25. Duelo nas areias
Da areia, Rato viu quando João voltou ao bote e começou a remar para terra firme. Quando Ramalho chegou à praia, o grumete o aguardava espumando de ódio, pronto para uma luta de vida ou morte.
– Cuidei do teu posto enquanto estavas fora. Ela é toda sua agora. – Disse João, ironizando a situação.
Rato sacou uma adaga e avanço para cima do contramestre.
– Seu maldito filho da puta desgraçado!
João também desembainhou sua espada e se preparou para o duelo que aconteceria já ao fim da tarde, naquelas areias ainda cristalinas de uma praia na Guanabara.
De início, eles circularam pela areia e se estudaram. João estava mais tranquilo, provocava Rato, debochava, era um homem acostumado ao confronto. No início da luta, levou muita vantagem no combate, humilhando o rapaz com esquivas e rasteiras lindamente executadas.
Quase toda a tribo assistia ao duelo, assim como os piratas, que assistiam à briga animados. Isso incluía o capitão, que acompanhava cada movimento com euforia, sem demonstrar preferência.
Em meio a uma troca acrobática de golpes, um objeto acabou caindo da algibeira de João. Era o oráculo. Quando Cabeças viu o que lhe pareceu ser uma apropriação indevida do seu patrimônio, lançou um olhar de fogo contra o subordinado. A partir daquele momento, o capitão passou a torcer descaradamente para Rato, orientando o grumete como se fosse o seu treinador. Foram várias dicas e instruções, algumas delas para a aplicação de golpes baixos:
– Cuidado! Olha o alcance da espada! Espera ele vir e contra-ataca! Joga areia no olho dele! Isso, garoto! Agora acerta o cretino nas bolas!
O confronto seguiu encardido, com os dois oponentes extenuados e muitas reviravoltas. Mas a juventude e resiliência de Rato, assim como a providencial intervenção de Cabeças, acabaram sendo decisivas para o resultado da luta. Após ser golpeado fortemente com uma joelhada na barriga, Ramalho caiu na areia sob o fio da espada de Rato, que espetava sua garganta.
– Rasga a goela desse gatuno pra gente ver ele sangrar até o fim, moleque! – Pediu o capitão.
Rato preferiu poupá-lo. Tinha nobreza em seu sangue e já estava satisfeito com a vitória. Envergonhado pela derrota humilhante, João fugiu para o matagal que cercava a praia. O cacique então se aproximou do vencedor e o reverenciou. Daquele momento em diante, Rato seria considerado pela tribo como um grande guerreiro.
Conduzido nos ombros dos nativos em festa, Rato foi levado à aldeia. Enquanto se afastava, viu de longe que Ramona assistia tudo aquilo do convés do Esperança. Então o cacique entregou a ele um cocar. Ainda meio confuso, o grumete aceitou o presente, e o chefe dos índios gritou algumas instruções para seus guerreiros.
Um deles correu e entrou numa das ocas, a do próprio Cacique. O índio retornou de lá conduzindo pelas mãos o que parecia ser um cone de palha emplumado, do tamanho de uma pessoa, decorada da forma mais exótica possível.
Aquela espécie de árvore de Natal ambulante parou exatamente diante do jovem pirata. Quando a cortina feita de penas à frente do cone se abriu, Rato viu a índia mais maravilhosa de todos os tempos, um verdadeiro espetáculo da natureza: era a jovem herdeira do chefe da tribo, Nana.
– Com mil sereias, o cacique vai casar a filha com o moleque!
– Parece que finalmente o garoto se tornará parte da nobreza. – Observou Piri.
O capitão, que àquela altura já tinha recolhido o seu precioso oráculo caído na areia, olhou para Rato com satisfação e um pouco de orgulho. Precisaria de um novo contramestre, mas pelo menos achou ter encontrado seu substituto, quando fosse a hora.
