16. Esperança ou Morte Horrível?

16. Esperança ou Morte Horrível?

Todos sabiam que a força da natureza por trás do Esperança era o Capitão Cabeças. Direto, preciso, cruel, invencível e, acima de tudo, mal cheiroso, sempre com sua barba e os cabelos desgrenhados e ensebados todos os dias com espermacete de cachalote. E, como vocês já sabem, dono de uma língua mais suja do que os pés de um mendigo italiano.

Poucos dias depois que os piratas afundaram sua velha e querida carraca, a Catacumba, e passaram a operar na atual embarcação, tiveram a oportunidade de testá-la em uma abordagem. Naquela vez, quem tinha dado mole era uma pequena mexeriqueira de bandeira inglesa, que foi saqueada, incendiada e largada à deriva a oeste de Gibraltar, com a tripulação trucidada.

Cabeças, que na época ainda não tinha nenhum fio branco, tinha terminado de interrogar o capitão prisioneiro, na expectativa de que o sujeito pudesse lhe garantir mais algum ganho. Sem sucesso. O homem estava amarrado a uma cadeira luxuosa em cima da prancha, e chorava copiosamente, mostrando seus dentes pretos de escorbuto enquanto usava uma ridícula peruca branca, meio torta.

– Que os diabos me levem para as entranhas dos infernos se esse não é o cão mais leproso, manco e fedorento que já sentou o cu na minha presença!

Com um dos pés, o capitão virou a cadeira e o sujeito logo foi engolido pelo mar. Quando Cabeças pulou de volta ao convés, Asno se aproximou, cheio de rodeios. Os outros marujos estavam logo atrás, claramente usando o tolo como boi de piranha.

– Capitão, o senhor acha que podemos, quer dizer, que seria um boa ideia, talvez, se o senhor concordar, de trocar o nome desse barco?

– Do que estás falando, Asno infeliz?

– É que eu acho, digo, os homens acham que Esperança é um nome que não causa, digamos, medo ao inimigo. Não é nome de respeito.

– Trocar o nome de um barco traz uma maré de azar! Em uma semana estaremos cagando sangue à deriva e empalados pelo tridente de netuno! – Cassandrou Marrique.

– Crendice! Ninguém vai temer um navio pirata com esse nome! Esperança? Esperança é coisa de maricas, de mulheres, de padres e de maricas! – Esbravejou João, que recebeu o apoio de alguns marujos, mas timidamente.

Cabeças coçou os piolhos por alguns segundos, e observou:

– Então vocês acham boa ideia mudar o nome do Esperança, não é mesmo?

Os homens ficaram calados, tensos.

– Algo como “Fúria”? Está bom pra vocês? – Sugeriu o capitão.

– Temos de dar os fundilhos a torcer que Esperança não é nome digno de navio pirata… – Disse Fininho.

– Ou quem sabe “Assassino” ou “Diablo”! Esse causaria medo! “Demônio”, “Pavor”, algo que arrepie os pelos mais íntimos dos capitães de Sua Majestade, não é mesmo? – Continuou Cabeças.

O silêncio no convés ficou pesado. Os piratas alternavam expressões de temor e concordância, enquanto o capitão elencava as novas possibilidades para o rebatismo.

– Já sei! “Morte Horrível”!

– É um ótimo nome! – Exclamou Fininho, com um sorriso.

Todos concordaram imediatamente, embora sem muita convicção e um certo medo.

– Morte Horrível! Está bem: que seja Morte Horrível, como vocês querem.

Alguns piratas começaram a sorrir e se congratular, como se tivessem conseguido o que queriam.

– Mas… – Condicionou Cabeças.

Todos gelaram.

– Para cada desgraça que acontecer a bordo por culpa dessa infeliz ideia de rebatizar um barco, vou dar minha contribuição ao azar e enforcar um homem no alto da gávea. Ele vai ficar lá, secando ao sol e salgando pela maresia até os abutres darem cabo de suas tripas.

E o Esperança continuou Esperança.

Marcial Renato

Marcial Renato

Marido da Karin, a mulher mais bonita que já conheci na vida, pai da Ravena (super poderosa), do Henzo (a pronúncia é "Renzo", como o lutador) e da Laura (de olhos verdes). Filho da Alzira, a mulher mais forte do mundo, e do Paulo Roberto, o cara mais maneiro de todos os tempos. Já trabalhei como produtor de TV, Cinema e Internet, fui professor de Comunicação Social e hoje sou servidor de carreira da Agência Nacional do Cinema (ANCINE). Tenho um mestrado em Literatura e graduação em Publicidade e Propaganda, ambos na UFRJ. Em 2012, escrevi, produzi e dirigi o longa-metragem "Dia de Preto", com Daniel Mattos e Marcos Felipe Delfino, premiado em diversos festivais no Brasil e no mundo. Também sou autor dos livros "Rituais de Casamento", de 2015, junto com a Karin, e "Asgaehart: as invasões bárbaras", lançado em 2018. Duas vezes por ano jogo na lateral direita do time dos nascidos na década de 70 do Vale do Rio Grande (7X). Também gosto de pegar onda no verão, e nas horas vagas escrevo aqui no site da Maxie.

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