozelo.

Quando Angelus vê a queda do rival, resolve zombar:

– Aí, galera! Porrada no Fuscão agora, que acham? Já ta molinho…

Adjaian escuta e olha torto para o irmão, que apenas ri, antes de também começar a escalar uma das cordas. Kathra resolve entrar na zoeira:

– Fuscão capenga fela da puta! Vou aí meter uma bica nesse teu pé podre!

Enquanto isso, Jules luta para subir. Provas de força não eram sua especialidade. Angelus, Kathra, Niuton e Jon têm mais sucesso no início da escalada. Percebendo a dificuldade inicial, Jules tem uma ideia e larga a corda. Ele salta para o chão e corre de volta ao corredor das celas para pegar a lança do inspetor desacordado. A arma seria muito útil para enfrentar os perigos lá de cima no platô.

Adjaian continua subindo. Já estava quase a 15 metros do solo quando Luna começa a ter sucesso na escalada. Dessa vez é Kron que fica estagnado, ainda numa altura de cinco metros. Hanna vê o que Jules está tramando e resolve fazer o mesmo. Os dois ficavam se marcando o tempo inteiro.

Entre os falcões, Angelus, Kathra e Niuton continuam subindo. Já estavam a quase 15 metros do solo, assim como Adjaian, dos corvos. A corda queima as mãos do pequeno Jon Tudur, que prefere descer de forma controlada a arriscar cair de mais alto.

Adjaian é o primeiro a chegar ao topo do platô. Rapidamente, ele solta uma das cordas para descer o cesto e resgatar Viktor. Kron continua parado na mesma altura, fazendo força para não largar a corda. Luna desiste e, assim como Jon, resolve descer.

Angelus é o segundo a terminar a escalada. Os irmãos Gigans faziam jus ao apelido. Chegavam a ser burros de tão fortes. Niuton chega logo em seguida, mas Kathra sofre para continuar. Suas mãos já estavam bem machucadas pela corda, e ele também precisa descer. Angelus e Niuton resolvem descer um cesto para ajudar o resto dos falcões.

Viktor entra no cesto, e Adjaian começa a erguê-lo. Jules volta com a lança, e a entrega para Kathra antes de entrar no cesto com Jon. Angelus e Niuton fazem força para puxá-los, mas enfrentam dificuldade com o peso de duas pessoas. Kathra volta a escalar. Hanna faz um tipo de nó na lança com a corda, e começa a usá-la como apoio para facilitar a subida, pouco a pouco. Já dentro do cesto, Jules vê aquilo e fica mordido.

Kron faz força para continua a subir, mas não consegue. Ele é mais um obrigado a descer pela corda, por conta do estado deplorável das mãos. Kathra sofre, mas consegue se manter na corda.  Sozinho, Adjaian luta para continuar subindo o cesto com Fuscão. Luna vê a estratégia da amiga e também começa a fazer nós na corda para escalar. Angelus e Niuton conseguem tirar do chão o cesto com Jon e Jules. Hanna chega ao topo e começa ajudar Adjaian.

Com muito esforço, o cesto dos falcões alcança a altura de dez metros. Com a ajuda dos nós, Luna também completa a escalada, e se junta a Adjaian e Hanna para finalmente trazer Viktor. Jules e Jon chegam ao topo. Dos corvos, só faltava Kron, que agora tentava recomeçar. Dos falcões, Kathra.

– Mete o pé vocês! – Grita Kathra, a uns 10 metros de altura – Alcanço vocês depois ou morro nessa porra aqui!

– Do nosso grupo, ninguém fica pra trás! – Responde Jon.

– O Importante é foder os urubus, cara! – Devolve Kathra.

Os corvos também discutem, e vêem a dificuldade do agunar para escalar a corda. Meio contrariado, Adjaian sugere a Hanna:

– É mais rápido subir essa âncora no cesto. Puta que o pariu…

– Eu fico aqui esperando o Kron. – Diz Viktor.

– Não. Vamos todos juntos. Teu pé tá fodido, Fuscão. – Responde Adjaian.

– Eu sei que tô ferrado. Por isso mesmo vou esperar. Não tenho como correr. – Rebate Viktor.

Hanna decide descer o cesto para ajudar o agunar. Acompanhando a cena ao lado, os falcões continuam debatendo o que fazer.

– Também podemos descer o cesto, cara! – Grita Jules.

– Se eu largar a corda pra pegar o cesto, perdemos a vantagem! – Insiste Kathra.

– E se precisarmos de você lá na frente? – Replica Jon.

– Se adianta, caralho! – Grita Kathra.

– Vou meter o pé então… Quem vai comigo? – Diz Niuton.

– Caralha… Bora então. – Aceita Jon, resignado.

Enquanto o vulkânico continua na corda, e os corvos fazem força para subir Kron, o resto dos falcões resolve aproveitar a vantagem para seguir adiante na fuga.

O problema, para eles, é que a lança do inspetor tinha ficado com Kathra…

(Continua: 37. Luta ou Chorume?)

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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