17. Guanabara Maravilhosa

17. Guanabara Maravilhosa

Enquanto navegavam para o sul, já no fim da manhã, muito distantes da frota de Cabral, os piratas do Esperança estavam espalhados como de costume, e a maioria ainda dormia devido à bebedeira da noite anterior. Com segurança, Piri conduzia a caravela sob os olhos de Rato e João, que também estavam acordados. Quando o Capitão finalmente saiu de sua cabine, junto com Ramona, Piri o questionou:

– Já não está bom, capitão? Estamos navegando há quase um dia para o sul. Passamos por várias praias e portos que parecem seguros!

– Podemos parar, mas se aquele português maldito aparecer de novo na nossa cola, arranco tua pele pra fazer mais alguns mapas, tá certo?

Piri não insistiu. Já acordado, Marrique também alertou Cabeças:

– Também precisamos reabastecer o navio com água e comida, capitão.

– Caralhos! Já disse que não!

– Por que você não pergunta de novo ao poderoso oráculo, capitão? – Sugeriu Piri, irônico.

Mas Cabeças gostou da ideia, e olhou para Ramona. Ela entendeu o recado, fechou os olhos e ergueu novamente o oráculo nas mãos, tendo imediatamente uma visão:

– O oráculo nos diz para navegar para o norte, rumo a Santo Domingo!

– Acho que esse oráculo safado agora está querendo me foder. – Suspeitou Cabeças.

Desconfiado, o capitão tomou o oráculo das mãos de Ramona e passou para João:

– Veja se consegues ver algo que preste com essa cabeça desgraçada, Ramalho!

João segurou o oráculo, fechou os olhos, e nada.

– Nada? Nenhuma voz? Nem um puto de um fantasma lhe sussurrando?

– Nada nem ninguém. – Relatou João.

Impaciente, Cabeças arrancou o oráculo das mãos de João e o entregou ao piloto do Esperança:

– Agora tu, judeu.

Cético, Piri segurou a peça entediado, fechou os olhos por um ou dois segundos e também balançou a cabeça, negativamente. Rato, que estava rodeando por ali aguardando uma deixa, avançou sobre o oráculo nas mãos de Piri, fechou os olhos e começou a fingir:

– Sim! Eu posso ver!

Mas agora o Capitão já não parecia mais tão crédulo:

– Podes ver o que, desgraçado? Ninguém vê nada com essa bosta, mas o cheiro de merda eu já posso sentir!

– Eu vejo… Muita água!

– Não me diga? – Zombou o capitão.

– Mas muita água mesmo… – Insistiu o grumete.

– E o que mais?

– Florestas!

– Mas isso todos nós podemos ver, raios! – Estrondou Cabeças, perdendo toda a paciência: – Diga a esse oráculo preguiçoso que nós precisamos ver é o que está por vir! O depois de depois de amanhã!

– Eu vejo… Vejo… Um… Um rio! – Exclamou Rato, espiando a paisagem com um dos olhos levemente entreaberto.

Naquele exato momento, a caravela pirata cruzava a boca da Baía de Guanabara, com toda a sua exuberância virginal, em plena alvorada do século XVI.

– Nossa mãe dos mendigos e meretrizes! Esse oráculo é milagroso! – Exultou Cabeças quando viu aquela paisagem estonteante. Antes da chegada do Esperança, aquela era mesmo uma visão maravilhosa.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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