18. Desembarque em um novo mundo
Aproveitando as águas calmas e os ventos plácidos daquela tarde, o Esperança adentrou a baía, o que revelou ainda mais daquele novo mundo.
Os piratas se encantaram de pronto com as belezas do ambiente, tomado por áreas de mangue, ilhas de muitos tamanhos e praias paradisíacas. Botos e até baleias nadavam naquelas águas escuras. Uma verdadeira visão dos céus.
– Macacos me mordam se isso aqui não é a banheira dos Jardins do Éden! – Comparou Cabeças.
– Fascinante. Um porto natural, abrigado dos ventos e correntes. Toda a marinha do meditarrãneo poderia fundear-se nesta foz. – Analisou Piri.
– Um bom esconderijo para quem está fugindo da espada! – Avaliou João.
– Nativas índias! – Gritou Manabu, apontando para uma praia.
Do convés, os piratas avistaram algumas jovens seminuas numa praia, pegando sol, passando urucum no corpo e se divertindo jogando algo parecido com frescobol, com raquetes de madeira e uma bolinha que parecia um pequeno coco de palmeira ou outro fruto verde. À bordo, todos se animaram com mais aquela visão onírica. E quando as nativas perceberam os piratas, começaram a sorrir e a dançar, acenando para eles, muito sedutoras.
– Deixem comigo. Vou até lá, fazer… contato. Baixem o bote! – Avisou João Ramalho, com os olhos vidrados.
– Rato vai também. – Informou o capitão.
O grumete não gostou da ordem, e nem João. Trocando olhares com Ramona, Rato não parecia satisfeito com a ideia, mas não teve como recusar a missão. Naquele momento, todos os demais marujos se candidataram para desembarcar. Até mesmo Piri, que levantou o dedo indicador timidamente, quando Cabeças pediu mais voluntários.
– Até tu, Maomé? E quem vai pilotar a desgraça dessa banheira? – Estranhou o capitão.
Piri baixou a mão, frustrado.
– China! – Gritou Cabeças, para felicidade do mestre artilheiro, que abriu um sorriso e respondeu:
– Tin ka pi ton!
– Tu não vai.
China desfez o sorriso, frustrado.
– Ora, caralhos, e se precisarmos cuspir fogo nos selvagens, olho rachado?
Cabeças olhou para o resto da marujada, que agora não sabia mais se queria ser chamada:
– Asno! Fininho! Manabu!
Os três murcharam, frustrados.
– Vão vocês com João e Rato!
Os três floresceram novamente.
Quando os cinco piratas chegaram de bote na areia, viram que as nativas fugiram rapidamente da praia para dentro da mata, e vários guerreiros surgiram do mesmo local, já com suas flechas engatilhadas nos arcos.
Apavorados, os marujos se apressaram em depor suas armas e sinalizar aos nativos que tinham vindo em paz. Enquanto as armas eram recolhidas, um deles se aproximou e os cutucou com uma lança pontiaguda, gritando para que caminhassem por uma trilha que seguia pelo mato.
Do convés do Esperança, Cabeças assistiu àquela cena com preocupação, junto com a tripulação, e viu quando os cinco piratas foram conduzidos pelos índios sabe-se lá para onde. Ao seu lado, Ramona também parecia aflita.
Na praia, agora alguns dos índios pareciam protestar contra a presença dos forasteiros, brandindo suas armas e fazendo gestos ofensivos. Um deles lançou uma flecha em direçâo à caravela. O capitão deu um passo atrás e a seta caiu exatamente espetada no tabuado a sua frente.
– Xum bao nu ku, ka pi ton? – Perguntou China, já começando a preparar o canhão.
– Ainda não… Vamos esperar um pouco. Ou teremos de cozinhar a bosta de mil burros para repor a pólvora! Mais um bombardeio e ficaremos zerados.
Os demais marujos estavam apreensivos. Mas o capitão tinha outros motivos para deixar aquela situação ir mais longe:
– E também quero ver se algum desses infelizes têm condição de algum dia sentar o cu na minha cadeira.
Que ele tivesse enviado Rato, João e Manabu para o desafio, todos compreendiam. Mas ninguém ali entendeu por que Cabeças também tinha mandado dois completos imbecis com eles.
